29 outubro 2013

Resenha Crítica: "Carrie" (2013)

 Remake completamente desnecessário (ou se preferirem nova adaptação completamente desnecessária) de "Carrie", o novo filme de Kimberly Peirce procura adaptar aos tempos modernos a obra literária homónima de Stephen King, prestando reverência à magnífica adaptação realizada por Brian De Palma, tendo como grande mérito mostrar que esta última continua a manter uma vitalidade impressionante. Nada contra os remakes, sobretudo aqueles que procuram acrescentar algo, até porque estas obras nunca beliscarão os filmes originais, mas no caso de "Carrie" torna-se um enigma perceber o que Peirce e companhia pretendiam acrescentar ao filme de Brian De Palma, sendo que após o visionamento o máximo que se pode dizer é muito pouco. Entre as novas adições encontra-se uma cena introdutória, que apresenta Margaret White (Julianne Moore), a conservadora mãe de Carrie a dar à luz a sua filha, tratando-a como cancro, tendo até ponderado eliminar a recém-nascida com uma tesoura. Para Margaret, Carrie é fruto do seu pecado, criando a filha com valores religiosos conservadores, tentando reprimir os seus ímpetos, algo que resulta numa adolescente introvertida, desinformada e pouco dada a amizades. Quando entra em pânico ao ver que está a sair sangue do seu corpo no balneário, as suas colegas, entre as quais Chris Hargensen (Poria Doubleday) e Sue Snell (Gabriella Wilde), atiram-lhe com tampões e gozam com esta, com a primeira a filmar tudo e a efectuar o upload do vídeo de forma à rapariga ser ridicularizada por todos devido a não saber que está menstruada. Nestes momentos, os poderes telecinéticos de Carrie começam a revelar-se, ainda que em doses reduzidas, com a professora Desjardin (Judy Greer) a procurar acalmar a rapariga.

Enquanto isso, a mãe de Carrie é chamada à escola, algo que assusta e muito a filha, com o argumento a explorar a relação problemática entre as duas, enquanto a jovem protagonista procura não só lidar com o fanatismo religioso da mãe, mas também controlar os seus poderes. Uma das grandes diferenças em relação ao filme de Brian De Palma centra-se na própria protagonista, que surge menos frágil, mais controladora dos seus poderes, sendo que Chloe Moretz raramente convence como uma jovem introvertida e frágil. Moretz transmite uma confiança que nem sempre se adequa à personagem, ficando a grande distância do que fizera Sissy Spacek, capaz de expor o descontrolo emocional da personagem e o lado mais perturbado de Carrie, a ponto de gerar a nossa simpatia. O que se mantém semelhante entre os dois filmes é esta relação perturbadora entre mãe e filha, com Julianne Moore a ser o ponto alto do filme, como uma religiosa fanática, que se auto-flagela e trata a filha de forma algo desumana (veja-se quando a tranca no armário para a jovem se penitenciar). Enquanto Carrie tem de lidar com a mãe, Chris é proibida pela professora Desjardin e pelo director da escola de ir ao baile de finalistas devido aos actos incorrectos que cometeu sobre a protagonista, uma situação que vai despertar a fúria da jovem, ao mesmo tempo que Sue procura remediar o seu acto para com Carrie, numa mudança de atitude repentina que nem sempre convence. Numa cena temos Sue a atirar tampões e logo de seguida temos a jovem arrependida, com o remake a mostrar alguma dificuldade em definir as personalidades dos personagens secundários sem cair nos lugares-comuns ou no desenvolvimento sensaborão (veja-se o namorado de Chris). No âmbito dessa mudança, Sue instiga Tommy (Ansel Elgort), o seu namorado, a ir ao baile de finalistas com Carrie, de forma a compensar a jovem. Carrie ainda reluta, mas acaba por aceitar, embora inicialmente ainda pense que tudo é uma partida de mau gosto.

 Esta ida ao baile vai conduzir a uma mudança de acontecimentos na vida da personagem interpretada por Moretz, com a mãe a protestar violentamente contra a decisão, enquanto o namorado de Chris, esta última e um grupo de amigos do casal decidem matar um porco, planeando colocar o sangue num balde e deixá-lo cair em cima da rainha do baile, viciando os resultados de forma a que seja a protagonista. O filme segue a estrutura básica da obra realizada por Brian De Palma, embora o último terço no baile de finalistas perca por completo o controlo, nunca atingindo os níveis opressores e violentos encontrados na película de 1976, faltando um pouco mais de inspiração, mais coragem e menos preguiça. O maior problema de "Carrie" é mesmo o filme realizado por Brian De Palma. Comparar estas duas obras é como equiparar um Lamborghini com um Fiat Uno, sem desrespeito para com o último modelo. O filme de Brian De Palma apresenta uma atmosfera opressora, uma protagonista descontrolada e a sua mãe fanática e perturbadora, interpretações de grande nível de Sissy Spacek e Piper Laurie, uma banda sonora a rigor e ainda um trabalho de fotografia sublime, resultando num último terço memorável e inquietante. O remake apresenta-nos a uma protagonista que sabe dos seus poderes, consegue controlá-los, raramente nos convence da sua fragilidade, tendo ainda pouca ajuda da equipa criativa (será que uma personagem conservadora utilizaria um vestido de dormir colado ao corpo e a realçar as suas formas corporais), com os seus poderes a serem usados com alguma regularidade ao longo da narrativa, tirando algum impacto aos acontecimentos do último terço. Junte-se ainda uma história que pouco traz de novo à primeira adaptação cinematográfica de "Carrie", uma banda sonora que parece acabado de sair das séries associadas ao canal CW que nem sempre se encaixa na narrativa, um último terço que apresenta muito aparato mas pouca coragem, uma protagonista que nunca nos faz esquecer a interpretação de Sissy Spacek e ficamos com uma obra que de terror tem muito pouco, no drama pouco convence e nos faz questionar sobre a sua utilidade.

Se nunca tivéssemos visto o filme realizado por Brian De Palma e o remake não prestasse tanta reverência para com o mesmo, provavelmente lidaríamos melhor com a interpretação de Moretz e as semelhanças entre ambas as obras, mas a memória é algo difícil de combater. Moretz não é má actriz, mas apresenta uma personalidade e carisma demasiado forte para acreditarmos em todo o seu sofrimento e ingenuidade, não ajudando o facto de no último terço lidarmos com um acto de vingança e não de descontrolo. Diga-se que Moretz não é a única a não sobressair, com Gabriella Wilde a ser uma cara bonita mas pouco mais do que isso, Portia Doubleday a ser o estereótipo da adolescente desprezível, sobressaindo uma enorme Julianne Moore e uma agradável Judy Greer. Moore expõe paradigmaticamente o lado perturbador da sua personagem, desde o seu fanatismo religioso passando pela repressão à filha até à procura em coartar os desejos sexuais desta última. Kimberly Pearce procura explorar esta relação intrincada entre mãe e filha, revelando-se um dos elementos mais positivos do filme a par da representação do bullying nos tempos modernos, através do vídeo colocado on-line. Este é talvez o momento mais feliz do remake, com Peirce a utilizar as novas tecnologias para explorar os efeitos perniciosos que podem ter nos jovens contemporâneos, tendo em Carrie o exemplo paradigmático dessa situação. "Carrie" surge assim como um remake que pouco ou nada tem a acrescentar à obra de Brian De Palma, a não ser mostrar o quão relevante esta última continua a ser nos dias de hoje. Brian De Palma realizou um filme marcante, já Pierce realizou apenas mais um filme, que servirá para consumir de forma rápida, entreter durante a sua duração e sair da memória com a maior das facilidades. Não havia necessidade. 

Classificação: 2 (em 5). 

Título original: "Carrie".
Realizador: Kimberly Peirce.
Argumento: Lawrence D. Cohen e Roberto Aguirre-Sacasa.
Elenco: Chloe Moretz, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Ansel Elgort, Judy Greer.

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