04 outubro 2013

Resenha Crítica: "Gravity" (Gravidade)

 A certa altura de "Gravity", Matt Kowalski (George Clooney) coloca a Ryan Stone (Sandra Bullock) a seguinte questão: "Para quê viver?". Esta é uma questão transversal à narrativa de "Gravity" e diríamos que à própria existência humana. Poderíamos acrescentar ainda questões como: Por que continuamos a lutar contra as adversidades? Por que desafiamos o destino e as probabilidades? Por que continuamos a amar a vida mesmo nos momentos mais difíceis e nos agarramos a tudo o que podemos para lutar por esta? Uns desistem é certo. Mas existirá algo mais belo e apaixonante do que a luta diária do ser humano em superar-se e querer vencer as adversidades? "Gravity", o novo filme de Alfonso Cuarón, é uma ode ao espírito de sobrevivência do ser humano, à sua capacidade de superação e lutar pela vida, um combate apresentado em toda a sua magnitude, beleza e dureza, perante o espaço aparentemente infinito e sufocante, tão calmo mas ao mesmo tempo tão perigoso. Alfonso Cuarón aproveita a tecnologia de ponta, em parte elaborada para o filme, alicerçada num magnífico trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki (não se deve ignorar o seu contributo nos efeitos), para nos fazer imergir numa história simultaneamente tão simples, mas nem por isso menos épica, onde a luta pela vida surge exposta através de dois seres humanos perdidos no espaço, à deriva, flutuando e dialogando. Estes seres humanos são Matt, um astronauta experiente, e Ryan, uma perita em engenharia médica, uma dupla que se encontrava a instalar um novo equipamento no telescópio Hubble, numa actividade extraveicular fora da nave espacial. Matt é um indivíduo tagarela, que quer superar o record de um astronauta russo e gosta de debitar piadas e falar dos seus casos amorosos, sejam estes mal sucedidos ou bem sucedidos, junto dos seus colegas com quem comunica à distância. Ryan é uma mulher solitária e reservada, própria de quem tem um passado trágico que poucas razões lhe dá para viver.

 Quando um conjunto de detritos espaciais, oriundos de um satélite que explodiu nas proximidades, embatem no vaivém, o desastre acontece. Ryan e Matt perdem a comunicação com a Terra, os restantes tripulantes morrem e estes ficam à deriva no espaço. Matt e Ryan trocam diálogos de circunstância, aproximando-nos das suas experiências de vida na Terra, enquanto procuram manter as suas vidas diante de perigos vários e adversidades inesperadas. Matt com as suas piadas soltas e prontas a quebrar os momentos mais tensos, tentando com a sua experiência acalmar a colega que durante alguns momentos esteve sem rumo. Ryan conta com uma seriedade própria de quem já sofreu muito e teme pela sua vida, tendo uma inexperiência própria de uma novata. Cuarón diverte-se a jogar com os destinos destes personagens, explora a dinâmica entre ambos, revela-nos pedaços das suas personalidades e vivências, deixa-os a flutuar pelo espaço e cria em nós uma sensação vertiginosa, por vezes quase claustrofóbica, enquanto vemos Matt e Ryan a dirigirem-se em direcção ao infinito incerto, enquanto procuram um meio para regressarem à Terra, pelo menos, até a desgraça se aproximar de um destes elementos. A dureza e aspereza desta missão solitária da dupla contra a morte é quebrada pelas belas imagens do espaço e do planeta Terra, belo como raramente o podemos valorizar, digno de merecer que os personagens lutem por voltar a habitá-lo, embora não tenham ninguém a esperar por estes em casa. Se ninguém está à espera de ambos e as suas vidas fora do espaço não parecem ser tão brilhantes quanto isso, então quais as razões para a luta destes personagens para sobreviverem e não se entregarem ao destino? Cuarón aos poucos mostra que até não são assim tantas quanto isso, mas nem por isso os personagens interpretados por Bullock e Clooney deixam de exibir os seus espíritos combativos. Estes são dois gladiadores solitários que lutam contra a morte certa, aventureiros em busca da vida, guerreiros trágicos que guardam uma réstia de esperança na sua luta aparentemente pífia contra o destino, desafiando o mesmo com um sorriso circunstancial.

 O argumento ajuda e muito para a exploração dos personagens e do enredo, deixando espaço para algumas reflexões pertinentes sobre a condição humana e a sua capacidade de luta, sendo também simples o suficiente para não deixar grandes dúvidas, permitindo desenvolver a dupla de protagonistas, mostrar algum cuidado nos termos técnicos e apresentar algumas trágicas reviravoltas. Bullock e Clooney convencem em conjunto e separadamente. Ela tem mais destaque, surge mais tensa, tem mais tempo no grande ecrã, agarra a narrativa com todo o talento que tem e nem sempre mostra, dando aquele que provavelmente é o melhor papel da sua carreira. Curiosamente, Bullock nem era a primeira escolha para o papel mas sim Natalie Portman, um feliz acaso que permitiu à primeira sobressair, enquanto Cuarón aproveita muitas das vezes a sua expressividade para nos dar close-ups e close-ups extremos capazes de extraírem os sentimentos contidos pela personagem e expostos pela actriz. Já Clooney mostra o seu charme e carisma à Cary Grant, tendo também sido uma segunda escolha, chegando ao projecto depois do abandono de Robert Downey Jr. Este não parece se esforçar muito, mas poucos têm o seu à vontade e carisma no ecrã, dando pequenas nuances aos seus personagens que partilham muito de si, tendo uma enorme relevância no destino da colega. Alfonso Cuarón explora estes personagens e deixa-os fora das suas zonas de conforto. Deixa um elemento isolado, ou melhor, acompanhado por nós, deixando-nos no limiar entre voyeurismo e o sentirmos as dores do ou da personagem em questão, enquanto este(a) efectua uma jornada solitária, marcada muitas das vezes pela dúvida se vale ou não a pena esta luta no silencioso cenário espacial.

No espaço, o som não propaga, sabemos isso, mesmo que não o soubéssemos somos avisados logo de início. Talvez por isso, Alfonso Cuarón decidiu povoar a narrativa com uma banda sonora sublime de Steven Price, capaz de adensar cada momento, seja este o mais tenso ou o mais leve, beneficiando ainda de um assertivo trabalho de sonoplastia, embora por vezes o silêncio e a solidão dominem. Enquanto isso, o tempo passa, os longos planos sequências de Alfonso Cuáron permitem dar uma verdadeira noção desse avançar imperdoável e imparável do relógio, algo que ganha contornos claustrofóbicos quando Ryan está com o oxigénio do fato em baixo nível. Os momentos são de sofrimento, o som da sua respiração é doloroso para os nossos ouvidos, as expressões de Bullock intensas. Quando esta volta a dar golfadas de ar quase partilhamos o seu alívio, uma sensação de bem estar enganador, que esconde várias outras tempestades que se avizinham. Diga-se que a partilha de sentimentos com os personagens é algo que acontece regularmente ao longo do filme. Alfonso Cuarón contribui para esta peculiar situação ao desenvolver uma história bem arquitectada, marcada por momentos de tensão, drama, acção e a espaços algum humor, sendo capaz de contrastar a chegada de um boneco de Marvin o Marciano com um cadáver, ao mesmo tempo que explora as tecnologias que tem à sua disposição. O cineasta beneficia de um cuidado trabalho a nível de efeitos especiais, impressionantes em IMAX e capazes de usar até ao tutano as potencialidades deste formato e do 3D, comprovando que Cuarón tinha razão: este filme foi pensado em 3D e não pensado para fazer dinheiro com o 3D.

Essa exploração dos efeitos é notória quando encontramos os personagens a flutuar, bailando pelo ar naturalmente, livres das barreiras da gravidade, mas também em todos os detalhes do espaço, notando-se um avanço incrível a nível tecnológico. O filme demorou vários anos a ser concluído, algo sublinhado por Alfonso Cuáron nas suas diversas entrevistas, mas esses anos foram aproveitados com grande labor e rigor, desafiando as barreiras do que o cinema nos pode dar a nível visual. No final, por mais efeitos que tenha, por mais magnífica que seja a sua banda sonora, aquilo que sobressai mais em "Gravity" é a história humana dos seus protagonistas. É a luta dos astronautas pela vida que interessa, o desafiar do impossível, as emoções que gravitam pelo espaço, a apresentação da vontade humana em viver em toda a sua magnitude, enquanto o elemento sobrevivente procura conseguir regressar à Terra a todo o custo. Alfonso Cuáron apresenta-nos ao isolamento dos seus protagonistas em pleno espaço, quase infinito, imenso e claustrofóbico, belo e funesto, à luta de Matt e Ryan para sobreviverem, desenvolvendo uma ode à capacidade do ser humano em ultrapassar barreiras, desafiar os seus medos e lutar pela vida. "Gravity" é um exemplo dessa capacidade de superação, com um cineasta a desenvolver uma das suas obras maiores, explorando os avanços da tecnologia e uma história bem construída, sempre sem descurar o mais importante: os seus personagens.

Classificação: 5 em 5. 
Título original: "Gravity". 
Título em Portugal: "Gravidade".
Título no Brasil: "Gravidade".
Realizador: Alfonso Cuáron. 
Argumento: Jonás e Alfonso Cuáron. 
Elenco: George Clooney e Sandra Bullock. 

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