07 outubro 2013

Resenha Crítica: "Don Jon"

 Jon Martello (Joseph Gordon-Levitt) é um sedutor nato, que faz grande sucesso junto dos elementos do sexo feminino nas discotecas, onde se diverte a avaliar mulheres de 0 a 10 com os seus dois amigos, Bobby (Rob Brown) e Danny (Jeremy Luke). Junto dos amigos Jon é um sucesso, sendo conhecido por "Don Jon" exactamente pelos seus dotes no engate, com excepção da sedutora e voluptuosa Barbara Sugarman (Scarlett Johansson), uma mulher que conheceu na discoteca, que logo repele os avanços do protagonista. Jon consegue junto de alguns contactos em comum o nome de Barbara, procurando pela mesma no Facebook e adicionando-a, aproveitando as maravilhas das redes sociais para convidá-la para um almoço. Surpreendentemente Barbara aceita o convite, iniciando com este uma relação que tem tudo para dar errado. Jon é viciado em pornografia, preferindo ver vídeos porno a ter sexo com mulheres reais, estuda e trabalha, gosta de ir ao ginásio (onde reza durante os exercícios), vai à igreja todas semanas para confessar os seus pecados (geralmente masturbação e sexo fora do casamento), pragueja quando está preso no trânsito, sendo uma preocupação para a sua mãe que teme não vir a ser avó. Barbara é uma jovem mimada, que procura pelo homem ideal, tendo nos filmes românticos o seu ideal. A própria decoração do quarto de cada um acentua as dicotomias: Jon tem um quarto moderno e simples, enquanto Barbara apresenta um quarto que parece saído de uma casa da Barbie, marcado por tons cor de rosa, onde não falta um poster do "Titanic". A relação entre os dois fica em perigo quando Barbara encontra Jon a ver pornografia, um acto que esta não compreende, enquanto o protagonista procura conter um vício que não consegue largar. Pelo caminho, Jon conhece Esther (Julianne Moore), uma estranha mulher mais velha, que conta com um passado trágico e muito para lhe ensinar ao longo de "Don Jon", o primeiro filme escrito e realizado por Joseph Gordon-Levitt.

 Com uma segurança assaz interessante para um estreante na realização cinematográfica, Joseph Gordon-Levitt confirma ser um dos nomes a ter em atenção em Hollywood, não só na representação, mas também na realização, apresentando-nos a uma obra eficaz na exploração dos estereótipos associados aos homens, através de um jovem viciado em pornografia. Gordon-Levitt povoa a narrativa de falas sardónicas, aliadas a alguns momentos de humor, drama, romance e muita pornografia, ao mesmo tempo que joga com os estereótipos dos italo-americanos e dos homens, tendo em Jon Martello um personagem que permite explorar o seu talento. Colocando trejeitos peculiares no seu personagem, Joseph Gordon-Levitt acaba por expor, ainda que de forma exagerada, alguns traços dos relacionamentos do ponto de vista masculino, apresentando um homem viciado em pornografia, que permite ao filme efectuar product placement "em barda" ao site PornHub, enquanto Jon procura combater as suas fraquezas e conquistar Barbara Sugarman, tudo sempre com uma procura de não cair nos lugares-comuns das comédias românticas, embora balance muitas das vezes para os mesmos. No fundo acabamos por estar perante um conto de fadas meio transviado, onde o protagonista não procura a mulher encantada, mas sim aquela que o complemente sexualmente e o faça de esquecer da pornografia, apresentando um ponto de vista masculino raramente exposto nos romances (pelo menos de forma tão real), explorado através de um casal formado por elementos diametralmente opostos, que dão espaço a Joseph Gordon-Levitt e Scarlett Johansson para sobressaírem.

 Apesar do filme contar com alguns gags inspirados, dos quais sobressaem a irmã de Jon estar sempre ao telemóvel e raramente falar, bem como as confissões do protagonista no confessionário, que apenas perdem efeito devido à incapacidade do realizador em utilizar os mesmos na justa medida e repeti-los em demasia, quem sobressai mais é o elenco, em particular o triunvirato formado por Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson e Julianne Moore. Gordon-Levitt e Johansson travam diálogos rápidos, falas afiadas, momentos de enorme sensualidade, como um casal marcado por pontos de vista distintos em relação ao sexo, às relações amorosas e em relação aos filmes. Para Barbara, o cinema são os romances melosos (expostos num filme que conta com cameos deliciosos de Anne Hathway e Channing Tatum), para Jon os filmes ideais são pornografia, onde as actrizes dão tudo aquilo que a namorada não dá, sempre sem pedirem nada em troca. A relação entre os dois parece desde o início condenada ao fracasso, embora desejemos ver os dois a trocarem diálogos deliciosos, enquanto somos apresentados a um jogo de planos e contraplanos. No meio destes elementos, ainda existe espaço para Julianne Moore sobressair como uma mulher com um passado trágico, que frequenta a turma nas aulas nocturnas frequentadas por Jon. Aos poucos os dois desenvolvem algo mais do que uma simples amizade, com esta a expor algumas das fragilidades de Jon, com o último terço por vezes a cair nos esquematismos que "Don Jon" parece querer combater durante grande parte do filme.

 Perante Esther, Jon começa a apresentar algumas mudanças, tal como apresenta comportamentos distintos com os seus dois peculiares amigos e com a sua família. Um dos elementos em destaque na obra não está na sua fotografia e na sua realização, mas sim no seu argumento e na sua capacidade de nos apresentar personagens interessantes, dando espaço a vários dos elementos secundários surgirem em realce. Joseph Gordon-Levitt pode ser o realizador, argumentista e protagonista, mas nem por isso guarda para si toda a relevância. Se de Johansson e Moore já abordámos, importa ainda realçar Tony Danza, como o pai do protagonista, um homem meio rude, que personifica os estereótipos levados aos extremo dos ítalo-americanos, sendo viciado em futebol americano e pouco confiante no filho, embora este último pareça ter herdado do pai a pouca sensibilidade para com o sexo feminino. Na família encontra-se ainda Monica (Brie Larson), a irmã de Jon, que vai permitir alguns gags recorrentes devido ao seu vício pelo telemóvel e pouca disposição para falar, numa obra que consegue mesclar os momentos de bom humor com drama e romance, revelando-se bem mais inteligente do que inicialmente pode parecer. A religiosidade do protagonista e a forma como desrespeita os ideais da sua religião, ao pecar constantemente e procurar o perdão aos Domingos, exemplificam bem essa assertividade na exposição da complexidade do personagem, uma figura que tenta manter os ideais supostamente tradicionais, mas apresenta comportamentos meio reprováveis, sobretudo a nível de relacionamentos. Com um argumento bem escrito e interpretações de bom nível do trio de protagonistas, "Don Jon" surpreende pela positiva, colocando Joseph Gordon-Levitt como um nome a ter em atenção na realização cinematográfica e cada vez mais pronto a deixar a sua marca em Hollywood.

Classificação: 3 (em 5). 

Título original: "Don Jon".
Realizador: Joseph Gordon-Levitt. 
Argumento: Joseph Gordon-Levitt. 
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore,  Tony Danza, Brie Larson.

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