03 maio 2012

Resenha Crítica: "Perfect Sense"

Já imaginaram uma vida sem os cinco sentidos? Será que conseguiríamos viver sem visão, olfacto, tacto, paladar e audição? Seria de todo improvável mas a acontecer certamente perderíamos todos aqueles pequenos e grandes momentos que marcam o dia a dia, perderíamos grande parte daquilo que nos rodeia e tudo aquilo que dá algum sentido e transforma a nossa vida, perderíamos todo o tempero que salpica o nosso quotidiano de pequenos pormenores, que nem sempre valorizamos. Realizado por Davic MacKenzie, “Perfect Sense” joga com esta premissa ao apresentar um romance entre um chef de cozinha e uma epidemiologista no meio de uma epidemia que ameaça roubar as emoções e os sentidos a toda a população, no meio de um cenário apocalíptico, onde a destruição humana chega de forma lenta e dolorosa.
 A história desenrola-se em Glasgow e acompanha Michael (Ewan McGregor), um cozinheiro mulherengo, incapaz de ter uma relação estável, e Susan (Eva Green), uma epidemiologista frustrada com o final de mais uma ligação amorosa, infeliz por não encontrar o homem ideal, ou apenas, um homem. Estes conhecem-se pouco tempo depois de Susan ver-se a braços com o caso mais complicado da sua vida, nomeadamente o de um camionista que é internado após perder o olfacto. Existem mais sete casos como este em Aberdeen, cinco em Dundee, onze em Glasgow, dezoito em Edimburgo, mais de cem casos documentados em Inglaterra, França, Bélgica, Itália, Espanha, tudo num espaço de tempo inferior a vinte e quatro horas. O mais preocupante nestas ocorrências é o facto das vítimas não terem tido contacto entre si, não haver um padrão para a doença e esta espalhar-se a uma velocidade assombrosa, sem que ninguém saiba bem o que fazer e quais os efeitos da mesma.
 Enquanto esta epidemia alastra e ameaça roubar os sentidos a toda a população, deixando-as num vazio perigoso e incerto, Michael e Susan começam a desenvolver uma intensa relação amorosa, recheada de um sentido de urgência à medida que percebem que de um momento para o outro podem deixar de sentir o toque um do outro, de sentir o cheiro de cada um, de poderem deixar de ver a sua cara metade, de poderem ouvir o que cada um diz ao outro, ou seja podem vir a ser privados de amar, algo que nunca aproveitaram verdadeiramente enquanto tiveram oportunidade nas suas relações anteriores, quer por opção própria, quer por acção do destino. Enquanto todos procuram uma justificação para as causas da epidemia, estes procuram encontrar um modo de amar e ser amados durante um tempo negro para a humanidade que lentamente caminha para a destruição.
 As epidemias e as doenças contagiosas são todos os anos uma realidade nas sociedades ao redor do Mundo, sejam estas a gripe das aves, a febre dos porcos, a BSE (mais conhecido como “doença das vacas loucas), seja o vírus e.coli nos vegetais, todos os anos parece que somos assombrados por um vírus que promete mexer com o nosso quotidiano e colocar em perigo as nossas vidas. A informação passa pela imprensa a uma velocidade estonteante, o público entra em pânico, as teorias da conspiração rondam a internet, e os investigadores procuram encontrar uma cura para todas essas pragas. Em “Perfect Sense”, o que está em jogo é a perda dos sentidos, das sensações básicas e essenciais para uma vida plena do ser humano, que tanto depende da sua visão, olfacto, audição, paladar, tacto para viver. Não é que o ser humano não consiga viver sem alguns destes sentidos, mas certamente ficaria com um vazio difícil de preencher ao perder parte dos condimentos da vida, que ajudam o ser humano a definir muitas das suas decisões.
 Sem o olfacto perdemos a hipótese de cheirar, e de associar os cheiros a certas pessoas, objectos e momentos, sem este sentido não poderíamos ter a noção do cheiro do perfume da pessoa amada, o cheiro da areia da praia nas tardes de Verão, aquele cheiro a pão quente quando entramos numa padaria (e sim vou evitar todo e qualquer comentário de teor escatológico sobre outro tipo de cheiros). Sem a visão não poderíamos ver nada do que nos rodeia, algo que complica quando se perde ainda o tacto, o paladar e a audição, todos os sentidos que nos permitem contactar com o exterior, de sentir os outros seres humanos. Sem sentir, sem ver, sem cheirar e sem saborear caímos num abismo vazio onde ficamos apenas presos a uma existência solitária e infeliz. Não deixa de ser curioso verificar como um filme que tem como tema principal uma epidemia que ameaça roubar os sentidos da população consegue despertar um vasto conjunto de sentimentos no espectador que apenas podem ser desfrutados com esses sentidos e com a memória destes, e deixa-lo a pensar sobre como reagiria numa situação.
  A temática das epidemias e como estas podem envolver a população e causar o pânico não é propriamente uma novidade, tendo ainda à pouco tempo sido abordada em “Contagion” de Steven Soderbergh. Se “Contagion” procurava disparar para vários lados e focar-se na extensa miríade de personagens, “Perfect Sense” centra-se apenas no casal interpretado por Ewan McGregor e Eva Green. Este casal é a alma do filme, são estes dois elementos que nos fazem importar com o enredo, com o destino dos personagens, com as consequências da epidemia que afecta a população mundial e os seus personagens. Estes são duas figuras marcadas pelo destino e pelo medo de voltar a entregar-se a alguém. Michael perdeu a noiva quando estava prestes a casar, a dor nunca passou, apenas foi-se esbatendo com o tempo, mas criou-lhe uma barreira intransponível no seu coração, que apenas Susan consegue quebrar. Susan olha para Michael e vê o seu pai, vê todos os romances que resultaram mal, vê todos aqueles que a abandonaram. Aos poucos, estas duas figuras marcadas pelo destino abrem o coração ao mesmo tempo que os seus sentidos se fecham. Lutam, sofrem, perdem, cometem erros, procuram um no outro aquilo que perderam e aquilo que procuram voltar a encontrar, mesmo que isso seja impossível de encontrar. Estes são movidos pela esperança, pelo amor, pela crença, tal como cada ser humano é movido em algum tempo da sua vida por este sentimento, exposto de forma esplêndida pelo personagem de Ewan McGregor em “Moulin Rouge”: “Love is a many splendid thing. Love lifts us up where we belong. All you need is love!”
 Enquanto a dupla de protagonistas procura a esperança no amor, o resto do Mundo está a desabar por completo, com a humanidade a não saber lidar com todos estes acontecimentos que levam a população a perder tudo aquilo que deu por garantido durante muito tempo. Chega a ser violenta a forma como vemos a população a comer tudo o que vê pelo caminho para procurar ter algum paladar, seja carne crua, uma garrafa de azeite, o prato mais requintado, o prato mais barato, tudo numa busca incessante por voltar a sentir o seu paladar. E o que dizer quando deixam de ouvir? E de ver? Apesar das causas desta epidemia nunca serem devidamente explicada ao longo do enredo (diga-se que não é uma questão fulcral), a verdade é que esta consegue ter uma grande ressonância na mente do espectador, que começa aos poucos a perceber a importância dos sentidos para condimentar a sua vida.
A todos estes elementos junta-se ainda o argumento eficaz de Kim Fupz Aakeeson, o trabalho seguro de David Mackenzie e do director de fotografia Giles Nuttgens. Estes ajudam a criar uma conexão entre o espectador e os personagens, ao mesmo tempo que expõem todo o ambiente apocalíptico que rodeia o filme, mesclado com a história de amor da dupla de protagonistas. A conexão com os personagens é algo que se desenrola de forma natural, não só devido aos desempenhos de McGregor e Green, mas também devido ao facto de estes se envolverem em situações nas quais qualquer um se pode rever. Quem nunca sofreu por amor? Quem nunca cometeu erros? Quem nunca percebeu que estava a perder algo importante quando isso já lhe tinha escapado das mãos? Se a conexão entre o espectador e os protagonistas resulta da melhor maneira, o mesmo não se pode dizer da exposição do ambiente apocalíptico. As constantes explicações acabam por ser demasiado expositivas, a ponto de por vezes chegarmos a sentimo-nos infantilizados com tanta explicação que nos é atirada pela narração da personagem de Eva Green. Não é que por vezes esses momentos não resultem (a conclusão final foi um bom momento cinematográfico), mas são utilizadas de forma excessiva para expor ao espectador o sentimento de perda que todos os personagens estão a sentir, algo que é bem conseguido através do simples recurso às imagens em movimento.
 “Perfect Sense” chama desde logo à atenção pela sua premissa interessante, sobre como o Mundo poderia reagir a uma epidemia violenta que roubaria todos os sentidos à população. Todos os anos somos confrontados com várias epidemias, situações graves que ameaçam tomar proporções desmedidas e colocar em perigo o ser humano. Epidemias como a gripe das aves, febre suína, vacas loucas, entre muitas outras, fizeram parte do nosso quotidiano durante alguns tempos, até a situação estar mais controlada. Em “Perfect Sense” a epidemia ataca os sentidos vitais e rouba aos seres humanos a plenitude da sua existência, deixando-os sem saborear, cheirar, sentir, ver, e ouvir. Todos nós nos iríamos sentir desesperados perante tal situação, Michael e Susan não são excepção, estes vêm de um momento para o outro todos os seus sentidos definharem, à medida que a humanidade vai perdendo a fé e a esperança na salvação. Michael e Susan procuram viver uma paixão em tempos de destruição da humanidade, procuram a esperança no amor e na crença que melhores dias virão, procuram acima de tudo a companhia um do outro, enquanto tudo à sua volta é destruído de forma calma e contemplativa pelo fluxo inexorável e impiedoso do destino. Os cinco sentidos são essenciais para a vida humana, sem estes certamente não teríamos a oportunidade de ver “Perfect Sense”, um romance recheado de elementos de ficção-científica que mexe com os sentidos, com os sentimentos e com o nosso lado mais romântico.

Classificação: 3.5 (em 5)

Ficha técnica:
Título original: “Perfect Sense”.
Título em Portugal: “Perfect Sense”.
Título no Brasil: "Sentidos do Amor".
Realizador: David Mackenzie.
Guião: Kim Fupz Aakeson.
Elenco: Ewan McGregor, Eva Green, Connie Nielsen, Stephen Dillane, Dennis Lawson, Ewen Bremner, entre outros.

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