11 outubro 2013

Resenha Crítica: "Grand Central"

 Os desastres nucleares são esporádicos e raros ao longo da história, mas quando ocorrem causam enormes danos e eventos desastrosos. Casos como o de Chernobyl e mais recentemente de Fukushima não foram esquecidos, estando presentes na memória colectiva. "Grand Central", o segundo filme da realizadora Rebecca Zlotowski, não nos coloca perante um desastre nuclear, nem toma posições contundentes contra ou a favor deste tipo de energia, mas sim perante uma central nuclear, cujos trabalhadores correm enormes riscos, embora o seu trabalho nem sempre seja valorizado. Tendo como pano de fundo uma central nuclear, o enredo de "Grand Central" cedo nos demonstra que para os protagonistas os perigos da radiação não chegam aos níveis de uma paixão adúltera, cuja melhor demonstração dos afectos parece estar nas relações sexuais. Esta relação é entre Gary (Tahar Rahim) e Karole (Léa Seydoux). Gary Manda (nome dado pela realizadora em homenagem a George Manda, um personagem de "Casque d'or") é um indivíduo oriundo de Lyon, meio sem rumo, que decide tentar um emprego sazonal numa estação nuclear, onde é companheiro de Tcherno, o indivíduo que lhe roubou a carteira num comboio mas acabou por devolver, e de Isaac, bem como dos veteranos Gilles (Olivier Gourmet) e Toni (Denis Ménochet). Este último tem uma relação com a bela Karole, uma mulher sensual, que conta com o cabelo curto, calções de ganga reduzidos e camisola branca a realçar os seus seios desprotegidos, que cedo seduz e deixa-se seduzir pelo protagonista. A relação entre os dois não é imediata, nem exposta logo na narrativa. Rebecca Zlotowski prefere primeiro explorar o seu protagonista, mostrar os seus problemas com a família, explorar os cenários circundantes à estação nuclear, os processos de selecção e formação associados à actividade do protagonista, bem como os perigos da estação nuclear e as diferenças de estatuto no interior da mesma. 

 Os momentos de lazer que o protagonista passa no início do filme com os companheiros contrastam com o cenário opressor da central nuclear, onde a radiação e a morte parecem estar sempre no imaginário colectivo dos funcionários que trabalham na manutenção, bem perto do reactor. O próprio fardamento e as regras do local indiciam todo um rigor que é aliviado fora do local de trabalho, com os trabalhadores a viverem em conjunto nas caravanas que ficam nas proximidades do local de trabalho, junto ao rio, com Gary a habitar junto de Gilles e Toni. É neste convívio entre trabalhadores que Gary conhece Karole, a namorada de Toni, com esta a beijá-lo praticamente do nada e deixando no coração deste uma bomba atómica de sentimentos, que a breve trecho se preparam para explodir e formar um perigoso triângulo amoroso. Mais tarde, estes voltam-se a encontrar, com Gary, Tcherno e Isaac a darem boleia a Karole e uma companheira. A câmara foca a mão de Gary e parte da perna de Karole, pouco depois foca os seus rostos e mostra uma certa tensão sexual. Passado pouco tempo, estes têm sexo. O mote para Karole e Gary parece ser muita acção e poucos diálogos, com as relações sexuais a marcarem os seus momentos de intimidade e a paixão a tomar conta do ecrã. Não estamos perante uma relação amorosa sólida, mas sim no plano da paixão, tórrida e louca de desejo, que promete contaminar os seus intervenientes, qual radiação que invade os seus corpos e promete trazer diversos problemas. Na sua segunda longa-metragem como realizadora, após "Belle Épine", Rebecca Zlotowski traz-nos um melodrama que tem como pano de fundo um cenário pouco comum nos filmes do género: uma central nuclear. Quando não estão presentes na central, os personagens avistam as mesmas nas proximidades, com o seu fumo a ser visto e os seus sinais de perigo a serem ouvidos, criando um certo sentimento de urgência em viver e questionar se vale a pena aquilo que fazem. 

 A ideia para a utilização da central nuclear surgiu da argumentista Gaëlle Macé, que utilizou muito livremente o livro "La Centrale" como base, mas tendo como pano de fundo uma história romanceada, próxima de um melodrama, onde somos colocados perante uma relação adúltera intrincada, cujo aumentar do desejo parece surgir em paralelo com o nível de radiação que o corpo de Gary vai absorvendo. A relação resulta sobretudo devido à dupla de protagonistas, com Tahar Rahim e Léa Seydoux a darem uma enorme credibilidade aos seus personagens, expondo as dúvidas e receios de ambos, bem como o desejo que nutrem um pelo outro, embora falte conteúdo a esta relação, que em última análise se resume muitas das vezes a relações sexuais e sentimentos explosivos. Temos pequenos gestos e olhares trocados entre Gary e Karole, sabemos que a profissão de risco e o facto de estarem fechados do mundo exterior é algo complicado e pode conduzir a essa urgência amorosa, mas nem sempre esta relação é alicerçada em bases que nos levem a acreditar que estes dependem assim tanto um do outro. No entanto, esta é uma paixão que arrebata a dupla e arrasta consigo uma série de consequências, com Toni a completar este triângulo. Toni é o superior de Gary, tal como Gilles, mantendo com este último uma relação de amizade e com Karole uma relação amorosa aparentemente estável. Aos poucos este apercebe-se que a noiva tem algo com Gary, despertando um certo ciúme em Toni, embora ame Karole. A relação entre Gary e Karole contamina aos poucos os seus personagens, qual radioctividade perigosa e explosiva, deixando a jovem dividida, numa história onde uma estação nuclear e as suas imediações são palco de emoções fortes. 

 Rebecca Zlotowski centra as suas atenções nos personagens, procura explorar como o emprego e as condições laborais afectam estes personagens, como os funcionários de escalão mais baixo são pouco reconhecidos e mais sujeitos aos perigos, mostrar os efeitos nefastos dos acidentes que envolvem radiação (veja-se o momento chocante em que uma personagem é obrigada a cortar o cabelo), apresenta-nos uma paixão cheia de sensualidade, sempre adornada por uma banda sonora capaz de ritmar a narrativa (os momentos iniciais são logo exemplo disso) e um trabalho de fotografia praticamente sem mácula, proporcionando algumas belas imagens em movimento. Um dos momentos onde as imagens em movimento se destacam acontece no último terço da narrativa: Gary surge em destaque e Karole desfocada, sendo que poucos segundos depois acontece o contrário. Separados a vida de ambos parece desfocada, juntos também não parece ir a lado nenhum, mas o que é certo é que os seus futuros parecem tão difíceis de prever, ou diríamos, desfocados como as imagens que os separam, embora estejam sentimentalmente tão próximos. A proximidade entre Karole e Gary parece estar sempre muito centrada no desejo. São jovens, irrequietos e parecem sentir uma enorme necessidade de extravasar os sentimentos contidos um no outro, com o sexo a ser uma componente importante. 

 A própria forma dicotómica na exposição dos momentos entre Karole e Gary em oposição ao cenário do local de trabalho de ambos é paradigmática dessas diferenças. Quando estão juntos, perto de locais verdejantes ou naturais, ficamos por vezes perante cores e luz propícias para transmitir os momentos quentes entre ambos. Quando estão na fábrica tudo tem de ser controlado, o mínimo erro pode causar um desastre, pelo que as emoções devem ser dominadas. Não que as emoções fiquem sempre controladas, bem pelo contrário, a dupla de protagonistas que o diga, com Tahar Rahim a interpretar um jovem irreverente que procura enfrentar os perigos deste emprego e da relação e uma Léa Seydoux como uma "bomba sexual", que traz consigo partículas intensas de sentimento. O filme é eficaz não só na representação individual destes personagens, mas também na exposição das relações humanas entre os trabalhadores da usina nuclear, sobretudo nos períodos de convívio, sobressaindo o trio formado por Gary, Isaac e Tcherno, ao mesmo tempo que evidencia a influência que este emprego tem junto dos seus trabalhadores. Mais do que nos dar grandes explicações sobre os funcionamentos de uma central nuclear ou de nos colocar perante discursos amplamente moralistas sobre os perigos do trabalho nestes espaços, Rebecca Zlotowski oferece-nos um melodrama convincente e recheado de sensualidade, drama e sentimentos à flor da pele. Entre paixões loucas e cheias de desejo, os perigos do trabalho numa central nuclear e belas imagens em movimento, "Grand Central" coloca-nos perante um casal adúltero, cuja relação está contaminada não por doses excessivas de radiação, mas sim por algo que ainda é mais fulminante: a paixão e o desejo que nutrem um pelo outro.

Classificação: 4 (em 5). 

Título original: "Grand Central". 
Realizadora: Rebecca Zlotowski.
Argumento: Gaëlle Macé e Rebecca Zlotowski.
Elenco: Léa Seydoux, Tahar Rahim, Olivier Gourmet, Denis Ménochet, Johan Libéreau.

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