15 outubro 2013

Resenha Crítica: "Machete Kills" (Machete Mata)

 Entre referências a "Star Wars" e "Moonraker", homenagem a filmes de série b, muita acção, sangue e mortes espalhafatosas, "Machete Kills" exacerba o estilo em detrimento do conteúdo, embora nem por isso seja uma obra que não mereça alguma atenção. Robert Rodriguez regressa a este personagem que tanto estima, que teve como primeira aparição um trailer falso de "Grindhouse" e posteriormente um filme a solo, para nos deixar perante mais uma história onde o desengonçado Machete promete muita matança, que poderá não se ficar por "Machete Kills", com o cineasta a brindar-nos com um trailer falso a anteceder o novo filme, onde podemos encontrar Machete em pleno espaço, numa aventura que prometerá reunir algumas pontas deixadas em aberto por esta obra. Falar em pontas soltas em "Machete Kills" é algo de redundante e um excesso de boa vontade, pois mais do que uma história coerente e um argumento elaborado, Rodríguez procura aproveitar o conjunto de estrelas que reuniu para o elenco e povoar a narrativa de falas cheias de estilo, misoginia, violência, mulheres com as formas corporais exacerbadas, sangue, tripas, cabeças e corpos cortados e a elevação de Danny Trejo à sua "musa" cinematográfica. Rodriguez até pode ter feito um favor ao amigo Quentin Tarantino e realçado os pés de Amber Heard, com um plano detalhe, enquanto a personagem desta pinta as unhas de vermelho e existem sinais de um certo fetiche por esta parte do corpo da actriz, mas o verdadeiro interesse do cineasta está em explorar alguns dos poucos talentos do "Steven Seagal mexicano".

 Trejo volta a dar vida a este anti-herói mexicano, ícone que desafia os símbolos yankees, invertendo os papéis ao ter de ser um mexicano a salvar o dia, perante um Presidente muito peculiar, interpretado por um Charlie Sheen propositadamente renomeado de Carlos Estevez, que legalizou a marijuana, colocou um muro para evitar a emigração ilegal e adora a companhia feminina. O primeiro contacto entre Machete e o Presidente surge depois deste último ter salvo in extremis o anti-herói, após este ter sido capturado por um xerife e o seu ajudante, sendo acusado do assassinato de Sartana (Jessica Alba), que fora eliminada por um conjunto de mafiosos. Sartana e Machete encontravam-se a tentar travar um negócio de tráfico de armas no México, mas a perícia do protagonista não foi suficiente para salvar a bela agente. Machete é designado pelo Presidente para travar Mendez (Demián Bichir), um revolucionário mexicano, que ameaça enviar um míssil para Washington que coloca em causa o país ("um clister no rabo dos EUA”, segundo o antagonista). A salvação para travar Mendez, que exige o apoio dos EUA na limpeza dos cartéis e da escória do México, é Machete, que conta com a Miss San Antonio (Amber Heard) como contacto, tendo em vista a ajudá-lo no território. Mendez é um indivíduo bipolar, que tanto pode surgir como um revolucionário ou como um sanguinário, regressando-lhe às memórias e aos actos os seus tempos no cartel. Machete procura chegar a Mendez através de Cereza (Vanessa Hudgens), que mantém um caso com o antagonista, conseguindo contactar com esta no bordel de Desdemona (Sofia Vergara), a mãe da primeira, onde trabalha ainda Killjoy (Alexa Vega), entre outras prostitutas.

 Após muito aparato, Machete logo se livra das meretrizes violentas e consegue que Cereza o conduza até Mendez, embora a rapariga acabe morta pelos homens do revolucionário, uma situação que leva o protagonista a ser perseguido pela violenta personagem interpretada por Sofia Vergara e as suas mulheres. Ao contactar de perto com Mendez, Machete cedo percebe que a conspiração é muito mais lata, com o verdadeiro perigo a vir de Luther Voz (Mel Gibson), um multimilionário que permite a Rodríguez efectuar algumas referências a "Star Wars" e colocar o protagonista em perigo. Pelo meio temos ainda a subtrama do Camaleão, um assassino em busca de Machete, que surge de desculpa para Robert Rodríguez utilizar um conjunto de caras conhecidas, enquanto o vilão muda de face. Desde Walter Goggins, passando por Cuba Gooding Jr., Lady Gaga e Antonio Banderas, este antagonista é o expoente máximo da loucura e incoerência que permeia a narrativa deste filme, que muitas das vezes não parece fazer sentido, mas nem por isso deixa de resultar e proporcionar alguns agradáveis momentos de cinema. Apesar de contar com uma narrativa algo atabalhoada, um conjunto de reviravoltas nem sempre bem arquitectadas e um argumento que parece bailar ao som das estrelas do elenco, "Machete Kills" revela-se um filme de acção relativamente competente, marcado por muito humor negro, diálogos propositadamente manhosos e a ironia de um mexicano ser o herói que tem de salvar os orgulhosos yankees.

 O filme pouco faz progredir o personagem do título em relação ao filme anterior, cuja grande evolução passou a ser saber enviar mensagens por telemóvel, enquanto continua a cortar as suas vítimas com um machete e a aterrorizar os seus inimigos, beneficiando de todo o carisma de Danny Trejo. Não é que Trejo seja bom actor, mas este personagem assenta-lhe na perfeição, com as suas expressões quase sempre sérias a adequarem-se paradigmaticamente, enquanto repete "Machete" e mostra a sua perícia na arte da pancada. Trejo surge bem acompanhado por elementos como Michelle Rodríguez, Amber Heard, Demián Bichir e acima de tudo Mel Gibson. Longe dos melhores tempos da sua carreira, Gibson tem consciência do ridículo do seu papel, oferecendo-lhe uma aura dos antagonistas da saga 007 nos tempos dos maiores exageros de Roger Moore, ao mesmo tempo que permite algumas referências a Star Wars. As referências a "Star Wars", bem como a "Moonraker", acabam por fazer a ponte para o possível terceiro filme e remeter para o enérgico trailer falso do início de "Machete Kills", mas também permitem a Robert Rodríguez levar mais adiante esta sua irreverência. Rodríguez não poupa na violência, nas cenas de acção viscerais, na representação da mulher de forma algo machista, na crítica à excessiva intervenção dos EUA (veja-se que o presidente envia Machete numa missão fora da lei), mas tudo parece servir um propósito da narrativa.

 O próprio trabalho de fotografia surge marcado por imperfeições propositadas para dar ares de filme de série B, bem como o adensar do sangue falso que por vezes até vai em direcção à câmara e a banda sonora pronta a causar impacto no espectador. Junte-se ainda uma ironia na representação do Presidente dos EUA e o pouco valor dado por este às leis, bem como aos cidadãos mexicanos, aliados a uma certa mordacidade em volta de um caótico retrato do México e ficamos perante uma obra enérgica, que promete não agradar a todos e até ofender, onde nem a puerilidade dos discursos das misses e o 3D no cinema passam em claro. Claro que Rodriguez acaba por conduzir a narrativa por caminhos turvos, caindo em exageros e redundâncias, exagerando claramente na duração do filme quando o seu argumento não daria para mais do que uma hora de filme, esticando a um ponto que chega a cansar. No entanto, tudo é permeado por uma dose de saudável loucura, onde não falta Sofia Vergara a disparar balas do seu soutien e do cinto com uma pistola fálica, Machete em cima de um míssil, Mel Gibson "à Darth Vader", entre muitos outros momentos de uma obra irreverente, que deambula entre o absurdo e o cómico, resultando num filme de acção a merecer alguma atenção.

Classificação: 3 (em 5).

Título original: “Machete Kills”.
Tìtulo em Portugal: “Machete Mata”.
Título no Brasil:
Realizador: Robert Rodriguez.
Argumento: Robert Rodriguez.
Elenco: Danny Trejo, Michelle Rodriguez, Mel Gibson, Jessica Alba, Carlos Estevez, Lady Gaga, Amber Heard, Demián Bichir, Vanessa Hudgens, Sofia Vergara, Antonio Banderas.

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