03 outubro 2013

Entrevista a João Paulo Simões sobre "Uma Curta de Amor" e "Streaming"

O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar pela segunda vez o cineasta João Paulo Simões. Ao contrário da primeira entrevista, que apresentava um carácter mais lato sobre a carreira do realizador, este novo conjunto de questões colocadas a João Paulo Simões centram-se em "Uma Curta de Amor" e "Streaming", duas obras em estados diferentes de desenvolvimento, mas que têm suscitado o interesse da nossa parte. Fiquem agora com a entrevista a João Paulo Simões, que conta com um conjunto bem interessante de respostas. 

Rick's Cinema: Como surgiu a ideia para desenvolver “Uma Curta de Amor”?

Uma Curta de Amor veio ao meu encontro inesperadamente. Sem título ou abordagem definida, foi me lançado o desafio de fazer uma curta-metragem sobre a realidade portuguesa presente.
Considero que, quando se atravessa uma crise que diz respeito a todos, cada um deve contribuir de alguma forma com o que faz – seja a nível artístico ou prático. Mas, ainda assim, não aceitei logo o projecto e deixei a ideia amadurecer. Foram outros factores, mais pessoais, que me levaram a desenvolver o filme com a abordagem singular que agora tem...
Para além de os factos serem inquestionáveis (com toda a sua injustiça social e má governação) e virem sempre influenciar a criatividade, é o ser humano que me inspira acima de tudo. Não por não acreditar em formas de contestação mais gerais (ainda bem que certos movimentos existem e se mobilizam através das redes sociais), mas acredito que “dar voz e rosto” ao indivíduo é igualmente válido, eficaz e tocante – seja a nível ficcional, como documental. 

Heitor Lourenço em "Uma Curta de Amor"

Rick's Cinema: Quais foram os principais desafios que encontrou para tirar “Uma Curta de Amor” do papel?

A estrutura minimalista que concebi não só nos deu muita margem de manobra para a pré-produção, como se sustenta a si própria. Com isto, quero dizer que, mesmo mantendo o cariz documental ou evoluindo mais tarde para a um elenco composto maioritáriamente de actores, o conceito foi algo que se impôs pela simplicidade da forma (e verdade das palavras). Ainda na perspectiva criativa, considero este um filme importante na minha carreira, pois encontra-se no limiar de uma coisa e doutra (do factual e do ficcional). Beneficia da minha experiência de alguns anos em ambas as áreas e expressa um Cinema que se tem vindo aos poucos a formular dentro de mim.
Em termos mais práticos, entre a concepção do projecto e a sua produção próriamente dita, passaram-se largos meses. Estabelecemos, como base, um sistema de donativos online, mas os apoios vindos de Portugal só se viriam a materializar após o financiamento estrangeiro do filme (que formou quase o total do orçamento).
Felizmente, pude contar com investidores que já haviam financiado um outro projecto meu, que acreditam no meu trabalho e reconheceram o valor intrínseco desta minha “carta de amor” ao meu país.

Rick's Cinema: O que pode revelar sobre o conteúdo de “Uma Curta de Amor”?

Uma Curta de Amor comunica de forma limpa, sucinta e despretenciosa o que a presente situação de Portugal veio gerar na alma lusitana.
Encontraremos rostos (uns mais conhecidos do público português do que outros) que expressam, em duas palavras distintas - e dois estados de espírito específicos – verdades simultâneamente pessoais e universais.

Rick's Cinema: No blog de “Uma Curta de Amor” é dito que o filme “apresenta a identidade portuguesa para além de estatísticas politizadas ou percentagens europeias”. Como define a “identidade portuguesa”?

Uma pergunta muito pertinente...
Devo confessar que me tornei muito mais português quando vim viver para Inglaterra. A capacidade de olhar “de fora para dentro” traz uma grande lucidez. E, se o que dessa forma reconheço me faz sentir abençoado por ter crescido e formulado a minha visão artística por entre a cultura portuguesa, traz-me também uma profunda tristeza a outros níveis.
O português tem em si uma capacidade inesgotável de “desbravar caminho”. Não quero cair em romantismos sobre os Descobrimentos, mas a génese do português é inquestionávelmente de conquista e de sobrevivência. Por isso é que considero que a outra faceta, a que está aliada ao destino (com toda a sua dicotomia da consciência de quem fomos), nos traiu. Existe um derrotismo crónico, que se tem vindo a instaurar ao longo dos tempos. Não sei qual é a solução. E esta minha resposta está longe de ser conclusiva. Vou talvez a meio do processo de interpretação disto tudo...
Inquieta-me que numa putativa sociedade europeia, em que a Poesia não tem lugar, nos estejam a tentar diluir a identidade. Perturba-me mais ainda que estejamos a deixar que o façam.
Uma Curta de Amor, como resposta espontâneamente poética, acaba por ser um exemplo de teimosia, nos tempos que correm... 

Sandra Celas em "Uma Curta de Amor"
   
Rick's Cinema: As filmagens de “Uma Curta de Amor” decorreram em locais como a Confeitaria Nacional, Pensão Amor e Casa Fernando Pessoa. Porquê a escolha destes locais?

A selecção dos locais de filmagem foi maioritáriamente coordenada pela co-produtora do projecto, Sara Quintela – que fez um excelente trabalho de, à distância, conseguir interpretar os requisitos vagos que lhe fui enviando. Acho que o único local que partiu específicamente de mim, foi a Pensão Amor, por possuir uma saudável decadência no décor e ambiente. De resto, foram espaços que vieram trazer texturas (ao nível visual/estético) e uma noção de Tempo (para não dizer de História)...

Rick's Cinema: “Uma Curta de Amor” conta com um elenco bastante vasto e alguns nomes bastante conhecidos. Pode falar-nos um pouco do processo de selecção do elenco?

A base do elenco divide-se em actores com quem sempre quis trabalhar (tais como a Teresa Sobral, Paula Pais, Lucinda Loureiro ou Susana Sá) e actores que, faça o que fizer, arranjarei sempre maneira de estarem presentes (como o Luís Correia Carmelo e a Sara Belo).
O elenco transmutou-se, naturalmente, mas quis também ir buscar rostos que estão mais associados a outras linguagens, como é o caso do Carlos Quintas, do Rui Lopes Graça, do Manuel Cintra ou da Clara Pinto Correia. Depois surgiram “ilustres desconhecidos” em que resolvi apostar, por afinidade pessoal ou lusitanidade que neles reconheci (Diana de Castro Loureiro, Raimundo Cosme, Inês Gonçalves, Rodrigo Soares, Marta Lapa...).

Rick's Cinema: Conta exibir o filme em festivais de cinema nacionais?

Sem dúvida. A abordagem inicial de o colocar em versão legendada como anúncio no Facebook vai se manter, mas a Sara Quintela já tem vindo a expressar essa intenção – tal como a possibilidade de este filme ser “o primeiro de dois” com temática semelhante. É uma ideia que, em si, me agrada, mas, fiquemos por aqui, para já, e logo veremos como tudo se desenrola...

Rick's Cinema: Numa entrevista concedida ao Rick's Cinema, o João Paulo Simões salientou que não poderia revelar mais sobre o conteúdo de “Streaming” a não ser que este vai abordar “a construção de memórias na era digital”. Pode adiantar-nos um pouco mais sobre o conteúdo do filme?

Continuo sem poder entrar em maiores detalhes, pois, como projecto a longo prazo, pretendo que o interesse se sustente através do mistério - e do que vai ser revelado muito aos poucos nos próximos meses. Também pelo facto de co-existirem no filme múltiplas narrativas, que rodeiam e influenciam o enredo principal. Diria tratarem-se de fragmentos narrativos aos quais se pode aceder (e abandonar) com um simples click – como a própria internet.
 Se, por um lado, Streaming incorpora realidade (em várias vertentes), por outro, envereda pelo sobrenatural e explora medos primordiais. 
 O segmento cuja pequena parte filmei recentemente em Lisboa com a actriz Diana de Castro Loureiro aborda precisamente esses elementos. Constance, a personagem intemporal por ela interpretada, é periférica na trama geral, mas absolutamente fulcral para o entendimento da origem da minha, o Phalanx. 
 Não só faz parte da sua "infância roubada", como evoca toda uma imunidade dita diplomática que encontra no nosso país o território ideal para livremente cometer certos actos.
Imunidade que leva à impunidade...

 Este é dos aspectos mais claramente delineados de Streaming e que vai estabelecer ligação com outros segmentos que ainda estou a desenvolver e que irão ser filmados no estrangeiro.

Rick's Cinema: Em que estado de desenvolvimento é que se encontra “Streaming”?

Tenho me vindo a aperceber que estou a entrar numa fase de auto-reflecção, na minha carreira.
Sinto necessidade de ponderar sobre o trabalho feito. Encontrar uma coerência entre os projectos realizados (e os inacabados). E, num sentido mais profundo, o porquê da recorrência de certos temas, detalhes ou obsessões.
É neste mar tempestuoso que Streaming "veio ao de cima". De imediato reconheci a necessidade de o fazer com uma liberdade absoluta e completamente nos meus próprios termos.
Assim, temos uma longa-metragem que vai levar cerca de um ano a filmar e em que o casting acontece em simultâneo com a escrita do guião e as filmagens, ao mesmo tempo do muito gradual financiamento.
Muito pouco ortodoxo, portanto.

Diana de Castro Loureiro em "Streaming"
  
Rick's Cinema: O elenco de “Streaming” conta com elementos nacionais e estrangeiros, que foram sendo seleccionados gradualmente. Já tinha pensado em alguns destes elementos quando estava a escrever o filme?

Sem dúvida. Tal como a maioria dos actores a quem ofereci papéis aceitaram-nos sem sequer ler qualquer guião, também o meu interesse na pessoa deles me estimula criativamente.
Mas, apesar de já numeroso, o elenco ainda está longe de estar completo. Ainda nem vai em metade, na verdade. E o casting das duas personagens principais ainda não foi sequer feito.
Apesar de reflectir a des-sensibilização da era digital que vivemos e a voracidade por informação breve e condensada, Streaming assume-se como um épico em que a humanidade e psicologia das personagens vai ser trabalhada ao detalhe.

Rick's Cinema: O elenco tem conhecido várias adições, incluindo Catherine Badet-Corniou e Jason Wing, dois nomes que indicam uma possível ligação entre “Streaming” e “He Can Delve in Hearts”. Qual a ligação entre os dois filmes?

Tal como a maior parte dos meus projectos, Streaming vai ser o que por aqui se chama de um “character-driven film”. Nesse sentido, quis re-incorporar essas duas personagens do He Can Delve In Hearts (em que bastante foi deixado em aberto ao nível narrativo) num contexto igualmente ligado à nossa relação com as tecnologias digitais.
Ao dar um novo rosto à personagem de Stem (com o casting de Jason Wing), pretendi re-inventá-la um pouco. A ideia de tirá-la da cave onde se mantinha aprisionado no filme anterior já se tinha vindo a desenvolver antes do Streaming (e é algo que, em termos de origem da personagem, virei a explorar ou numa média-metragem ou numa das bandas-desenhadas que a Cinema Livre vai lançar para o ano). Mas, atribuindo-lhe uma nova função no Streaming, marco assim o primeiro de vários cruzamentos que me interessa criar entre o filme e trabalhos meus anteriores e futuros.

Rick's Cinema: Quando espera ter “Streaming” pronto a estrear?

Estabeleci a data de estreia para o Natal de 2014. Faz sentido para mim criar esse contraponto.
O filme, por tudo o que pretende expressar (de forma tão ousada e extrema), vai gerar bastante desconforto no comum espectador. Será talvez um pouco perverso da minha parte, marcar presença numa altura tão associada à família. Mas, vejo o Natal como uma época de ilusão (acima de tudo comercial), portanto este impacto calculado, acaba por fazer sentido.
Em breve, partilharei a estratégia que estou a delinear para o lançamento, que vai em muito enfatizar o lado ilícito do projecto... 

Blog de "Uma Curta de Amor": http://umacurtadeamor.blogspot.co.uk/ 
Página do Facebook de "Streaming": https://www.facebook.com/streamingthemovie

1 comentário:

Filipa Guimarães disse...

Gostei muito da entrevista.