21 maio 2017

Resenha Crítica: "John From" (2015)

  A partir de um determinado momento de "John From", a imaginação de Rita (Júlia Palha), a protagonista, uma adolescente de quinze anos de idade, começa a tomar conta do corpo e da alma do filme. Desde um carro que se estaciona sozinho, passando por um nevoeiro que consome os cenários e exacerba a confusão que percorre a mente desta adolescente que se encontra apaixonada pelo vizinho, até uma janela que se move e um espaço urbano lisboeta que ganha características exóticas, "John From" balança aos ritmos da sua protagonista, com Rita a assumir um papel fulcral no interior da segunda longa-metragem realizada por João Nicolau. O cineasta permite que o enredo de "John From" ceda à imaginação da protagonista, enquanto nos compele a desfrutar da explosão de fantasia que permeia este universo narrativo ancorado em sentimentos bem reais, tais como o tédio sentido pelos adolescentes ao longo das férias de Verão, ou as sensações incontroláveis das paixonetas durante esta fase da vida em que tudo é vivido e sentido a um ritmo muito especial. O Verão praticamente compele os adolescentes a protagonizarem alguns momentos de lassidão, seja devido ao imenso calor, ou à quebra das rotinas escolares, ou à quantidade assinalável de tempo livre, com a temperatura elevada a contribuir para aquecer os sentimentos e os espaços por onde os personagens de "John From" circulam. Diga-se que João Nicolau é exímio a captar o torpor que envolve o quotidiano dos adolescentes durante as férias de Verão, com o cineasta a abordar uma série de temas e episódios mais latos a partir do caso particular da protagonista, enquanto concede espaço para Júlia Palha compor uma personagem dotada de alguma complexidade. Júlia Palha transmite com acerto as dúvidas e inquietações de Rita, uma adolescente que ainda se encontra a formar a sua personalidade e conta com uma rebeldia muito própria da idade, com a intérprete a incutir uma naturalidade e sinceridade notórias aos diálogos e às acções desta jovem. Por vezes parece que estamos diante de uma personagem que assume uma postura quase adulta, em outras ocasiões não podemos deixar de esboçar um sorriso devido às atitudes mais infantis de Rita, com a protagonista a encontrar-se num limbo entre o final da infância e a maioridade, ou seja, uma fase que é sempre muito marcada por imensas descobertas e uma forma muito peculiar de encarar as sensações e emoções. Rita terminou recentemente o namoro com Bruno, gosta de tocar piano no centro comunitário, de beber café e chapinhar os pés na varanda, com as férias de Verão desta jovem a contarem com doses significativas de monotonia, alguma diversão e uma série de episódios marcantes.

18 maio 2017

Resenha Crítica: "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias)

 Drama pontuado por uma crueza indelével e um retrato áspero da Roménia de 1987, ou seja, da fase final da Governação do ditador Nicolae Ceaușescu (cuja presença nunca é vista, ou mencionada, embora as suas políticas sejam sentidas), "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (para facilitar a escrita, iremos o utilizar o título em português, nomeadamente, "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias") transporta o espectador para o interior da dura realidade de Otilia Mihartescu (Anamaria Marinca) e Gabriela Dragut (Laura Vasiliu), duas estudantes universitárias, sempre tendo em atenção as dinâmicas do período histórico representado. Gabriela, mais conhecida por Găbița, divide o quarto com Otilia no interior de um dormitório universitário pontuado por quartos diminutos, corredores estreitos, poucos luxos e imenso contrabando. Laura Vasiliu incute um tom de voz relativamente baixo e frágil a Găbița, enquanto transmite a personalidade algo apagada, nervosa, precipitada e egoísta (a forma como coloca a amiga em perigo é de uma enorme irresponsabilidade) desta personagem que procura efectuar um aborto ilegal (o título remete para o tempo que Găbița tem de gravidez). Găbița conta com a ajuda e apoio de Otilia, embora o espírito de camaradagem desta última acabe por colocar a personagem interpretada por Anamaria Marinca diante de uma série de perigos e episódios emocionalmente devastadores. Otilia é uma estudante universitária relativamente independente, que apresenta uma personalidade mais forte e pragmática do que Găbița, bem como um maior à vontade a lidar com os acontecimentos e as adversidades, algo transmitido por Anamaria Marinca, com a actriz a surgir como uma das figuras centrais da narrativa e do olhar de Cristian Mungiu, o realizador deste drama onde a luz é envolta pelo cinzentismo da temperatura e dos sentimentos. A actriz tem uma interpretação marcada pela contenção na exposição dos sentimentos, embora Otilia nem sempre consiga manter a calma, sobretudo quando é colocada diante de uma situação extrema. Diga-se que os personagens que lidam com problemas de difícil resolução ou dilemas que desafiam os seus limites surgem como algo que une "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" com outros trabalhos de Cristian Mungiu, tais como "Occident", "După dealuri" e "Bacalaureat". Não faltam ainda outras temáticas e elementos a unirem as obras mencionadas, tais como a ausência de música não diegética, os planos-sequência executados com enorme rigor, a câmara de filmar quase sempre pronta a acompanhar as emoções dos protagonistas, os personagens filmados de costas, o bom aproveitamento dos actores e actrizes que compõem o elenco, os cenários utilizados com enorme acerto, a abordagem de temas relacionados com a sociedade romena ao mesmo tempo que são levantadas questões relativamente universais. A atmosfera que rodeia a representação do território da Roménia está longe de ser a mais apolínea, ou optimista, com este espaço a parecer combinar praticamente na perfeição com o estado de espírito dos personagens. As árvores surgem despidas de folhas, o céu dotado de um cinzentismo arrasador, enquanto os jovens recorrem ao contrabando e a serviços ilegais para obterem os seus intentos, sejam estes comprar tabaco ou cometer um aborto. Otilia e Găbița fumam, compram produtos contrabandeados (não faltam referências a marcas de tabaco, sabonetes, a produtos de beleza, entre outros) e apresentam uma camaradagem típica de quem habita no mesmo local, embora contem com diversas diferenças a nível de personalidade e gostos.

15 maio 2017

Filmin lança canal de cinema português

 Hoje, dia 15 de Maio, o Filmin dá mais um passo de gigante para a sua afirmação em Portugal ao lançar um canal dedicado em exclusivo ao cinema português, nomeadamente, o Canal PT. Estamos diante de um espaço que promete ser uma ponte privilegiada entre o público e o cinema português, com o Canal PT a facilitar e muito o acesso (de forma legal) aos filmes nacionais. Desde grandes sucessos em circuito comercial como "Tabu" (Miguel Gomes), "Os Maias" (João Botelho), "José e Pilar" (Miguel Gonçalves Mendes), a obras cinematográficas que deixaram uma marca forte em festivais de cinema nacionais e internacionais, tais como "Balada de Um Batráquio" (Leonor Teles), "Fora da Vida" (Filipa Reis e João Miller Guerra), "Alentejo, Alentejo" (Sérgio Tréfaut), "Jesus por um dia" (Verónica Castro e Helena Inverno), "Linha Vermelha" (José Filipe Costa), não faltam exemplos de filmes recomendáveis que pontuam a programação requintada deste canal que chega com enorme fulgor. Entre longas, curtas, documentários, obras de ficção, o Canal PT conta nas suas fileiras com obras de cineastas como Miguel Gomes, João Salaviza, João Botelho, Manuel Mozos, Pedro Pinho, João Canijo, Leonor Teles, Luísa Homem, Sérgio Tréfaut, José Filipe Costa, Miguel Gonçalves Mendes, Sandro Aguilar, entre outros, com a equipa do Filmin a prometer não ficar por aqui. De acordo com o comunicado divulgado para a imprensa, o Canal PT "(...) será dinamizado regularmente com programações especiais, focus sobre autores, e colaborações com outros eventos cinematográficos e culturais, no sentido de se criar um espaço dinâmico de reflexão e descoberta". Ou seja, este recém-nascido saiu da barriga dos seus criadores com uma enorme pujança e imensos sinais de vitalidade, tendo tudo para conquistar o sucesso a curto prazo e tornar-se uma ferramenta imprescindível a longo prazo, com o Canal PT a permitir impulsionar a divulgação do cinema português e evitar o desencontro entre este e o público. Nesse sentido, o Filmin permite que as obras cinematográficas nacionais cheguem a quem não teve oportunidade de visualizá-las quer em festivais, quer em circuito comercial (muitos destes filmes estiveram em circuitos limitados de exibição), bem como acabar com as desculpas para não visualizarmos mais cinema português. Estamos diante de um convite claro para mergulharmos em águas cinematográficas nacionais, enquanto descobrimos ou redescobrimos algumas das nossas pérolas e observamos com especial prazer o crescimento do Filmin. É um projecto que dá gosto de divulgar, com a qualidade da programação a ajudar a esse sentimento e a contribuir para a sensação de que estamos diante de um pequeno (grande) tesouro que merece ser preservado e acarinhado.

Vídeo promocional do Canal PT:



Canal PT: https://www.filmin.pt/canal/pt

13 maio 2017

Resenha Crítica: "Occident" (2002)

 Composto por três capítulos que se interligam e complementam (intitulados Luci e Sorina; Miahela e a sua mãe; Nae Zigrid e o sr. Coronel), "Occident" surge como uma comédia de sabor amargo, ou um drama pontuado por traços de humor (muitas das vezes negro), que marca a estreia de Cristian Mungiu na realização de longas-metragens. É uma estreia segura, surpreendentemente madura e recheada de toques de brilhantismo, caracterizada por diversos elementos e temáticas que marcam alguns trabalhos de Cristian Mungiu. Não faltam os personagens que lidam com dilemas intrincados, os planos de longa duração, a câmara muitas das vezes em movimento (pronta a filmar os personagens de costas), a capacidade de explorar temas relacionados com a sociedade romena ao mesmo tempo que são levantadas questões universais, o bom aproveitamento do elenco e a abordagem de problemáticas inerentes à Roménia contemporânea. "Occident" afirma ainda o talento de Cristian Mungiu para valorizar a dimensão humana dos personagens e a capacidade dos actores e actrizes comporem figuras complexas, enquanto transporta o espectador para o interior de uma visão muito própria da Roménia. Diga-se que "Occident" casa surpreendentemente bem com "Bacalaureat", a quarta longa-metragem realizada pelo cineasta. "Occident" coloca o espectador diante de alguns personagens que tardam em conseguir encontrar a estabilidade financeira e laboral no interior da Roménia, uma situação que leva alguns elementos a pretenderem emigrar, sobretudo os mais jovens. "Bacalaureat" transporta o espectador para o interior do dilema moral de Romeo, um médico que emigrou e regressou ao seu país na companhia da sua esposa, embora esteja desiludido com o facto da Roménia tardar em cumprir os sonhos daqueles que esperavam muito mais da sua nação. Romeo procura fazer de tudo para que Eliza, a sua filha, atinja a média necessária para conseguir uma bolsa para estudar em Inglaterra, embora esse desejo encontre uma série de revezes. Se "Bacalaureat" apresenta um tom cru e dramático, expondo quer problemas muito próprios de um pai, a dissolução de um casamento e a corrupção no interior da Roménia, já "Occident" conta com uma série de momentos mais leves, muitas das vezes pontuados por algum humor negro. Não querem estas palavras dizer que "Occident" é totalmente desprovido de momentos dramáticos, bem pelo contrário, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica pontuada por algumas figuras que conhecem desilusões amorosas e laborais. Também não falta algum romantismo e poesia, com Cristian Mungiu a encontrar o humor e a delicadeza em momentos aparentemente simples, tais como dois personagens, ladeados por disfarces ridículos, a dialogarem sobre poesia, música e assuntos do foro pessoal. A música é um dos elementos de relevo do filme quer para atribuir um tom mais leve ao enredo e sublinhar o humor (a canção "Anul 2000" é utilizada de forma sublime), quer para incrementar trechos mais dramáticos ou imprevisíveis, com o trabalho de Petru Mărgineanu e Ioan Gyuri Pascu a destacar-se pela positiva, tal como o sentido de ritmo que Cristian Mungiu incute a "Occident" e a capacidade do cineasta em jogar com a informação que é concedida em cada um dos capítulos, até chegar à conclusão. No início de "Occident" encontramos a mobília e as roupas de Luci (Alexandru Papadopol) e Sorina (Anca Androne) despejadas no exterior do edifício onde se encontra localizado o apartamento deste casal. Luci e Sorina foram despejados, uma situação que enfurece o primeiro e aumenta ainda mais a vontade da segunda em sair da Roménia.

09 maio 2017

Resenha Crítica: "La nuit de Varennes" (Il mondo nuovo)

 Num determinado momento de "La nuit de Varennes", encontramos Émile Delage (Pierre Malet) a tentar silenciar Giacomo Casanova (Marcello Mastroianni), após este último considerar que o povo é o mais brutal e tirânico dos soberanos. Thomas Paine (Harvey Keitel) condena imediatamente a atitude extremista de Delage e salienta que a proibição das palavras é sempre um passo para a tirania, com "La nuit de Varennes" a expor de forma clara que a liberdade de expressão tem de ser defendida. O comentário efectuado por Thomas Paine mantém uma actualidade notória, apesar do enredo desta longa-metragem realizada por Ettore Scola ter como pano de fundo o acontecimento histórico denominado de "Fuga de Varennes", um episódio que remete para a tentativa de fuga de Louis XVI e da sua família, entre 20 e 21 de Junho de 1791. Ettore Scola não nos oferece uma lição de História, embora mexa com diversos episódios e figuras históricas, sempre com um misto de exuberância, humor e dramatismo, ou não estivéssemos diante de uma conjuntura fervilhante e de uma série de personagens de personalidade forte. Já imaginaram um encontro fortuito entre Restif de la Bretonne, Giacomo Casanova e Thomas Paine, tendo o mencionado episódio da "Fuga de Varennes" como pano de fundo? É exactamente um encontro do género que se desenrola em "La nuit de Varennes", um drama de pendor histórico que reúne de forma ficcional estas figuras de ideais e feitios distintos. Ettore Scola concede espaço para cada um dos personagens enunciados sobressaírem, bem como os respectivos intérpretes, sempre sem descurar o contexto histórico, ou o diálogo entre as temáticas associadas às balizas cronológicas da narrativa e a época em que "La nuit de Varennes" foi lançado (o filme estreou originalmente em 1982). Não faltam comentários sobre a liberdade de expressão, as desigualdades e as convulsões sociais, a brutalidade e o lado trágico dos conflitos, enquanto ficamos diante de uma experiência cinematográfica onde a história e a ficção se misturam de forma muito viva, com a figura de Restif de la Bretonne a surgir como um elo de ligação fulcral entre os diversos protagonistas e episódios históricos. Jean-Louis Barrault incute uma faceta libertina e intrometida a Nicolas-Edme Rétif, também conhecido como Restif de la Bretonne, um escritor mulherengo que conta com uma vasta obra publicada e imensas dívidas. Recheada de livros por vender, a habitação de Restif deixa transparecer a incapacidade do escritor e impressor em transaccionar as obras literárias, uma situação que contribui para o estado pouco famoso em que se encontram as finanças deste mulherengo inveterado que não tem problemas em manter um caso com Agnès (Evelyne Dress), uma das suas filhas.

26 abril 2017

Resenha Crítica: "Ma Loute" (2016)

 A bandeira vermelha é exibida de forma regular ao longo de "Ma Loute", embora o perigo que ronda alguns personagens desta longa-metragem realizada por Bruno Dumont não venha directamente das águas revoltas, mas sim de uma família de canibais que habita em St. Michel, um bairro de pescadores situado nas imediações de Pas-de-Calais. O núcleo desta família é composto por um casal (os Brufort) e os seus quatro filhos, Cloclo (Noah Noulard), Ti-Louis (Noa Creton), Patte (Julian Teiten) e Ma Loute (Brandon Lavieville), com este último a surgir como um dos personagens principais do filme. Ma Loute e L'Éternel (Thierry Lavieville), o seu pai, trabalham quer na apanha de mexilhão, quer como barqueiros, para além de acumularem, de livre vontade, a tarefa de esvaziarem o território da presença de turistas. O método que Ma Loute e L'Éternel utilizam para esvaziar o território é simples: eliminar e comer alguns dos turistas, com Bruno Dumont a expor de forma bem gráfica algumas partes dos corpos que são bastante apreciadas pelos Brufort. Veja-se quando somos colocados diante de um balde recheado de pedaços de um corpo, ou o momento em que encontramos a Srª Brufort (Caroline Carbonnier) a perguntar se os seus quatro filhos pretendem comer mais um pé, entre outros episódios que exibem o gosto de Bruno Dumont em jogar com as expectativas e os limites do espectador. Diga-se que o cineasta tem em "Ma Loute" uma obra de grande vigor, irreverência e uma mescla certeira entre o refinamento e o grotesco (tanto somos colocados diante de um plano belíssimo como de um personagem a cuspir ou a comer carne humana), com alguma crítica social e humor à mistura. Note-se o tom jocoso com que Bruno Dumont retrata os personagens que representam a burguesia, ou o desprezo que os elementos mais abastados evidenciam para com a populaça (algo revelador da tentativa de manter a estratificação social). Pelo meio não falta uma investigação protagonizada por dois inspectores peculiares e parcamente perspicazes, um pouco a fazer recordar "P'tit Quinquin", uma minissérie realizada por Bruno Dumont, com os dois trabalhos do cineasta a contarem com diversos elementos em comum. Desde os personagens de fisionomia e comportamentos peculiares, passando pelos cenários aparentemente paradisíacos e marcados pela presença das praias, até aos crimes que despoletam uma investigação policial, não faltam elementos a ligarem "P'tit Quinquin" e "Ma Loute", embora o maior ponto de união seja esta faceta leve, algo anárquica e inspirada de Bruno Dumont. O cineasta deixa regularmente os personagens e a narrativa à deriva (por vezes em demasia), enquanto capta e exacerba a faceta absurda de alguns comportamentos do ser humano, com a investigação protagonizada pelo Inspector Alfred Machin (Didier Desprès) e Malfoy (Cyril Rigaux), o seu adjunto, dois representantes das autoridades que contam com estranhos métodos de trabalho, uma faceta caricatural e uma dinâmica muito particular, a surgir como um dos fiapos que ligam o enredo de "Ma Loute".

25 abril 2017

Resenha Crítica: "Miracolo a Milano" (O Milagre de Milão)

 Tudo começa com a frase "Era Uma Vez...", quase a dar o mote para a atmosfera próxima de um conto de encantar que rodeia "Miracolo a Milano", uma obra cinematográfica que mescla o realismo e a fantasia, a complexidade e a simplicidade, o lirismo e a crueza, a inocência e o pragmatismo, com Vittorio De Sica a transportar o espectador para o interior de um enredo onde um jovem órfão mexe por completo com o quotidiano daqueles que o rodeiam. O jovem em questão é Totò (Francesco Golisano), o protagonista deste conto neo-realista, um indivíduo simples, optimista e ingénuo, que galvaniza uma série de figuras depauperadas a lutarem pelos seus sonhos, embora acabe muitas das vezes por lidar com a ganância humana, bem como com a bondade dos seus pares e da sua mãe adoptiva. No início de "Miracolo a Milano" encontramos Totò, ainda bebé, a ser adoptado por Lolotta (Emma Gramatica), uma senhora vetusta, simpática e sonhadora. Emma Gramatica tem uma participação curta mas marcante em "Miracolo a Milano", com a actriz a transmitir a personalidade afável, tolerante e sonhadora de Lolotta, uma idosa que tenta passar os seus valores para o filho adoptivo. As dinâmicas entre Totò e Lolotta são pontuadas por algumas doses de ternura e uma sinceridade que contribui quer para o impacto provocado pela morte desta mulher, ainda nos primeiros dez minutos do filme, quer para a facilidade com que acreditamos na personalidade naïf e bondosa do protagonista, fruto da educação da mãe, quer para a candura que marca o regresso temporário desta figura feminina. A morte de Lolotta enche Totò de tristeza, algo notório quando observamos o jovem a acompanhar o veículo que transporta o caixão. Vittorio De Sica deixa Totò a caminhar praticamente sozinho pelas ruas de Milão, num silêncio sepulcral, enquanto exibe os espaços desta cidade que parece incapaz de integrar todos os seus cidadãos, com o cineasta a aproveitar eficazmente este território ao serviço do enredo. Embora conte com diversos elementos de fantasia, "Miracolo a Milano" integra no seu interior uma série de características associadas ao neo-realismo italiano. Note-se as filmagens fora dos espaços dos estúdios (um aproveitamento assertivo da cidade de Milão e das suas margens), a abordagem de temáticas do foro social (a pobreza, a solidão, o capitalismo selvagem, as desigualdades), o destaque dado a figuras desfavorecidas (sempre com uma mescla de realismo e fantasia), ou Totò não surgisse como um protagonista sem grandes possibilidades financeiras que se integra no interior de um bairro de lata.

21 abril 2017

Resenha Crítica: "Il boom" (Negócio à Italiana)

 Sem dinheiro para grandes investimentos, aventuras, ou devaneios, Giovanni Alberti (Alberto Sordi), o protagonista de "Il boom", é um pequeno empreiteiro que gasta mais do que aquilo que recebe quer para saciar os seus vícios, quer para agradar a Silvia (Gianna Maria Canale), a sua esposa, uma mulher pouco dada à contenção financeira. Filha de um general (Federico Giordano) conservador, Silvia é uma das poucas pessoas que inicialmente não sabem das dívidas do personagem interpretado por Alberto Sordi, enquanto este procura esconder tudo da cara-metade. Por sua vez, Silvia raramente tem demonstrações de afecto para com o esposo, com Gianna Maria Canale a incutir uma faceta frívola a esta mulher, com o matrimónio do casal a parecer estar dependente da situação financeira de Giovanni. O empresário esforça-se para oferecer todas as comodidades e luxos à esposa, embora não tenha dinheiro para pagar os mesmos, algo que o conduz a mentir constantemente à mãe do seu filho, tendo em vista a procurar manter o casamento. Protagonista de comédias à italiana como "La grande guerra", "Il vedovo", "Mafioso", entre outras, Alberto Sordi tem em "Il boom" mais uma demonstração do seu talento para o humor, com o actor a criar um personagem que tanto tem de patético como de trágico e incorrigível. Giovanni é um gastador incurável que pretende não só manter o casamento com Silvia, mas também continuar a contar com um círculo de amigos com um estatuto social e económico elevado. Esse desejo de manter as aparências conduz Giovanni, ainda nos momentos iniciais de "Il boom", a procurar adiar o pagamento das dívidas que tem para com a La Fides, uma empresa especializada em empréstimos. Os amigos e conhecidos rejeitam os pedidos de empréstimo ou possíveis oportunidades de investimento apresentadas por Giovanni, enquanto que o protagonista recusa entrar em contenção financeira. Giovanni continua a praticar ténis, a comprar vestidos dispendiosos para a esposa, a utilizar um carro caro e a participar em jantares de elementos com um estatuto social e financeiro superior ao seu, com a habitação deste personagem, um espaço dotado de diversos luxos, largas dimensões, um terraço com uma bela vista, a simbolizar paradigmaticamente o desejo de grandeza do protagonista de "Il boom". Diga-se que a casa, situada em Roma, representa uma falsa opulência, com Giovanni a exibir algo que não tem condições para manter ao mesmo tempo que tenta evitar de forma desesperada que a esposa descubra a verdade, ou seja, que estão na falência. Alberto Sordi compõe um personagem falador, expressivo na exposição dos sentimentos, que é capaz de despertar o sorriso do espectador mas também o sentimento de vergonha alheia e de angústia, com Giovanni a aparecer como um protagonista dotado de alguma densidade. Este conta no seu interior com diversas ansiedades e contradições dos elementos que tardam em acompanhar a ascensão social e económica daqueles que os rodeiam, com "Il boom" a surgir como uma sátira mordaz da sociedade transalpina entre os anos 50 e o início dos anos 60. 

18 abril 2017

Resenha Crítica: "Pericle il nero" (2016)

 Num determinado momento de "Pericle il nero", encontramos o personagem do título a procurar controlar as emoções, embora praticamente não consiga evitar a queda de lágrimas e a demonstração de algum desespero, enquanto se encontra numa praia de Calais, com este cenário a traduzir paradigmaticamente o estado de espírito desta figura enigmática. As nuvens acinzentadas cobrem o céu, bem como as tonalidades frias, com as características deste cenário a reforçarem a incerteza que envolve o futuro de Pericle (Riccardo Scamarcio), mas também a negritude que rodeia o quotidiano do protagonista de "Pericle il nero", a terceira longa-metragem de ficção realizada por Stefano Mordini. Diga-se que as cores luzidias e quentes estão longe de pontuarem "Pericle il nero", com a fotografia do filme a sobressair muitas das vezes pela capacidade de captar a desesperança que marca uma parte do quotidiano do protagonista. A hostilidade marca o mundo pelo qual Pericle se move, embora, quando se esforce para sair do mesmo, também lide com a aspereza da humanidade, seja numa simples fila da padaria ou a tentar encontrar abrigo junto dos poucos familiares que lhe restam. Como almejar um futuro luzidio quando o passado é marcado pelo negrume? A violência percorre o corpo, a alma, a mente e o sangue que circula pelas veias de Pericle, um gangster lacónico e misterioso, de origem napolitana, que inicialmente desperta a nossa repulsa em relação aos actos que pratica. Pericle não tem como objectivo eliminar as suas vítimas, bem pelo contrário, preferindo antes humilhá-las com actos que deixam marcas na corpo e na alma dos elementos que viola. Quase sempre acompanhado por sacos de areia, que utiliza para desferir golpes na cabeça das suas vítimas e imobilizá-las temporariamente, Pericle tem como hábito sodomizar os seus alvos, ou melhor, ou, para ser mais preciso, obriga os elementos que desobedecem a Don Luigi (Gigio Morra), o seu chefe, a terem sexo anal. É um acto cruel e repugnante, embora Pericle pareça encarar a profissão com a mesma naturalidade com que efectua uns biscates como actor de filmes pornográficos, com Riccardo Scamarcio a conseguir transmitir a faceta negra deste personagem solitário e atormentado. Como seguir com atenção um personagem que comete actos tão repugnantes? Stefano Mordini provoca desde logo o choque ao expor os actos hediondos do protagonista, uma figura misteriosa e pouco recomendável, até começar a desvendar, ainda que parcialmente, a verdadeira personalidade deste criminoso. O cineasta consegue desfazer a imagem inicial que criamos em relação ao criminoso, ainda que a mesma não seja esquecida, com "Pericle il nero" a colocar-nos diante de uma figura deveras complexa e intrigante. Estamos diante de um criminoso que se situa numa zona cinzenta, que tanto sonha ter uma família e efectua actos surpreendentemente delicados como apresenta uma brutalidade e um carácter errático, com Riccardo Scamarcio a conseguir evidenciar a complexidade deste personagem recheado de contradições e uma alma atormentada.

15 abril 2017

Resenha Crítica: "Fiore" (2016)

 "Fiore" reúne no seu interior elementos drama familiar e prisional, bem como de romance e obras cinematográficas sobre a transição para a idade adulta, sempre sem puxar em demasia pelos limites dos géneros ou subgéneros enunciados, enquanto nos apresenta a uma jovem problemática, rebelde, imprevisível e irascível. Esta jovem é Daphne Bonori, interpretada com alguma verve por Daphne Scoccia, com a actriz estreante a incutir um estilo felino e arisco a esta personagem muito propensa a envolver-se em enrascadas. No início do filme encontramos Daphne a efectuar alguns furtos de telemóveis nas imediações de uma estação de metro. É exactamente num desses roubos que tudo corre mal para a delinquente. A jovem ainda tenta fugir e esconder-se das autoridades, com a câmara de filmar a acompanhar a correria intensa e desesperada de Daphne, até esta ficar praticamente encurralada e ser detida. Daphne tem de cumprir uma pena a rondar um ano de duração no interior de um reformatório para menores de idade, fruto dos assaltos que cometeu, com "Fiore" a envolver-se pelos meandros destes espaços prisionais. O reformatório onde se desenrola uma parte considerável do enredo conta com a presença de uma ala masculina e outra feminina, com os elementos de sexo distinto a não poderem conviver uns com os outros, embora Daphne logo quebre essa regra ao envolver-se com Josh (Josciua Algeri). Ambos são jovens solitários e rebeldes, que não contam com grandes perspectivas de futuro e estão presos devido a terem cometido furtos. Embora o diálogo regular entre elementos masculinos e femininos não seja permitido, Daphne e Josh conseguem manter contacto seja através de cartas que trocam às escondidas, ou em encontros furtivos, com ambos a contarem com uma irreverência inolvidável e uma perícia notória para se envolverem em enrascadas. A amizade e envolvimento com Josh, um indivíduo que foi recentemente abandonado pela namorada, contribuem para alterar as rotinas de Daphne neste estabelecimento prisional, muito marcadas pelos conflitos e a formação de algumas amizades, bem como por uma série de actividades que nem sempre motivam a protagonista. Daphne encontra em Josh um estranho calor humano que parecia faltar na sua vida, com os dois jovens a complementarem-se e a compreenderem-se praticamente na perfeição. Diga-se que Daphne é uma figura solitária, que não tem problemas em protagonizar episódios de violência, ou em colocar o espaço da prisão em polvorosa. Veja-se o momento em que Daphne incendeia o colchão da sua cama, ou quando esta se envolve em zaragatas com algumas colegas de prisão. Ficamos diante de um interessante estudo de personagem, com Claudio Giovannesi, o realizador de "Fiore", a centrar quase todas os elementos da narrativa em Daphne, enquanto conhecemos as especificidades desta jovem imprevisível e errática.

14 abril 2017

Resenha Crítica: "Indivisibili" (2016)

 Num determinado momento de "Indivisibili", Alfonso Fasano (Peppe Servillo), um médico que trabalha na Suíça, pergunta a Peppe (Massimiliano Rossi) e Titti (Antonia Truppo), os pais de Dasy (Angela Fontana) e Viola (Marianna Fontana), duas gémeas siamesas, se estes não têm vergonha pelo facto das jovens não terem sido separadas à nascença. O tom de Alfonso Fasano é de alguma reprovação e consternação, ou Peppe e Titti não utilizassem o facto de Dasy e Viola estarem corporalmente ligadas, embora não partilhem nenhum órgão vital (estão unidas pela zona da pélvis), para lucrarem com a situação. É Peppe quem trata das questões contratuais dos casamentos, baptizados e comunhões onde Dasy e Viola cantam, com os talentos vocais de ambas a serem apreciados, embora o interesse dos elementos do público esteja centrado no físico das gémeas, quase como se estas fossem aberrações. Fãs de Janis Joplin, Dasy e Viola estão longe de serem duas aberrações, bem pelo contrário. Estas são duas jovens de dezoito anos de idade, que estão a lidar com uma série de dilemas, desejos e ansiedades muito próprios de quem ainda se encontra numa fase de formação e afirmação da personalidade, com Angela Fontana e Marianna Fontana, irmãs gémeas na vida real, a transmitirem com enorme sagacidade aquilo que une e separa as personagens que interpretam. Angela Fontana coloca em evidência o lado mais destemido de Dasy, bem como o seu desejo de independência e o afecto que nutre pela irmã. Marianna Fontana imprime uma faceta mais frágil e temerosa a Viola, uma jovem que tem um apetite assinalável e teme a possibilidade de se separar da irmã. Ambas contam com um dom para a cantoria, uma beleza física notória, uma característica corporal que praticamente lhes permitiria entrar em "Freaks" e uma ingenuidade que as conduz a nem sempre questionarem os actos daqueles que as rodeiam. Note-se a facilidade com que acreditaram na mentira de que não poderiam ser separadas, ou a fuga pouco planeada que efectuam num determinado momento da narrativa. A entrada em cena de Alfonso Fasano, a salientar a possibilidade das protagonistas serem separadas com recurso a uma operação, é um momento fulcral quer para a vida das gémeas, quer para o enredo de "Indivisibili", a terceira longa-metragem realizada por Edoardo De Angelis, com as palavras do médico a irem ao encontro da vontade de Dasy em prosseguir com a sua vida de forma um pouco mais independente, sem ter que estar preocupada com os efeitos que os seus actos podem provocar na irmã. Veja-se no início do filme, quando encontramos Dasy a masturbar-se, enquanto Viola está a dormir, com os efeitos deste acto a serem sentidos pela segunda ao ponto desta começar a rezar devido a ter sonhado que pecou.

13 abril 2017

Resenha Crítica: "Lo chiamavano Trinità..." (Trinitá - Cowboy Insolente)

 Pontuado por lutas ao estilo dos combates de wrestling, uma dinâmica notável entre Terence Hill e Bud Spencer, um grupo de Mormons que evita utilizar a força física, diversos elementos dos spaghetti western mesclados com condimentos de comédia, estradas poeirentas, uma banda sonora marcante, "Lo chiamavano Trinità..." convida o espectador a envolver-se pelo interior de um enredo marcado por figuras peculiares, imenso humor, alguma violência propositadamente inofensiva e uma certa ingenuidade e malandrice, bem como pelas peripécias vividas pela dupla de protagonistas desta icónica obra cinematográfica. As estradas pelas quais os personagens circulam encontram-se recheadas de poeira, prontas a exibir que ainda estamos diante de um território em formação, caracterizado por gentes que não cumprem as leis e imenso calor, com os raios solares a baterem bem forte sobre os espaços onde se desenrola o enredo desta marcante obra cinematográfica. O calor invade o território e os sentimentos, ou não estivéssemos diante de um filme onde os personagens interpretados por Bud Spencer e Terence Hill assumem o papel de estranhos defensores de uma comunidade de Mormons. Não faltam alguns momentos a fazer recordar "Shichinin no samurai" (o plano para defender e treinar um grupo de elementos indefesos), "Yojimbo", "Per un pugno di dollari" (o estranho que chega e mexe com o quotidiano de um espaço citadino), "Per qualche dollaro in più" (a união de dois pistoleiros para combaterem um inimigo comum), entre outras situações que são abordadas quase sempre com algum humor à mistura. As próprias coreografias das lutas corpo a corpo, prontas a exacerbarem a faceta aparentemente indestrutível de Bud Spencer e a personalidade irreverente do personagem interpretado por Terence Hill (o humor físico é um dos "pratos" principais do filme), contribuem para esses momentos mais leves, tal como o trabalho de sonoplastia. Veja-se os sons efusivos dos socos desferidos pelos personagens interpretados por Terence Hill e Bud Spencer, com a dupla a apresentar uma dinâmica assinalável como dois irmãos peculiares, dados a entrarem em confusões e a desrespeitarem a lei. Terence Hill incute um carisma muito próprio a Trinità, um pistoleiro preguiçoso que é denominado de "braço direito do Diabo". Se o pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood em "Per un pugno di dollari" mantinha uma faceta lacónica, já Trinità evidencia uma enorme preguiça, sentido de humor, insolência e malandrice que o distinguem e muito em relação ao primeiro, embora ambos partilham uma enorme pontaria quando se encontram de pistola na mão.

11 abril 2017

Resenha Crítica: "La ragazza del mondo" (Worldly Girl)

  Elevado por um argumento certeiro e uma interpretação sublime de Sara Serraiocco, "La ragazza del mondo" articula eficazmente as temáticas inerentes às descobertas efectuadas por uma jovem adulta e às mudanças muito próprias desta idade com um romance proibido e uma reflexão sobre o mundo das Testemunhas de Jeová. "La ragazza del Mondo" não efectua juízos de valor, nem condena as crenças pelas quais se regem as Testemunhas de Jeová, embora permita um debate interessante sobre todo este mundo que conta com códigos de conduta muito próprios que começam a sufocar Giulia (Sara Serraiocco), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Marco Danieli. Cineasta a ter em clara atenção, Marco Danieli desenvolve com acerto as temáticas relacionadas com as descobertas efectuadas pela protagonista, uma jovem que se depara com questões e anseios relacionados com a sexualidade, a formação da identidade e o primeiro amor, com Sara Serraiocco a incutir um misto de fragilidade, força interior e delicadeza a Giulia. O talento da actriz é exacerbado pelos close-ups recorrentes, com Marco Danieli a deixar muitas das vezes que o rosto da intérprete sublinhe os dilemas com que a protagonista se depara ao longo do filme. Note-se a dificuldade que a protagonista tem em continuar com os estudos, apesar de ser uma das melhores alunas da turma e pretender avançar para o ensino superior, embora Celestino (Marco Leonardi) e Costanza (Stefania Montorsi), os seus pais, duas Testemunhas de Jeová imensamente conservadoras, tentem que esta prossiga pela via profissional (como administrativa na fábrica onde trabalha o progenitor), ou a impossibilidade destes elementos iniciarem relações com "pessoas do Mundo", algo que limita as decisões que Giulia necessita de tomar para o futuro. Giulia tem cerca de dezanove anos de idade, encontra-se inserida no interior de uma comunidade protectora, fechada, rígida e conservadora, conta com boas notas e é consumida por uma série de dúvidas e sentimentos incontroláveis. Como controlar os sentimentos e a curiosidade numa fase como a transição entre o final da adolescência e a chegada à maioridade, ou seja, quando ambos parecem incontroláveis? Como reprimir as sensações e emoções quando estas brotam do âmago da alma como se fossem lava no interior de um vulcão em erupção? Sara Serraiocco imprime uma postura discreta e contida a Giulia, uma jovem que vive pacificamente com os pais e a irmã, de acordo com os textos sagrados, pelo menos até se deparar com Libero (Michele Riondino), um indivíduo com um passado nebuloso e uma personalidade problemática e errática.

10 abril 2017

Resenha Crítica: "Se Dio vuole" (Se Deus Quiser)

 Tommaso (Marco Giallini) é um cirurgião ateu, arrogante, pouco dado a grandes sentimentalismos, que não tem problemas em efectuar comentários depreciativos sobre aqueles que o rodeiam e em julgar previamente os elementos com quem contacta. Este é casado com Carla (Laura Morante), uma mulher que gosta de adoptar crianças oriundas de um contexto intrincado. Carla encontra-se deprimida, aprecia beber vinho às escondidas e prepara-se para expor a sua revolta em relação ao rumo da sua vida. O casal conta com dois filhos biológicos, Bianca (Ilaria Spada) e Andrea (Enrico Oetiker), ambos jovens adultos, com a primeira a não primar pela sagacidade e inteligência, enquanto que o segundo surpreende tudo e todos ao salientar que pretende abandonar o curso de medicina para ser padre. Tommaso ainda tenta fingir que apoia o filho, embora procure fazer de tudo para descobrir esqueletos no armário de Pietro (Alessandro Gassmann), o padre que contribuiu para Andrea descobrir o gosto por seguir os caminhos da fé. Com um passado nebuloso, um discurso irreverente, dinâmico e espirituoso, Pietro tem uma facilidade latente em atrair a atenção dos fiéis, embora desperte uma série de dúvidas em Tommaso, pelo menos até este último formar uma relação de respeito e amizade com o padre. Estes são alguns dos personagens que habitam o enredo de "Se Dio vuole", uma comédia desinspirada, previsível e insípida, que é incapaz de desenvolver boa parte das tramas e subtramas ou de deixar marca. É certo que "Se Dio vuole" beneficia e muito do talento e carisma de intérpretes como Marco Giallini e Alessandro Gassmann, com ambos a conseguirem espremer ao máximo o material que lhes é colocado à disposição, embora a dupla conte com uma missão quase impossível: salvar o filme da mediocridade. Se Tommaso é descrito como um cirurgião competente e implacável, já Edoardo Maria Falcone não apresenta a mesma precisão na sua estreia como realizador de longas-metragens, ou "Se Dio vuole" não contasse com toda a atmosfera de uma sitcom mal-enjorcada que foi elaborada por um cineasta sem marca ou "voz própria". Sem conseguir que a maioria dos personagens ultrapasse uma unidimensionalidade pouco recomendável, ou se solte dos estereótipos aos quais foram presos, "Se Dio vuole" raramente contribui para despertar alguns risos, para além de ser incapaz de abordar de forma minimamente decente boa parte das temáticas que são lançadas para o interior da narrativa, com os tropeços a sucederem-se em catadupa.

09 abril 2017

Resenha crítica: "Smetto quando voglio - Masterclass"

 Pontuado por situações delirantes como uma perseguição e fuga em plena Villa Adriana, uma dinâmica convincente entre os diferentes personagens, uma banda sonora enérgica, uma capacidade muito italiana de encontrar o humor em momentos muitas das vezes desesperantes ou dramáticos, "Smetto quando voglio - Masterclass" surge como uma comédia cheia de ritmo, estilizada, pronta a divertir o espectador sem ferir a inteligência do mesmo, enquanto comprova que a commedia all'italiana está viva, de boa saúde e recomenda-se. "Smetto quando voglio - Masterclass" efectua alguns comentários de foro social sobre temáticas relacionadas com o desemprego, a dificuldade dos licenciados em integrarem ou serem inseridos no mercado de trabalho, o tráfico de drogas, entre outras, embora o foco esteja no humor, acção e aventura, com Sydney Sibilia a realizar uma obra cinematográfica pontuada por imensos ingredientes do género. O argumento aposta na familiaridade entre o espectador e os personagens, bem como nas dinâmicas destes últimos, ou os eventos que se desenrolam em "Smetto quando voglio - Masterclass", o segundo capítulo da trilogia "Smetto quando voglio", não tivessem como protagonistas a quadrilha de criminosos com o “quociente de inteligência mais alto de sempre". Liderada por Pietro Zinni (Edoardo Leo), um indivíduo formado em neurobiologia, esta equipa conta com os seguintes elementos: Alberto Petrelli (Stefano Fresi), um especialista em química computacional; Andrea De Sanctis (Pietro Sermonti), um antropólogo; Mattia Argeri (Valerio Aprea) e Giorgio Sironi (Lorenzo Lavia), dois latinistas; Bartolomeo Bonelli (Libero De Rienzo), um especialista em macroeconomia dinâmica; Arturo Frantini (Paolo Calabresi), um arqueólogo. Em "Smetto quando voglio", Pietro reuniu estes elementos para formar um negócio ilegal relacionado com o fabrico e venda de smart drugs. Ou seja, a quadrilha de Pietro é constituída por elementos que contam com imenso conhecimento sobre diversas áreas, embora não tenham experiência nos meandros do tráfico de substâncias estupefacientes, algo que não os impediu de criar uma smart drug que se revela um sucesso de vendas. No entanto, a falta de preparação dos diversos integrantes do grupo acaba não só por conduzir a que Pietro Zinni seja detido, mas também a que o negócio termine de forma inglória. "Smetto quando voglio - Masterclass" reúne estes personagens e insere uma série de novas figuras que se encaixam relativamente bem no interior desta obra cinematográfica cheia de estilo e ritmo, tais como Paola Coletti (Greta Scarano), uma inspectora da divisão de narcóticos que se prepara para utilizar o gang de Pietro para o combate às smart drugs.