23 outubro 2013

Resenha Crítica: "Captain Phillips" (Capitão Phillips)

 Inspirado no episódio verídico do sequestro do navio Maersk Alabama por parte de piratas da Somália, tendo como base o livro "A Captain's Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea", escrito por Richard Phillips e Stephan Talty, "Captain Phillips" procura a todo o custo criar alguma tensão para fazer com que esqueçamos o facto de sabermos o desfecho da narrativa, sendo marcado por algum maniqueísmo escusado, embora o que esteja aqui em jogo seja acima de tudo um grupo de piratas e um capitão desesperados por conseguirem cumprir os seus objectivos. Este capitão é Richard Phillips, um indivíduo apresentado nos momentos iniciais como alguém preocupado com o futuro dos filhos e da esposa (Catherine Keener completamente desaproveitada), seguro no comando do seu barco e leal para com a sua tripulação, ou seja, o paradigma da virtuosidade, embora o argumento raramente explore as questões familiares e os elementos que trabalham sob as ordens do protagonista. Por sua vez, o território da Somália é representado como totalmente precário, marcado por pescadores depauperados, que ganham a vida como piratas a assaltar embarcações para um grupo de mafiosos, de forma a receberem os avultados resgates, sempre tendo em vista o negócio e nada de ideologias, algo que ficará bem presentes quando alguns destes elementos, liderados por Muse (Barkhad Abdi), atacam o navio liderado por Richard Phillips, que transportava alimentos em direcção a Mombaça, no Quénia, tendo em vista prestar ajuda humanitária. O enredo concentra as suas atenções desde o período em que Phillips parte com a sua tripulação no navio mercante Maersk Alabama, passando pelo ataque efectuado pelos piratas ao navio, cuja tecnologia de segurança não parece servir de muito, com estes elementos a sequestrarem o protagonista, enquanto boa parte da tripulação se encontra na casa das máquinas.

 A tensão apodera-se de todos, os piratas procuram a todo o custo o máximo dinheiro possível, recusando o "pouco" que se encontravam no cofre, protagonizando momentos de intensidade, enquanto Muse negoceia com Phillips até este último conseguir salvar os seus homens e ficar sozinho com os criminosos num salva-vidas, enquanto espera por um possível salvamento no meio da imensidão do mar. Paul Greengrass dá alguma tensão a estes momentos de maior aflição personificados na invasão à embarcação liderada por Phillips, sendo que a espaços a montagem ajuda e muito a criar essa ambiência, com cortes rápidos, alguns planos bem apanhados, embora o seu vício pelo constante tremelicar da câmara se torne a espaços cansativo, sobretudo pela forma gratuita como é utilizada. O cineasta procura ainda explorar o espaço do Maersk Alabama e o salva-vidas, com o primeiro a ter características labírinticas, onde os piratas procuram a todo o custo alcançar os tripulantes, e o segundo a ter características claustrofóbicas, com quatro piratas em desespero e um capitão pronto a defender os seus ideais (a fazer lembrar, ainda que muito livremente, alguns momentos de "Lifeboat"). Entre os piratas (actores bem seleccionados pela equipa de casting) o elemento que mais se destaca é Muse, o líder do grupo, interpretado por um talentoso Barkhad Abdi, um actor estreante que mostra um talento invulgar. Muse é o comandante destes piratas para quem todos estes assaltos são um negócio, sublinhando que não é da Al-Qaeda e até tem o sonho de ir aos Estados Unidos da América comprar um carro. Não deixa de ser curioso que o personagem mais trabalhado dos piratas tenha o sonho de ingressar nos EUA, partilhando o gosto pela ascensão rápida que muitos dos gangsters dos filmes de Hollywood dos anos 30 tinham, não tendo nada a perder e tudo a ganhar, protagonizando com Richard Phillips alguns momentos de grande intensidade, enquanto este último procura a todo o custo salvar a sua tripulação e a sua vida.

As disputas de poder entre Phillips e Muse surgem como outro dos elementos em grande destaque do filme, que nos deixa perante um duelo de vontades entre estas duas figuras dicotómicas, que procuram defender os seus dois lados da contenda, desde que os piratas entraram no Maersk. Phillips procura defender a embarcação, Muse procura cumprir o trabalho para o qual foi designado, existindo aqui um subtil comentário político de Greengrass, sobre estes piratas serem muitas das vezes obrigados a estes actos, estando sozinhos no mar quando quem manda nos mesmos fica em terra à espera do maior quinhão dos lucros. A entrada de Muse e dos seus homens no Maersk marca um dos momentos mais emotivos da narrativa, com Greengrass a expor momentos de pura tensão, onde efectivamente queremos ver o que vai acontecer, embora saibamos o resultado final, tendo ainda no ataque dos Navy SEALs momentos "à Zero Dark Thirty", embora sem o engenho de Bigelow. Se podemos nos queixar da narrativa por vezes se estender em demasia (já sabemos o que vai acontecer no final), de não desenvolver a relação familiar do protagonista a ponto de nos preocuparmos quando este fala da mulher e dos filhos, o mesmo não se pode dizer da magnífica interpretação de Tom Hanks, que interpreta com grande credibilidade e intensidade Richard Phillips, explorando a confiança do personagem e os seus medos perante os piratas, a sua procura em ser um estratega perante o inimigo e salvar a tripulação, tendo nos momentos finais, quando se encontra em pleno choque, um momento assombroso, que expõe de forma contundente o enorme talento deste actor. Este é o elemento fulcral para mantermos a nossa atenção perante uma narrativa cujo final já sabemos desde o início, a ponto de nos conseguirmos preocupar com o personagem, mesmo sabendo das liberdades históricas e os floreados dados à sua figura. "Capitão Phillips" deixa-nos assim perante um thriller tenso, que procura adornar as suas debilidades com um estilo de filmar dinâmico mas nem sempre assertivo, tendo em Tom Hanks uma figura essencial para alavancar o nível do filme e nos proporcionar alguns momentos de enorme intensidade. 

Classificação: 3 (em 5).

Título original: "Captain Phillips".
Título em Portugal: "Capitão Phillips".
Realizador: Paul Greengrass.
Argumento: Billy Ray.
Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed.

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