30 abril 2013

Resenha Crítica: "Frances Ha"

 Frances (Greta Gerwig) tem 27 anos de idade, muitos sonhos, uma enorme pancada e um conjunto de maneirismos meio peculiares que bem poderiam pertencer a uma personagem criada por Woody Allen. Embora tenha terminado recentemente o relacionamento com o namorado, a sua melhor amiga (Sophie, interpretada por Mickey Sumner) tenha decidido mudar-se para junto do respectivo namorado e a sua situação laboral continue instável, Frances continua a sonhar e a procurar atingir os seus sonhos, em particular ser feliz e tornar-se uma bailarina profissional e desenvolver as suas próprias coreografias. Esta é a história de uma mulher que já não é tão jovem como pensa, que lida com dilemas pelos quais passam tantas outros seres humanos, enquanto procura descobrir a sua verdadeira identidade, desenvolve amizades, forma uma dupla com uma enorme dinâmica com Sophie e percebe que algum dia terá de crescer, sobretudo quando esta última sai de casa e Frances é obrigada a ter de procurar outros rumos.
A vida de Frances é recheada de enormes doses de loucura, criatividade e uma constante fuga à tristeza, enquanto nos consegue fazer rir, conquistar e dar um dos mais brilhantes desempenhos da carreira de Greta Gerwig, que enche o grande ecrã de vida e energia, numa obra que nem sempre atinge o seu potencial. Belíssimamente filmado a preto e branco, com uma banda sonora soberba, "Frances Ha" surge como um filme despretensioso, que procura apenas e só divertir e entreter o espectador de forma simples, embora nem sempre eficaz. Sem procurar explorar as temáticas que atira em nossa direcção ou procurar surpreender, o novo filme realizado por Noah Baumbach destaca-se pela sua simplicidade, pelos diálogos afiados (muitas das vezes a parecer que foram improvisados), ao mesmo tempo que nos apresenta a uma mulher que procura conquistar o seu espaço numa cidade de Nova Iorque que parece muitas das vezes saída de um filme de Woody Allen e povoada pelos personagens das suas obras. 
 Greta Gerwig conta com o estilo neurótico de Allen, debitando falas algo irreverentes, surpreendendo pela sua loucura e enorme humanidade, um espírito sonhador (por vezes mais próximo de alguém com 17 anos do que 27), que tem tanto sucesso a nos conquistar como tem insucesso em conquistar os personagens masculinos. Frances bem faz questão de mostrar que é uma encalhada, enquanto faz amizade com elementos masculinos como os personagens interpretados por Adam Driver, Michael Zegan, entre outros, viaja inesperadamente para Paris e procura singrar no mundo da dança, embora esta faceta da sua vida não conheça grande glamour. O sonho de Frances em ser bailarina e encenar as suas próprias coreografias surge sempre como um dos muitos desafios que esta personagem encontra, ao mesmo tempo que procura superar as suas adversidades, tal como Greta Gerwig procura superar a falta de um argumento coeso. 
 Escrito por Gerwig e Baumbach, "Frances Ha" concentra as suas atenções em demasia no aparente improviso, num foco excessivo na sua protagonista que brilha, mas surge muitas das vezes como um eucalipto que seca tudo à sua volta. No entanto, é praticamente impossível não nos apaixonarmos pelo desempenho de Greta Gerwig, pela personagem meio naïve que esta cria, uma adulta que ainda pensa como uma adolescente, tendo de lidar com um conjunto de desafios nem sempre fáceis de ultrapassar. Quem também tem um desafio enorme é Noah Baumbach, que tem em mãos um filme simples, esteticamente interessante, mas que sabe utilizar algumas das limitações a seu favor ao centrar as suas atenções na sua carismática protagonista e desenvolver uma obra agradável, que acima de tudo procura criar uma sensação de boa disposição no espectador, enquanto o coloca perante várias questões quotidianas. 
  O quotidiano de Frances é o cerne do filme, e a própria câmara de filmar faz questão de a seguir atentamente. Noah Baumbach poderia explorar melhor os personagens secundários (com excepção de Sophie), desenvolver mais algumas temáticas relacionadas com os problemas dos jovens em construírem uma carreira, mas prefere optar pela simplicidade. Deixa-nos a pensar sobre o que seria este filme se optasse por adensar alguns dos elementos da narrativa. Não o faz, e deixa Greta Gerwig brilhar. Após ver "Frances Ha", confesso que tentei durante várias vezes imaginar como seria o filme sem a actriz a dar vida à protagonista. Não o consegui. Greta Gerwig dá uma alma enorme à sua personagem, conquista-nos com a sua energia contagiante que rompe com o cenário a preto e branco que a cobre, dança, bebe, diverte-se, chateia-se, surpreende e acima de tudo faz com que nunca desistamos do filme e cria aquela que é uma das personagens mais memoráveis da sua carreira.

Classificação: 3.5 (em 5). 

Título original: "Frances Ha". 
Realizador: Noah Baumbach.
Argumento: Noah Baumbach e Greta Gerwig. 
Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver, Michael Zegen.


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