21 outubro 2013

Resenha Crítica: "Mud" (Fuga)

 O rio Mississippi parece pequeno para os sonhos e sentimentos contidos em "Mud", o novo filme realizado por Jeff Nichols, um cineasta cuja relevância no panorama actual do cinema norte-americano é cada vez menos uma surpresa e cada vez mais uma certeza. Nichols transporta-nos para uma história que parece saída de um conto de encantar, ou melhor, de um livro de Mark Twain. Não temos Tom Sawyer nem Huckleberry Fynn, mas temos Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), dois jovens adolescentes na transição para a idade adulta, que vivem em De Witt, no Arkansas, localizado no Sul dos EUA. Durante uma deslocação de barco a uma pequena ilha, Ellis e Neckbone deparam-se com um barco abandonado no topo de uma árvore, que logo descobrem pertencer a um indivíduo estranho, com um modo de falar muito próprio, um aspecto meio errante, onde não falta o cabelo desgrenhado e barba por fazer, mas com um magnetismo que lhes parece transmitir sentimentos mistos entre suspeição e confiança. Este homem é Mud (Matthew McConaughey), que logo forma uma certa relação de amizade com os rapazes, sobretudo com Ellis, ao passo que Neckbone parece mais desconfiado. Mud revela que viveu nas imediações e que se encontra temporariamente na ilha, prometendo dar o barco aos rapazes se estes o ajudarem, enquanto espera por alguém com quem marcou um encontro. É difícil para estes saberem o que pensar desta figura que surge em osmose com o território desta ilha, algo selvagem, isolado e por vezes distante de uma realidade mais sombria. Os cenários solarengos surgem exacerbados pelo belíssimo trabalho de fotografia de Adam Stone, capaz de explorar o território marcado por árvores e espaços verdejantes, as folhas castanhas caídas pelo solo e o terreno arenoso marcado pelo rio. O cenário é belo, propiciador de tranquilidade, embora esta seja uma aprazibilidade apenas aparente, com Mud a ter segredos por revelar, que paulatinamente vão sendo descobertos.

 Um dos primeiros momentos que indicam que algo não está bem surge desde logo por Mud estar escondido na ilha. Mas mais pequenos sinais indicam problemas. Veja-se a sua pistola escondida, descoberta quando a dupla de amigos lhe trouxe comida, mas também quando a polícia pergunta a Ellis e à sua mãe (Sarah Paulson) se o viram a pedir boleia, numa patrulha efectuada em busca deste homem procurado. Mud espera Juniper (Reese Witherspoon), a sua amada, que descreve como a mulher mais bonita que já viu. A beleza com que Mud a descreve surge representada na figura da personagem interpretada por Witherspoon, com Juniper a aparecer junto de nós pela primeira vez com uma camisola branca, calções de ganga muito curtos, borboletas tatuadas na mão e algum mistério. Ellis e Neckbone encontram-na no Piggy Wiggly, um supermercado das imediações do motel onde esta habita. Ellis procura reunir Mud com a amada, Neckbone parece sempre mais desconfiado em relação ao carácter de Mud. O próprio enredo propicia esse desconfiar, com Jeff Nichols a criar um enorme mistério em relação a esta figura escondida na ilha deserta, que aos poucos vamos conhecendo. Para além da história de Mud, temos ainda as histórias particulares de Ellis e Neckbone a serem desenvolvidas. Neckbone é órfão e vive com o tio (Michael Shannon), sendo mais pragmático e menos sonhador que o amigo. Ellis tem uma paixoneta platónica por May, uma jovem que apenas conhece de vista, até a defender quando esta se encontrava a ser importunada. Se a paixoneta surge inicialmente apresentada com alguma candura, já a vida familiar de Ellis revela-se algo revolta, com a mãe a se querer separar do pai e querer ir para a cidade, algo que desagrada o jovem de catorze anos de idade. Este não se sente um rapaz da cidade e pretende ficar no local onde nasceu, tendo dificuldade em compreender como os pais, que se encontram casados, não se amam como outrora. Estamos perante a representação das dores de um jovem para a idade adulta, tendo de lidar com problemáticas próprias dos jovens da sua idade, mas também dos adultos.

 A estes personagens junta-se ainda o misterioso Tom Blankenship (Sam Shepard), um indivíduo cuja relação com Mud é algo misteriosa (até ao final do filme), com a dupla a protagonizar um momento de maior intensidade. Com o desenrolar da narrativa vamos ficando a saber o crime cometido por Mud e as implicações que este tem junto do protagonista e de Juniper, ao mesmo tempo que a dupla de adolescentes vai crescentemente se envolvendo no caso deste homem misterioso, que é perseguido não só pela polícia, mas também por um grupo de indivíduos pronto a assassiná-lo devido ao crime que cometeu. Nada em "Mud" é completamente linear e fácil, com o nome do título original do filme a remeter não só para o protagonista, mas também para o terreno enlameado em que os vários personagens se envolvem: Mud cometeu um crime, sendo perseguido por isso; a relação entre Juniper e Mud é bem mais complexa do que um conto de fadas e está longe dos nos fazer acreditar que algum dia viverão felizes para sempre; Ellis mantém uma relação complicada com os pais que se encontram prestes a se divorciar; Neckbone é órfão e vive com o tio; Blankeship tem um passado misterioso; a amizade entre os dois rapazes e Mud é muito marcada por segredos. Ou seja, ficamos perante uma teia narrativa bem construída, onde os seus personagens e as motivações nem sempre se revelam lineares e exacerbam a qualidade do argumento escrito por Jeff Nichols, parcialmente inspirado na infância do cineasta, ou não fosse este oriundo do Arkansas. Nichols começa por nos encantar com as belas paisagens do território da ilha (que contrastam com a convulsão na cidade), construindo os seus personagens e os seus relacionamentos, conseguindo com que nos importemos com estes e a sua história, ao mesmo tempo que procura criar uma certa ambiguidade em relação aos seus personagens e temáticas.

Essa ambiguidade fica visível na representação do amor: Mud é um sonhador, embora esconda muitas das vezes a verdade; Juniper está longe de ser a princesa encantada; Ellis tem um primeiro amor algo conturbado; o pai de Ellis procura sempre salientar que o filho não deve confiar nas mulheres. No entanto, o amor está longe de ser apresentado como algo de maligno, bem pelo contrário, é sim apresentado como algo intrincado e complexo, que está longe da simplicidade dos contos de encantar. A vida é bem mais complexa do que os sonhos e "Mud" salienta-nos isso mesmo, embora nunca perca a sua faceta algo sonhadora, enquanto nos transporta para a perda da inocência de dois adolescentes em plenas descobertas dos problemas dos adultos e dos jovens da sua idade. Ellis e Neckbone têm catorze anos mas vivem experiências enriquecedoras para a formação das suas personalidades, que beneficiam das interpretações assertivas de Tye Sheridan e Jacob Lofland. No entanto, quem mais brilha ao longo do filme é Matthew McConaughey, um actor que cada vez mais merece ser tido em atenção, tendo em Mud um personagem que parece viver numa realidade distinta, mas ao mesmo tempo tão tangível. O seu personagem procura a sua amada pela qual vive obcecado, forma amizade com dois jovens, mente, diz verdades, é supersticioso (veja-se a relevância que dá à sua camisa), revela-se intrincado, sendo o exemplo perfeito de alguém de boa índole que erra e comete um acto gravoso.

McConaughey surge ainda bem acompanhado por Reese Witherspoon, com a actriz a ser capaz de aproveitar o pouco tempo que tem no ecrã para mostrar as diferentes facetas da sua Juniper. Esta não é a princesa nem a antagonista, não é doce nem fria, é apenas uma mulher que erra, cujo passado em comum com Mud parece ser demasiado complexo para um dia conseguirem ter algo no futuro. Vale ainda a pena salientar as interpretações de Sam Shephard, Michael Shannon (protagonista dos dois filmes anteriores de Nichols) e Sarah Paulson, numa obra capaz de desenvolver os seus personagens, marcada por uma banda sonora recheada de temas adequados à narrativa e um trabalho de fotografia exemplar. O trabalho de fotografia destaca-se não só pelos cenários solarengos, mas também quando decide mudar o foco e apresentar-nos cenas nocturnas, como no momento em que Ellis decide ir ter com Mud a meio da noite. A luz nocturna é pouca, a lareira praticamente apenas ilumina o homem misterioso e o adolescente, resultando num clima de maior intimismo, mais discreto do que os planos do território, procurando acima de tudo colocar no centro estes personagens. Os relacionamentos entre os personagens e as evoluções destes ao longo da narrativa são o cerne desta história, onde o território não é completamente inocente no modo de vida e comportamento dos mesmos, com o rio Mississippi a surgir como pano de fundo e o perigo a aparecer onde menos se espera, gerando-se um tenso último terço da narrativa, marcado por algumas reviravoltas e tensão. É através de rio que Ellis e Neckbone chegam até à ilha, conhecem Mud e regressam a De Witt, ao mesmo tempo que vivem um conjunto de aventuras dignas de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, numa obra paradigmática da importância de Nichols no contexto cinematográfico norte-americano nos dias de hoje.

Classificação: 4 (em 5). 
Título original: "Mud".
Título em Portugal: "Fuga". 
Realizador: Jeff Nichols. 
Argumento: Jeff Nichols. 
Elenco: Matthew McConaughey, Reese Witherspoon, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Sam Shepard, Michael Shannon, Sarah Paulson.

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