01 outubro 2013

Resenha Crítica: "Jurassic Park" (Parque Jurássico)

 Há cerca de 65 milhões de anos, um evento catastrófico conduziu a uma extinção em massa da maioria das espécies de dinossauros. No dia 11 de Junho de 1993, estes estranhos seres "regressaram temporariamente à vida" em “Jurassic Park”, um dos filmes relevantes da carreira de Steven Spielberg, que marcou gerações e espelha uma capacidade notável do cineasta para realizar blockbusters que aliam entretenimento, boa realização, bons efeitos, uma história agradável e um toque mágico que dão à obra algo de extremamente apelativo e sonhador, com o cineasta a saber explorar o enorme apelo que os dinossauros têm junto do público. Este apelo pode ser explicado devido ao facto destes lendários seres nunca terem sido presenciados pelos seres humanos, dando lugar à imaginação e aos mitos e lendas sobre os mesmos, com a cultura popular a saber aproveitar essa popularidade dos dinossauros, com o cinema a não ser excepção. Veja-se “Gertie the dinosaur” (1914), uma curta-metragem de animação que se centrava num brontossauro, sendo que, em 1925, os dinossauros tiveram direito a um filme com actores reais em “The Lost World”, a célebre adaptação da obra literária de Arthur Conan Doyle, bem como “King Kong” (1933, segundo Spielberg uma das inspirações), "The Beast from 20,000 Fathoms" (1953), a franquia de "Godzilla", para além da célebre saga de filmes (e série) de animação de "Em Busca do Vale Encantado", entre outras obras cinematográficas.

 No entanto, em vários dos exemplos citados, estas obras caracterizavam-se pelo visual pouco realista com que representavam os movimentos e o visual dos dinossauros (em “Gojira” chegávamos a ter humanos vestidos com fatos), algo distinto do apresentado em "Jurassic Park" que se revelou inovador ao apresentar os dinossauros de forma algo verista, com uma perfeição e desenvoltura notáveis, que ainda hoje impressionam pela sua atenção ao pormenor ("Godzilla" de Roland Emmerich foi feito vários anos depois e não consegue ter o mesmo aprumo visual). Para este representação deslumbrante dos dinossauros, cuja textura, movimentos e profundidade dão a sensação de estarmos perante seres reais, muito contribuiu o trabalho da equipa da ILM contratada para trabalhar no projecto, que permitiu dar uma outra dimensão a esta história recheada de acção, aventura, drama e algum humor, onde o excêntrico milionário John Hammond (Richard Attenborough) decide contratar um grupo de cientistas para criar dinossauros através da extracção do ADN de mosquitos e desenvolver um parque com dinossauros vivos na Ilha Nublar. Esta iniciativa acarreta custos, pelo que a seguradora obrigou-o a procurar a opinião de dois especialistas no assunto, com este a escolher o paleontólogo Dr. Alan Grant (Sam Neill) e a Drª. Ellie Sattler (Laura Dern). Grant e Sattler formam um casal apaixonado pelo seu trabalho, que acaba por ser persuadido por Hammond a viajar para a ilha e dar a sua aprovação ao Parque Jurássico. Aos personagens de Sam Neill e Laura Dern junta-se ainda o Dr. Ian Malcom (Jeff Goldblum), um matemático irreverente que é contratado pelo advogado (Martin Ferrero) dos investidores para inspeccionar o Parque, bem como os dois netos do magnata, Lex (Ariana Richards) e Tim Murphy (Joseph Mazzello).

 A chegada destes ao Parque é acompanhada pela perplexidade com que os mesmos olham para o local, indo ficar impressionados ao verem pela primeira vez um braquiossauro de carne e osso, no meio de um cenário aparentemente paradisíaco, que os deixa com algumas reservas em relação aos efeitos secundários desta "maravilha científica". No entanto, a beleza do espaço e a incredulidade de verem os dinossauros a ganharem vida torna-se algo de fascinante para os personagens e para os espectadores, superando muitas das vezes algum pragmatismo em relação ao projecto, com Steven Spielberg a abrir-nos as portas do Parque Jurássico e a apresentar-nos um fantástico mundo à parte da realidade, recheada de paisagens idílicas habitadas por uma miríade de espécies de dinossauros, que expõem todo o demorado trabalho de efeitos a cargo da ILM. Este “novo Éden” logo se transforma num pesadelo, quando Dennis Nedry (Wayne Knight), um funcionário corrupto ao serviço de uma corporativa rival, desliga o sistema de segurança do parque para poder roubar um conjunto de embriões de dinossauros fertilizados. Com o sistema de segurança desligado, Grant, Ellie e os netos de Hammond têm de lutar contra o tempo para se conseguirem manter vivos, enquanto assistem à morte de vários funcionários do parque e os dinossauros ao ataque, com Steven Spielberg a envolver o espectador numa montanha-russa de emoções, ao mesmo tempo que coloca em perigo a vida dos seus protagonistas. Spielberg exibe uma enorme habilidade para gerir a narrativa, apresentando-nos a uma obra inicialmente próxima de um conto de fadas, que gradualmente se transforma num pesadelo e numa luta pela sobrevivência, marcada por uma enorme violência e tensão, sobretudo devido à enorme capacidade do cineasta em criar uma atmosfera de insegurança em volta dos personagens.

 Essa insegurança é visível não só naquilo que "Jurassic Park" mostra, mas também naquilo que não exibe, com as silhuetas dos dinossauros e o som do seu aproximar a simbolizarem o perigo no último terço do filme, com Spielberg a oferecer-nos alguns momentos de terror, que contrastam com a aparente harmonia inicial. Os momentos iniciais no parque são de pura beleza, quase idílica, evidenciando toda uma preocupação da equipa criativa na elaboração dos cenários verdejantes e dos dinossauros, algo que aliado a uma banda sonora sublime e capaz de se adequar a cada momento, com John Williams a surgir fora do "piloto automático" e um argumento bem escrito de Michael Crichton (autor do livro que deu origem ao filme) e David Koepp elevam e muito a narrativa. Diga-se que toda esta beleza dos cenários é facilmente contrastada a partir do momento em que os dinossauros começam a colocar em perigo a vida dos humanos, quando Spielberg transforma os espaços interiores e fechados do Parque em territórios escuros e claustrofóbicos, e a ilha Nublar se transforma num local demasiado pequeno para a presença em simultâneo de humanos e dinossauros, colocando os vários personagens a correrem pelas suas vidas, enquanto o argumento consegue dar espaço a cada um dos elementos para sobressair. Se Sam Neill é a figura que mais se destaca devido a ser o protagonista, um paleontólogo estudioso e perspicaz, que não tenciona ter filhos mas aos poucos começa a criar uma relação de amizade com os netos de Hammond, já Jeff Goldblum consegue "roubar" a maioria dos destaques nas cenas ao atribuir uma rebeldia e sarcasmos únicos ao seu personagem, com este a ser o elemento mais cínico da equipa, ao contrário do personagem interpretado Attenborough, um sonhador nato que por vezes parece uma criança mimada a querer a todo o custo ter um novo brinquedo.

Num universo narrativo maioritariamente dominado por homens vale ainda a pena destacar Laura Dern como Ellie, a companheira de Alan e investigadora inveterada, uma mulher com roupas práticas, personalidade forte e pronta a enfrentar as adversidades. Existe toda uma procura em dar algum relevo a estes personagens, que, regra geral, apesar de bem construídos, acabam quase sempre por perder para os dinossauros, um dos grandes atractivos do filme. Aproveitando os recursos que tem à disposição, Steven Spielberg apresenta-nos a uma panóplia de dinossauros de diferentes espécies e feitios, não faltando o ameaçador T-Rex, Velociraptors mortíferos, entre outras espécies, enquanto os personagens lidam com uma série de contratempos no interior do parque de todos os sonhos e pesadelos, onde seres pré-históricos ganham vida e nos fazem sonhar, inquietam e deslumbram, ao longo de uma obra que não parece perder valor a cada nova visualização. Na comemoração dos 20 anos de "Jurassic Park", a Zon Lusomundo encontra-se a lançar o filme em 3D, algo que diga-se em bom rigor da verdade é perfeitamente desnecessário, visto que a obra cinematográfica vence o teste do tempo por si só, sendo provavelmente um dos blockbuster mais entusiasmantes que passaram pelas nossas salas em 2013, mostrando que Spielberg não criou um sucesso efémero, mas sim algo de muito marcante. Aquando do seu lançamento original, “Jurassic Park” conquistou o público e a crítica, algo que promete continuar a fazer nos dias de hoje, mesclando na “justa medida” aventura, suspense, humor, acção e tensão, deixando-nos presos a um enredo envolvente, que continua a manter toda a vitalidade. Na época em que foi exibido, “Jurassic Park” foi promovido com o slogan “o filme que demorou 65 milhões de anos para ser feito”, visto o resultado final é caso para dizer que valeu a pena o tempo de espera.

Classificação: 4 (em 5).

Título original: "Jurassic Park".
Título em Portugal: "Parque Jurássico".
Realizador: Steven Spielberg.
Argumento: Michael Crichton e David Koepp.
Elenco: Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, Samuel L. Jackson.

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