20 setembro 2013

Resenha Crítica: "Rush" (Duelo de Rivais)

 As rivalidades nas competições desportivas são um belo condimento para o desporto. No futebol encontramos actualmente rivalidades entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, bem como José Mourinho e Pep Guardiola, algo que ajuda a aquecer ainda mais o ambiente em volta da competição. "Rush", o novo filme realizado por Ron Howard, coloca-nos de forma apaixonada e vibrante perante a rivalidade entre Niki Lauda e James Hunt, dois lendários pilotos de Fórmula 1. Howard transporta-nos para outros tempos da Fórmula 1, onde a segurança era bem menor, os carros menos apetrechados e o talento e destreza dos pilotos eram fundamentais para fazerem a diferença. Como vem anunciado no início de "Rush", no tempo representado, em particular, os anos 70, faleciam cerca de dois pilotos por competição, com estes atletas a arriscarem as suas vidas nas pistas, enquanto desafiam a morte e procuram conquistar a glória. "Rush" apresenta-nos a dois homens que, cada um à sua maneira, eram apaixonados pelas corridas e tinham uma enorme sede de vencer: James Hunt (Chris Hemsworth) é o bon vivant, que vive cada dia como se fosse o último, mantendo um comportamento errático e um casamento instável com Suzy Miller (Olivia Wilde). Niki Lauda (Daniel Brühl) é um indivíduo austríaco meticuloso, que mantém um comportamento aparentemente frio, uma relação estável com Marlene (Alexandra Maria Lara num papel relevante) e uma perícia enorme para a maquinaria. Sem apresentar uma visão maniqueísta dos personagens ou fazer a apologia dos mesmos, "Rush" apresenta-os como seres humanos complexos, com comportamentos distintos, virtudes e defeitos, desde que estes iniciaram rivalidades na Fórmula 3.

 Ambos os pilotos competiam contra os desejos dos seus pais, tendo entrado na Fórmula 1 por caminhos diferentes, até chegarem à Ferrari (Lauda) e McLaren (Hunt), duas das maiores potências da época. "Rush" explora eficazmente a dupla de protagonistas, conseguindo algo raro de se ver nos filmes do género, ao mesclar o desenvolvimento dos personagens com vibrantes e fascinantes corridas que contam com um realismo impressionante. Se acerta no desenvolvimento dos protagonistas e no relacionamento destes com aqueles que os rodeiam, criando todo um universo credível, com Chris Hemsworth e Daniel Brühl a revelarem uma dinâmica assaz interessante, Ron Howard consegue ser igualmente assertivo na representação das corridas, sobretudo quando nos apresenta ao campeonato de Fórmula 1 de 1976. Nesta competição não faltam emoções fortes, pneus a beijarem furiosamente o asfalto, tragédia e acima de tudo uma enorme paixão pelas corridas, sendo captados todos os perigos e os fascínios deste desporto, sobressaindo o cuidado trabalho de fotografia (muitas das vezes com um certo granulado nas corridas para dar o tom da época) e efeitos de bom nível, resultando numa obra cinematográfica como poucas sobre a Fórmula 1. Os exemplares de filmes sobre Fórmula 1 são parcos, sobressaindo o documentário "Senna" e "Grand Prix", sendo que se quisermos alargar o lote para outras competições com bólides podemos acrescentar "Le Mans", pelo que "Rush" vem preencher uma lacuna e de que maneira, traduzindo-se numa obra de enorme relevância. Veja-se que "Le Mans" deixava de lado a história para nos dar corridas, "Grand Prix" ficava-se pela competência, mas "Rush" pretende ser apaixonante e intenso, chegando a amantes deste desporto e a leigos na matéria.

 Mais do que um filme sobre Fórmula 1, "Rush" é um drama profundamente humano sobre dois homens com sede de vencer, que têm em Chris Hemsworth e Daniel Brühl dois intérpretes à altura. Hemsworth surge credível como James Hunt, notando-se um enorme à-vontade a dar vida a este personagem boémio que se deixa levar pelos ímpetos, procurando emular os tiques e os gestos do piloto. Já Brühl tem um desempenho de grande calibre, sendo ele próprio um pouco como Lauda, discreto mas mais talentoso que o colega de profissão, formando com este uma dupla capaz de despertar simpatia. Uma das forças de "Rush" está exactamente nesta representação do relacionamento complexo entre Lauda e Hunt, demonstrando que para além de rivais, estes eram seres humanos com sentimentos e desejos, que aos poucos até formam um respeito mútuo, com o filme a respeitar em boa parte os factos (embora na vida real a rivalidade pareça ter sido menos intensa) e a deixar-nos com uma certa simpatia por estas figuras que arriscavam as suas vidas nas pistas, sendo particularmente emocionante ver a representação da corrida de Nürburgring, onde Lauda tem um episódio dramático. Ron Howard consegue desenvolver assim uma obra intensa a nível de emoções, onde as corridas de carros surgem apaixonantes e intensas, os relacionamentos humanos são construídos com assertividade, a banda sonora de Hans Zimmer resulta e forma uma das obras mais sólidas da sua carreira. "Rush" coloca-nos perante um filme elaborado de forma apaixonada, sobre dois pilotos apaixonados pelas corridas e pelas vitórias, que só poderia resultar em algo simplesmente apaixonante e vibrante. Uma grande vitória de Ron Howard.

Classificação: 4 (em 5). 

Título original: "Rush". 
Título em Portugal: "Duelo de Rivais". 
Título no Brasil: "Rush - No Limite da Emoção".
Realizador: Ron Howard. 
Argumento: Peter Morgan. 
Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Natalie Dormer. 

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