13 outubro 2013

Resenha Crítica: "Hiroshima Mon Amour"

  O que falamos quando falamos sobre “Hiroshima mon amour”? Provavelmente de umas das obras mais marcantes e relevantes da Nouvelle Vague francesa e arriscamos a dizer do cinema contemporâneo, incrivelmente bela e poética, recheada de contradições e sentimentos díspares, onde uma curta relação entre uma actriz francesa (Emmanuelle Riva) que se encontra a filmar em Hiroxima e um arquitecto japonês (Eiji Okada) transportam-nos para tempos e locais distintos. O espaço fechado do quarto onde se desenrola inicialmente parte da relação entre este casal é um nicho íntimo que logo é rompido pelas memórias de Hiroxima, local de desgraça e dor, outrora bem mais belo, mas destruído pela acção humana. Essa destruição surge-nos exposta pelas palavras da protagonista, recheadas de enorme lirismo e alguma dor, e pela câmara, que não tem problemas em contrastar os corpos quentes e sensuais da dupla de protagonistas com a mutilação dos corpos em Hiroxima, por hospitais cheios de gente moribunda e mutilada, numa obra onde uma curta relação entre uma francesa e um japonês abre as portas para uma imensidão narrativa notável, exposta através de flashbacks, pedaços documentais (que exploram o território e as suas gentes) e momentos mais intimistas entre o casal. Mas as memórias, que por vezes parecem estar no campo do sonho, não ficam por aqui, com a bela protagonista, interpretada por uma então jovem estreante e imensamente talentosa Emmanuelle Riva, a recordar momentos do seu passado em França, de uma relação que terminara mal com um soldado alemão em plena II Guerra Mundial. As feridas deixadas pela bomba atómica no território de Hiroxima, expostas na cidade e nas memórias da mesma e das suas gentes, dificilmente irão cicatrizar, deixando marcas, tal como a relação amorosa deixara na protagonista. 

 Estamos assim a deambular entre o passado e o presente, onde uma mulher fala doces palavras, recupera memórias da sua vida e de Hiroxima, enquanto o seu amante a desmente no tempo presente. Os diálogos por vezes repetem-se, parecem não levar a lado nenhum e ao mesmo tempo a tantos lados, caminhando por territórios cinéfilos que despertam as nossas emoções e sensações como poucas obras conseguem. Alain Resnais tem em "Hiroshima Mon Amour" uma das suas obra-primas, um filme intemporal, fruto de uma época prodigiosa do cinema francês, onde cineastas como François Truffaud, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, entre outros, se destacavam. Resnais nem fazia parte do grupo de cineastas oriundos dos Cahiers du Cinéma, dos quais vários elementos da Nouvelle Vague faziam parte, mas nem por isso era menos respeitado, tendo em "Hiroshima Mon Amour" uma obra que desafia as barreiras do tempo e espaço narrativo, que coloca em dúvida os pensamentos dos personagens, enquanto transmite mensagens muito claras anti-guerra, pró-igualdade entre os seres humanos (veja-se a representação do protesto no filme pró-paz que se encontra a ser filmado) ao mesmo tempo que explora as contradições da memória e do amor louco. Diga-se que esta representação do amor é algo trágica, com "Hiroshima Mon Amour" a colocar-nos perante uma relação que se está prestes a desintegrar e outra que terminou de forma desastrosa, deixando marcas profundas, qual bomba atómica que invade a alma dos envolvidos e explode com os seus sentimentos, deixando para sempre cicatrizes difíceis de esconder. Essa situação é particularmente visível nas memórias da protagonista feminina, quando esta é obrigada a rapar o cabelo, sendo penalizada pela sua relação com um soldado nazi em Nevers. 

O passado do protagonista masculino também não é menos trágico. A família morreu com o lançamento da bomba atómica em Hiroxima, com este a sobreviver devido a ter estado a cumprir serviço militar. Uma sorte, que diríamos nem ser sorte, tendo nas trincheiras um local de luta, tal como no presente combate por uma relação que se desintegra e parece conhecer o seu ocaso. Este procura manter o romance, num território de Hiroxima do presente, exibido com enorme assertividade pelo olhar atento da câmara de filmar de Resnais, que nos deixa com uma dupla de protagonistas, cujos elementos parecem eles próprios contaminados por todas as contradições deste território em reconstrução. Alan Resnais coloca-nos perante as últimas 24 horas da relação deste casal, apoiando-se no argumento sublime de Marguerite Duras, não se limitando a contar uma história, mas sim a despertar sensações e interpretações por parte dos espectadores, num filme cuja ideia inicial era bem distinta. O cineasta foi contactado para efectuar um documentário sobre a bomba atómica, mas devido a não querer fazer algo semelhante com "Night and Fog" decidiu seguir um caminho distinto, com a entrada em cena de Marguerite Duras a ser decisiva, surgindo como resultado final uma obra intemporal e de enorme relevância, apresentando uma estrutura narrativa inovadora para a época. Leonard Maltin descreveu "Hiroshima Mon Amour" como "o 'Birth of a Nation' da Nova Vaga Francesa", uma comparação que serve acima de tudo para exemplificar a importância que alguns críticos e historiadores dão a esta obra, que simboliza bem a procura de alguns cineastas da Nouvelle Vague em romperem com as convenções narrativas, em focar o lado psicológico e quotidiano dos personagens, não apresentando uma narrativa linear, colocando-nos perante uma história onde o passado de Hiroshima e de Nevers se unem através da história da protagonista no presente.

 A história da personagem interpretada de forma sublime por Emmanuelle Riva deixa-nos perante o duelo interno desta entre as memórias do passado que a marcam e não quer esquecer e a inevitabilidade de aos poucos estas se irem esbatendo no âmago do seu ser (as memórias do passado e a forma como estas podem influenciar o presente dos seus personagens são temas que vão marcar outras obras de Alain Resnais, tais como "O Último Ano em Marienbad" e "Muriel ou o tempo de um regresso"). A inexorabilidade do tempo coloca-a perante o horror do esquecimento, tendo nas recordações de um amor louco do passado e um que mexe consigo no presente a marcarem a sua existência, numa Hiroxima do presente marcada por memórias do passado. Estamos assim perante um espaço narrativo amplo e poético, violento na representação das marcas deixadas pelo passado e sublime na demonstração dos sentimentos, adornada com uma fotografia belíssima e uma banda sonora adequada, numa história a preto e branco onde não falta um clube nocturno chamado Casablanca. Não estamos em Marrocos, nem perante a história de Rick Blaine e Ilsa Lund, embora a história de amor destes dois encontre alguma ressonância neste casal aparentemente condenado a separar-se, ou não estivéssemos em "Hiroshima Mon Amour" perante um romance marcado por duas figuras com passados conturbados que se repercutem no presente, enquanto se conhecem e dão a conhecer ao espectador. Se a personagem de Emmanuelle Riva lida com as contradições entre a memória e esquecimento, já "Hiroshima Mon Amour" lida com as contradições entre o amor e a guerra, entre a tecnologia e o retrocesso da humanidade, entre o presente e o passado, numa obra que não cairá no esquecimento, marcante como poucas e arrebatadora nos sentimentos que transmite.

Classificação: 5.

Título original: “Hiroshima Mon Amour”.
Título em Portugal: “Hiroshima Meu Amor”.
Realizador: Alain Resnais.
Argumento: Marguerite Duras.
Elenco: Emmanuelle Riva e Eiji Okada.

Sem comentários: