10 outubro 2013

Resenha Crítica: "Prisoners" (Raptadas)

 Durante uma entrevista concedida ao Coming Soon para divulgar “Prisoners”, o realizador Denis Villeneuve salientou que no studio system é tudo sobre o “momentum”. O comentário surgiu integrado numa resposta a uma questão relacionada com o argumento do filme ter demorado cerca de cinco ou seis anos para sair do papel, com outros nomes ligados ao projecto, mas que por uma razão ou por outra este só saiu da gaveta com Villeneuve. Em "Prisoners" não diríamos que é tudo uma questão de momentum, mas sim de pormenores e engenhos vários, com Denis Villeneuve a orquestrar uma obra inquietante, pura de intensidade emocional, criando um universo narrativo marcado por um enorme realismo, onde explora um dos piores pesadelos de qualquer pai e mãe: perder um filho. Esta premissa é explorada assertivamente graças a um argumento de bom nível e uma história intrincada, marcada por reviravoltas certeiras e personagens bem construídos e complexos, dando a Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal a oportunidade de terem desempenhos que prometem deixar marca. Jackman interpreta Keller Dover, um pai de família, casado com Grace (Maria Bello), de quem tem dois rebentos, Anna (Erin Gerasimovich) e Ralph (Dylan Minnette). Keller é carpinteiro de profissão e religioso devoto, algo visível quando no início do filme faz uma oração, enquanto ensina o filho a matar um cervo. Salta desde logo à vista o trabalho de fotografia de Roger Deakins, capaz de captar o território selvagem marcado pela neve e pela morte de um ser vivo. Pouco depois, acompanhamos a família Dover, enquanto os seus elementos passam o Dia de Acção de Graças na casa dos Birch, um casal amigo, formado por Franklin (Terrence Howard) e Nancy (Viola Davis), bem como as suas duas filhas, Joy (Kyla Drew Simmons) e Eliza Birch (Zoe Borde). 

 Os dois casais entendem-se às mil maravilhas e protagonizam alguns momentos de amena cavaqueira, com a sala a ser marcada por um ambiente caloroso, onde se nota toda uma procura em conciliar os cenários com os personagens e os seus estados de espírito. No entanto, a felicidade não dura sempre. Joy e Anna, as filhas mais novas dos dois casais, que contam com 6 e 7 anos de idade, decidem ir sozinhas até casa da segunda, para que esta encontre o apito vermelho que perdeu. O pior acontece. As duas desaparecem. A chuva corre, os cenários cinzentos e o desespero dominam, contrastando com o calor festivo que acontecera na casa. Em paralelo, encontramos Loki (Jake Gyllenhaal), um detective da polícia, que se encontra num restaurante chinês, quando recebe a notícia do desaparecimento das duas crianças. O principal suspeito é Alex Jones (Paul Dano), um indivíduo com um QI de uma criança de 10 anos de idade, que se encontrava numa caravana perto do local onde ambas as raparigas desapareceram. Sem provas para incriminar Alex, a polícia é obrigada a soltar este, enquanto o jovem, que até tinha dito desconhecer as jovens, sussurra junto de Keller: "elas só ficaram tristes quando as deixei". Está dado o mote. Mais tarde Keller rapta Alex e começa uma jornada de desafio às suas próprias convicções morais e religiosas, enquanto procura a todo o custo descobrir o paradeiro de Joy e Anna, antes que seja tarde demais. A jornada de Keller é violenta. Este cai num abismo emocional perigoso, onde parece disposto a quase tudo, dando espaço para Hugh Jackman destacar-se como este homem solitário, que procura estar sempre prevenido, cheio de contradições e duelos internos, que tem ainda de conciliar a sua função de esposo, enquanto tem a mulher a entrar numa grave depressão.

 Jackman brilha pela intensidade dada ao personagem, proporcionando momentos dignos de enorme atenção ao lado de Gyllenhaal e até de Paul Dano, sobressaindo o momento em que este "estoira" o martelo contra a parede e quase desfaz o rosto do suposto raptor. Denis Villenuve surpreende pela forma como nos apresenta este protagonista cheio de contradições, um indivíduo que está longe de ser o herói certinho, mas sim alguém que comete erros e actos reprováveis, muito próximo da enorme humanidade dada pelo cineasta aos seus personagens e à narrativa, beneficiando claramente do argumento de Aaron Guzikowski. Diga-se que o mérito do desenvolvimento dos personagens não é todo do argumento, mas também da inteligência do cineasta e no facto deste contar que os espectadores estão dispostos a não ter toda a informação exposta de forma totalmente directa. Vileneuve povoa a narrativa de pequenos sinais e pistas, quer sobre os acontecimentos, quer sobre os personagens, deixando-nos subtilmente elementos sobre o passado destes e pistas para mais tarde descobrirmos o seu significado. Vejam-se três exemplos práticos: as tatuagens de Loki, os vidros sujos e o andar deixado pelo pai de Keller. As tatuagens indicam um passado algo conturbado fora do circuito policial ou até uma missão infiltrada do polícia; os vidros embaciados e/ou sujos indicam uma procura do cineasta em captar o real, expor algum mistério e sobressair a sujidade que rodeia os personagens (no sentido literal e figurado); o edifício deixado pelo pai de Keller a este último é referido no início do filme e tem um papel crucial no desenrolar da narrativa. 

 A correcta utilização do andar ao serviço do enredo é paradigmático da astúcia do cineasta em explorar os cenários, em criar um ambiente claustrofóbico e violento, em dominar os recursos cénicos à sua disposição, beneficiando do magnífico trabalho de fotografia de Roger Deakins para criar toda uma procura em adensar os acontecimentos da narrativa, com a câmara a deslocar-se minuciosamente em determinados momentos da narrativa, balançando um pouco como as emoções do espectador, enquanto os personagens vivem momentos de grande intensidade emocional. Esses momentos mais emocionais não seriam os mesmos sem este elenco de luxo que Villeneuve conseguiu reunir. De Jackman importa ainda salientar o facto deste se ter despido de Jean Valjean e Wolverine e dar aquela que é uma das melhores, para não dizer a melhor interpretação da sua carreira. Gyllenhaal não fica muito atrás do seu colega, dando vida a um agente solitário, que gradualmente se embrenha no caso a um ponto deste tomar conta da sua vida. Estes são as duas figuras centrais de uma narrativa que não descura o desenvolvimento dos seus personagens secundários, destacando-se Paul Dano como um indivíduo aparentemente desprovido de emoções e inteligência, mas que guarda segredos relevantes; Melissa Leo como a tia de Alex, uma mulher que terá uma enorme relevância no último terço da narrativa; Terrence Howard e Viola Davis como o outro casal desesperado; Maria Bello como a esposa deprimida. 

 No final, o brilho maior que ofusca os seus actores é de Denis Villeneuve, pela sua coragem em dar um final ambíguo e corajoso como já nem sempre se vê nos filmes do género, por colocar-nos perante personagens complexos, numa história sem falsas lições de moral, onde a religião está sempre presente. Seja na oração enquanto o protagonista está junto do filho mais velho a caçar um servo, seja quando ouve o sermão de um padre na rádio quando está prestes a "caçar" Alex, ou quando ora num momento de maior pecado, a religião marca a vida de Keller, sobretudo nos momentos de maior duvida moral. Esse desafio da moralidade é o ponto central da narrativa, que nos coloca perante a complexa questão: o que estamos dispostos a fazer para salvar um ente querido? Quer dizer, a questão até é simples, mas a sua resposta nem por isso. No caso de "Prisoners", a resposta a essa pergunta surge exposta de forma mais do que complexa a partir dos dois casais, com os quatro elementos a reagirem de forma distinta, com o personagem interpretado por Hugh Jackman a destacar-se pela forma como o seu personagem evolui gradativamente numa escalada de violência, sempre sem esquecer de que o que está a fazer é errado. Keller sente medo, raiva, fúria, dor, angústia, sendo um poço de emoções, que nos arrasta consigo até ao abismo. A certa altura Franklin e Nancy questionam os actos do protagonista, apresentando alguma rectidão moral, mas também não são capazes de o travar. Já Grace cai em depressão, procura confiar no marido e nas autoridades, mas sofre e muito, caindo pela cama, enquanto procura a todo o custo não adormecer. A relação entre os casais não parece estar em risco, embora os problemas que Dover teve no passado com o álcool pareçam ainda causar ressonância, sobretudo junto do filho mais velho.

 Estamos assim perante um conjunto de personagens amplamente humanos, em todas as suas contradições, defeitos e virtudes, enquanto lidam com um dos casos mais complicados das suas vidas e Denis Villeneuve nos coloca perante uma narrativa inquietante, marcada por subtilezas várias sobre o passado dos personagens, uma banda sonora adequada (muitas das vezes associada à religiosidade) e uma atmosfera tensa. Mais do que ser comparado a obras como "Seven" e "Zodiac" de David Fincher, "Prisoners" merece ser visto como alvo de futuras comparações, revelando-se uma obra corajosa para o seu tempo, com uma duração não agradável aos ímpetos comerciais dos estúdios, mas que dá tempo para Denis Villeneuve construir um conjunto de personagens complexos e comprovar tudo o que de bom se disse sobre o seu trabalho em "Incendies". A realização de Villeneuve é acertada, capaz de nos envolver e fazer mexer na cadeira, ao longo de uma história marcada pela poeira das janelas, pela sujidade que pode atravessar os espíritos e pelo desafio de um pai que se violenta psicologicamente para ir contra os valores morais e entrar numa busca frenética pela sua filha. Esta é uma busca do protagonista, que posteriormente se torna do personagem interpretado por Jake Gyllenhaal e também nossa, com o cuidado que existiu ao longo do desenvolvimento dos personagens a ser compensado com a nossa preocupação por estes, sendo criada uma total disponibilidade para nos envolvermos nas trevas das suas almas. Ficamos assim perante aquele que provavelmente é um dos melhores thrillers do ano e arriscamos a dizer deste curto século XXI, com Denis Villeneuve a revelar-se não um nome a ter em atenção, mas sim a seguir sem quaisquer dúvidas e contemplações.

Classificação: 4.5 (em 5). 

Título original: "Prisoners". 
Título em Portugal: "Raptadas". 
Realizador: Denis Villeneuve.
Argumento: Aaron Guzikowski.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Hugh Jackman, Paul Dano, Maria Bello, Melissa Leo, Viola Davis. 

1 comentário:

José Couto disse...

Parabéns pela bem fundamentada crítica, com a qual concordo na generalidade. Só tenho pena que não tenha sido feita referência à estupidez dos distribuidores que transformaram "Prisoners" em "Raptadas"... como, infelizmente, acontece frequentemente em Portugal, um título original ambíguo e inteligente - todos são "prisoneiros" - as crianças perante os seus raptores, os raptores perante as suas crenças e fundamentalismos, os pais perante a sua moral e os seus preconceitos, o detective perante os seus traumas, o padre perante os seus vícios...) - é substituído por um dirigido a um alegado público mentecapto...

Cumprimentos cinéfilos,
José Couto