02 outubro 2013

Resenha Crítica: "Jogo de Risco" (Runner Runner)

 Thriller insípido que pouco ou nada acrescenta ao género, "Jogo de Risco" não faz justiça ao título nacional e pouco arrisca, preferindo jogar quase sempre pelo seguro. A espaços entretém e consegue despertar a atenção para a história do seu protagonista, mas é tudo muito previsível e recheado de lugares-comuns, com o argumento preguiçoso a sobressair pela negativa, enquanto somos apresentados à história de Richie Furst (Justin Timberlake), um indivíduo que poderia ter uma carreira de sucesso em Wall Street, mas a crise conduziu a que este ficasse sem emprego, tendo regressado à Universidade de Princeton onde se encontra a tirar um mestrado e a dar algumas aulas. Richie procura nas apostas on-line (póquer) a sua fonte de rendimentos, incentivando os seus colegas de faculdade a entrarem no negócio e pelo caminho arranjando alguns problemas, mas nada equiparado ao que vai encontrar quando perde todo o seu dinheiro no site do magnata Ivan Block (Ben Affleck). Ao deparar-se com uma estratégia ilegal do site, Richie decide pedir dinheiro ao pai, um jogador inveterado do qual procura não seguir o exemplo, para viajar até à Costa Rica, onde se encontra Block a fugir às autoridades dos EUA e está a decorrer uma convenção ligada ao jogo. Recebido inicialmente com alguma frieza, Richie logo desperta a atenção do milionário, que decide contratá-lo para a sua empresa e envolvê-lo no seu mundo, muito marcado por festas cheias de glamour, belas mulheres e crocodilos. Com uma ascensão surpreendente, Richie acaba por gradualmente perceber que os negócios de Ivan são pouco claros, ao mesmo tempo que se envolve com a sensual Rebecca (Gemma Arterton), a secretária e suposto interesse amoroso do personagem interpretado por Affleck, uma relação marcada por algum mistério em relação aos objectivos desta. 

 Pelo caminho, Richie tem ainda de lidar com um agente do FBI (Anthony Mackie) que procura a todo o custo prender Ivan e enfrentar o lado negativo do patrão, ao longo de uma obra algo desinspirada e irregular. Brad Furman tinha apresentado um trabalho bastante satisfatório em "The Lincoln Lawyer", longe de notável, mas seguro, tendo em Matthew McCounaughey um protagonista competente e capaz de dar uma dimensão extra ao filme. Em "Runner, Runner", Brad Furman não tem essa sorte, embora Justin Timberlake surja credível e até tenha algum carisma como Richie, um indivíduo aparentemente inteligente (apesar das suas acções por vezes não indicarem isso) que procura a todo o custo chegar a Ivan Block para recuperar o seu dinheiro, uma Gemma Arterton que faz de mulher sensual mas nada que lhe exija muito esforço, mas o pior é mesmo Ben Affleck, que claramente está melhor na cadeira de realizador. Affleck é uma figura simpática, sabe lidar com as críticas e tem conseguido recuperar a sua imagem com os bons filmes que tem realizado, mas em "Jogo de Risco" mostra todas as suas limitações como actor, interpretando o antagonista com uma enorme ligeireza, nunca chegando a ser uma figura temível ou que acreditemos ser um vigarista do pior, parecendo que ainda está em "Argo". Ivan Block é um milionário que supostamente é uma figura ameaçadora, que controla uma vasta rede de influências e esquemas ilícitos na Costa Rica, tendo na "arte" de atirar frangos para alimentar crocodilos o seu passatempo, um personagem que, com um actor com talento, teria uma dimensão muito superior, mas com Affleck surge como apenas um antagonista vulgar. 

 A um antagonista pouco credível podemos juntar ainda um argumento recheado de lugares-comuns, reviravoltas previsíveis e personagens clichés, que representa todos os costa-riquenhos como corruptos ou passíveis de suborno, que nos coloca perante relacionamentos metidos a martelo (a relação entre Richie e o pai pouco é explorada) e uma banda sonora que faz questão de ser redundante, embora Furman consiga a espaços compelir-nos a seguir a sua história, contando ainda com um trabalho de fotografia eficaz, exacerbando alguns dos momentos mais tensos do último terço com uma câmara a espaços inquieta e pronta a espelhar as tormentas vividas pelo protagonista. O resultado final é apenas mais um thriller vulgar como muitos outros que estreiam nas salas de cinema, mas com um argumento algo raso, marcado por coincidências várias e relacionamentos por explorar, mostrando um Justin Timberlake cada vez mais seguro na interpretação, um Ben Affleck a exibir as suas limitações e uma Gemma Arterton que apresenta uma dinâmica interessante com o protagonista, enquanto os restantes elementos do elenco não têm espaço para sobressaírem. Num filme marcado pelo jogo e apostas online, onde milhares de pessoas gastam fortunas para tentarem a glória e se tornarem milionários de forma fácil, Brad Furman mostra que é pouco dado a arriscar e apostar forte, tendo desenvolvido uma obra marcada por um argumento pouco inspirado, que não faz darmos o nosso tempo por totalmente perdido, entretém a espaços, mas surge pronta a ser esquecida em pouco tempo. Furman podia ter apostado alto e realizado um thriller de grande nível, mas ao invés disso preferiu apostar numa raspadinha e ficou com o prémio de consolação.

Classificação: 2 (em 5).
Título original: "Runner Runner".
Título em Portugal: "Jogo de Risco".
Realizador: Brad Furman.
Argumento:
Elenco: Ben Affleck, Justin Timberlake, Gemma Arterton, Anthony Mackie.

Sem comentários: