30 outubro 2013

Resenha Crítica: "Thor: The Dark World" (Thor: O Mundo das Trevas)

 Assistir a um filme produzido pela Marvel é cada vez mais uma experiência previsível: mudam os personagens, mas a estrutura é praticamente a mesma de filme para filme, onde é procurado efectuar o menor número de danos possíveis para não gerar comoção nos fãs mais conservadores e ligar tudo a "The Avengers", neste caso a "The Avengers: Age of Ultron". Nada contra esta política, mas gradualmente torna-se uma experiência cada vez menos desafiadora, onde percebemos que existem elevados valores de produção, embora quase sempre tudo possa ser simplificado a três actos: o antagonista rompe com o status quo, o herói falha inicialmente e posteriormente lá fica quase tudo resolvido (há que deixar espaço para "The Avengers"). "Thor: The Dark World" não escapa muito a essa linha. Esta é a terceira vez que encontramos o personagem no grande ecrã, após "Thor" de Kenneth Brannagh e "The Avengers" de Joss Whedon. Com o herói devidamente apresentado no primeiro filme, a sequela passa logo por nos deixar perante este enquanto trava uma batalha em Vanaheim, numa das suas missões para pacificar os nove reinos, ao lado dos seus homens e Lady Sif (Jaimie Alexander). Anteriormente, num curto prólogo, Odin narrara a história dos Elfos Negros e o perigo que causaram a Asgard, ainda antes deste ser líder. Escusado será dizer que são esses Elfos Negros, liderados por Malekith, que vão colocar em perigo Asgard, a Terra e a estabilidade do universo. Mas já lá vamos a essa parte. Se em Asgard, Thor sofre devido à falta de Jane Foster (Natalie Portman), já esta última procura na Terra lidar com o desaparecimento do amado, que até regressou à Terra nos acontecimentos "The Avengers", mas nem lhe procurou dar uma satisfação. Jane procura consolar as suas mágoas com (Chris O'Dowd), mas Darcy (Kat Dennings) logo interrompe o jantar entre ambos e revela que receberam um sinal muito semelhante ao de há dois anos (quando Thor andava pela Terra).

 Após uma série de explicações, Jane, Darcy e Ian, o assistente desta última, deslocam-se em direcção a um edifício onde se encontram alguns jovens, que conta com um espécie de portal cujos objectos atirados nem sempre regressam e um camião que roda pelos ares. Jane vai parar a uma dimensão distante, onde toca em Aether e é contaminada pelo poder explosivo desta arma escondida por Malekith há vários anos atrás. Pouco depois, Malekith desperta, num planeta obscuro, marcado por tonalidades frias e pouca iluminação, jurando vingança aos Asgardianos, pretendendo que a escuridão domine o universo e recuperar Aether para obter poderes extraordinários. Perante o desaparecimento de Jane, Thor regressa à Terra, sendo que esta ao assimilar o Aether repele os restantes com o poder, algo que coloca a sua vida em perigo e conduz Thor a transportá-la para Asgard. Odin é contra a decisão, Sif não parece muito agradada com o acto de Thor, enquanto a mãe (Rene Russo) do protagonista mostra-se condescendente para com o filho, bem como para com Loki, que se encontra preso. A aparente calmaria é interrompida quando Malekith e os seus homens invadem Asgard em busca de Aether (no interior de Jane) e de vingar a derrota do passado. Pelo caminho, estes provocam uma destruição notória e eliminam uma personagem relevante para Thor, algo que obriga o protagonista a ter de aliar forças com o irmão numa procura para salvar Asgard, o universo, a sua amada Jane Forster e vingar uma personagem estimada pelos dois. "Thor: The Dark World" coloca-nos perante uma experiência paradoxal: os seus personagens estão em constante perigo, mas raramente sentimos que estes estão com as suas vidas ameaçadas, existindo a noção que estamos perante uma obra que teme todo e qualquer risco.

 Esta situação não deixa de ser curiosa, sobretudo se pensarmos que Alan Taylor, o realizador, conta com um conjunto interessante de episódios realizados da série "Game of Thrones", cuja coragem para tomar decisões fracturantes está a uma diferença abissal de "Thor: The Dark World". No entanto, Alan Taylor consegue contornar algumas das limitações impostas pela Marvel e da estrutura pré-definida que tem obrigatoriamente de respeitar, apresentando-nos a uma obra marcada por algumas cenas de acção bem elaborados e coreografadas (veja-se o ataque de Malekith e os seus homens a Asgard), sobressaindo todo um cuidado na elaboração dos cenários de Asgard e do planeta onde se encontra Malekith (marcado pela frieza e escuridão), um conjunto de efeitos especiais de grande nível, para além de uma procura em explorar a relação entre Loki e Thor, que se revela um dos elementos mais interessantes do filme, sobretudo devido à dinâmica entre Chris Hemsworth e Tom Hiddleston. A entrada de Loki em cena surge tarde (na primeira metade está confinado à prisão), mas mesmo assim pronta a roubar o destaque do filme, com o seu personagem a ser sempre mais interessante e complexo do que o protagonista, com Tom Hiddleston a revelar um carisma para o seu personagem a fazer recordar Robert Downey Jr. com o seu Tony Stark. Esta situação não quer dizer que Chris Hemsworth esteja mal, mas o seu personagem nunca chega a gerar os mesmos níveis de interesse do personagem interpretado por Hiddleston, sempre mais complexo e pronto a disparar falas mordazes. Hemsworth sobressai ainda ao lado de Jane Foster, embora o argumento seja demasiado preguiçoso na forma como integra esta personagem na história do protagonista, não faltando um conjunto de coincidências que fazem doer o nosso lado mais pragmático, mesmo quando estamos perante um filme onde a acção e fantasia se reúnem. Portman faz o que pode com a personagem, mas tal como Hemsworth acaba muitas das vezes apagada pela ainda mais secundária Kat Dennings, que surge como o alívio cómico Darcy. Apesar de tudo, o elemento menos aproveitado é mesmo Christopher Eccleston como Malekith, um vilão unidimensional que pouco se destaca, sendo um dos grandes problemas do filme: não conta com um antagonista à altura.

  É verdade que Malekith causa uma destruição em massa, que provoca a eliminação de uma personagem relevante para a vida do protagonista, mas o seu desenvolvimento e as suas intenções são do mais pueril possível, sendo provavelmente dos antagonistas com menos carisma dos filmes recentes da Marvel (diga-se que "Iron Man 3" já não tinha sido muito feliz neste capítulo). Em comparação com "Thor", a sua sequela fica sempre a perder neste quesito do antagonista, bem como nas explicações científicas muitas das vezes absurdas e num triângulo amoroso entre Thor, Jane e Sif que nunca chega realmente a existir e prova mais uma vez a incapacidade do argumento em aventurar-se por caminhos mais tortuosos. O que leva por vezes a que surja a questão sobre até quando é que estes filmes continuarão a manter a sua vitalidade junto do público mais lato se continuarem a manter a mesma fórmula. "Thor: The Dark World" entretém a espaços, contém algumas cenas de acção marcantes, acerta nos momentos de humor (não caindo nos exageros de “Iron Man 3”), cria um reino de Asgard visualmente impressionante, mas é tudo muito previsível, perdendo-se perante um argumento pouco elaborado e uma estrutura que procura ligar tudo a "The Avengers: Age of Ultron" que o torna mais num filler para conduzir ao "episódio principal". No meio de tudo isto temos Alan Taylor, um realizador marcado por vários trabalhos televisivos, que tem em "Thor: The Dark World" a sua primeira experiência num filme de largo orçamento, fazendo aquilo para que foi contratado pelo estúdio, sem grandes laivos de genialidade ou criatividade, mas também sem comprometer. Entre muita acção, algumas doses de humor, uma exploração assertiva de Asgard e um Tom Hiddleston cheio de mordacidade, "Thor: The Dark World" surge como uma obra mediana que se revela como mais uma pequeno episódio rumo a "The Avengers: Age of Ultron", mas pouco mais do que isso.

Classificação: 2 (em 5)
 
Título original: “Thor: The Dark World”.
Tìtulo em Portugal: “Thor: O Mundo das Trevas”.
Título no Brasil: “Thor 2 – O Mundo Sombrio”.
Realizador: Alan Taylor.
Argumento: Christopher Yost, Christopher Markus, Stephen McFeely.
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Idris Elba, Christopher Eccleston, Anthony Hopkins, Rene Russo.

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