18 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "La ciociara" (Duas Mulheres)

 Cesira (Sophia Loren), a protagonista de "La ciociara", procura proteger Rosetta (Eleonora Brown), a sua filha, uma jovem de doze anos de idade, dos horrores da Guerra, um desiderato que conhece uma série de reveses e um episódio cruel e desolador que mexe com as emoções dos espectadores e dos personagens. "La ciociara" demonstra paradigmaticamente que Vittorio De Sica é um cineasta capaz de valorizar a dimensão humana dos personagens, enquanto aborda como poucos o contexto que rodeia as protagonistas e a forma como este influencia o quotidiano das mesmas. O cineasta contribui ainda para que os actores e actrizes construam figuras dotadas de dimensão, com Sophia Loren, Eleonora Brown e Jean-Paul Belmondo a terem interpretações dignas de atenção, enquanto Vittorio De Sica emociona o espectador com os acontecimentos que rodeiam os envolvidos, um pouco à imagem daquilo que tinha efectuado em "Sciuscià", "Ladri di biciclette", "Umberto D.", entre outras obras cinematográficas. O filme a ser alvo desta espécie de resenha crítica marca também mais uma feliz colaboração entre Vittorio De Sica e o argumentista Cesare Zavattini (inspirado no livro "La ciociara" de Alberto Moravia), com a dupla a contribuir para um retrato bem vivo sobre a forma como alguns italianos viveram e sentiram a II Guerra Mundial (o enredo decorre no Verão de 1943), algo conseguido através do olhar de Cesira e Rosetta, duas das personagens mais marcantes de "La ciociara". A presença das tropas alemãs contamina o território, bem como os bombardeamentos e os disparos, com a chegada de militares dos EUA e das tropas aliadas a ser sentida, com muitos destes elementos a contribuírem para a hostilidade que Cesira e Rosetta sentem nos territórios por onde se deslocam. Os sentimentos ficam muitas das vezes à flor da pele, algo notório nos momentos iniciais do filme, quando um bombardeamento aliado tem a cidade de Roma como destino. É nesse contexto intrincado que Cesira se vê obrigada a fechar temporariamente o seu estabelecimento comercial, enquanto a filha desmaia e o efeito das bombas é sentido, com o chão a estremecer, os objectos a caírem e o perigo a rondar os elementos que se encontram no interior deste cenário. Atormentada pelas consequências da II Guerra Mundial, Cesira prefere não correr riscos e partir para Sant'Eufemia, a sua terra natal, uma região rural e montanhosa, afastada dos grandes espaços citadinos, indo acompanhada por Rosetta. Sophia Loren transmite a personalidade forte, desenrascada e independente de Cesira, uma viúva que procura proteger a filha a todo o custo. Loren explana o seu talento, carisma e beleza como esta viúva de olhar felino que conta com um grande sentido prático, com a actriz a possuir ainda uma dinâmica convincente com Eleonora Brown, a intérprete de Rosetta. Eleonora Brown compõe uma personagem tímida, relativamente inocente, frágil, estudiosa e religiosa, que é confrontada com as agruras da guerra e a crueldade humana. A viagem destas duas personagens até Sant'Eufemia é marcada por alguns contratempos e um conjunto de episódios que deixam antever as dificuldades com que Cesira e Rosetta se deparam ao longo do enredo de "La ciociara", com ambas a manterem o desejo de regressarem brevemente a Roma. Cesira deixa o seu estabelecimento à guarda de Giovanni, um indivíduo casado, pai de dois filhos, que mantém um affair com a protagonista. O calor dos sentimentos que Giovanni e Cesira partilham é quase como uma pequena gota no meio de um oceano de incerteza e violência, onde as acções dos militares são sentidas e a morte paira por qualquer lugar, mesmo em espaços aparentemente calmos e idílicos como Sant'Eufemia

14 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Ladri di biciclette" (Ladrões de Bicicletas)

Vittorio De Sica aproveita os momentos iniciais de "Ladri di biciclette" para colocar o espectador diante de alguns indivíduos que se encontram nas imediações de um centro de emprego, a aguardarem por notícias relacionadas com ofertas de trabalho, embora poucos tenham a sorte de serem chamados, algo que reflecte a elevada taxa de desemprego da época, nomeadamente, no período após a II Guerra Mundial. É um contexto conturbado que marca não só o enredo de "Ladri di biciclette", mas também de outras longas-metragens de Vittorio de Sica, tais como "Sciuscià" e "Umberto D", nas quais o realizador e argumentista aborda temáticas relacionadas com a crise financeira e de valores, bem como a pobreza que assola o quotidiano de alguns personagens. No caso dos três filmes mencionados, todos exemplares recomendáveis do neo-realismo, De Sica apresenta um enorme humanismo quer na abordagem das temáticas, quer nos diálogos, quer na construção dos personagens, parecendo praticamente impossível permanecer indiferente em relação aos universos narrativos criados pelo realizador (todos contam com a presença inestimável de Cesare Zavattini na escrita do argumento). Uma das figuras centrais de "Ladri di biciclette" é Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um pai de família que é chamado no início do filme para trabalhar a colar cartazes publicitários. Um sentimento agridoce toma de assalto a mente de Ricci: está feliz por conseguir um trabalho que lhe permite voltar a pagar as contas e viver sem o espectro da miséria, mas a tristeza e a dúvida logo tomam conta da sua mente quando percebe que necessita de uma bicicleta para poder corresponder às necessidades do emprego. Esta situação conduz Maria (Lianella Carell), a esposa do protagonista, a penhorar seis lençóis, um acto que espelha quer a união deste núcleo familiar, quer a condição financeira deplorável do casal. Vale a pena salientar que Maria e Antonio não são os únicos que se encontram a atravessar uma fase marcada por dificuldades materiais e financeiras, algo que se torna paradigmaticamente notório quando o empregado da casa de penhores decide guardar os lençóis deixados pela primeira. O armazém da casa de penhores encontra-se apinhado de lençóis, algo que obriga o empregado a ter de subir bem alto para poder encaixar as peças de roupa que se amontoam neste espaço, com esta situação a evidenciar paradigmaticamente que diversas famílias se desfizeram destes bens, naquela que é uma das cenas assustadoramente marcantes de "Ladri di biciclette".

09 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "L'oro di Napoli" (O Ouro de Nápoles)

  Retrato bem vivo da cidade de Nápoles e das suas gentes, "L'oro di Napoli" surge como uma espécie de visita guiada a Nápoles, conduzida com acerto por Vittorio De Sica, com o cineasta a expor uma visão muito própria das especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, cemitérios, igrejas e edifícios deste local. Nápoles é a grande protagonista do filme, com esta cidade a aparecer como o ponto de união entre os seis episódios de "L'oro di Napoli", com cada capítulo a contar com histórias e intérpretes distintos. A ficção invade o território real de Nápoles, com Vittorio De Sica a filmar imensas vezes nos espaços desta cidade, enquanto aproveita as singularidades da mesma ao serviço do enredo. O humor está presente ao longo de alguns episódios do filme, mas também o drama e a tragédia, com cada capítulo a deixar o espectador na presença de pequenos fragmentos das especificidades deste território. Entre casamentos fadados à desgraça, traições, revoltas contra símbolos da opressão, um indivíduo que vende sabedoria e outro que se encontra caído em desgraça, "L'oro di Napoli" coloca o espectador perante um mosaico de personagens muito particular, com cada capítulo a contar com intérpretes de peso como protagonistas. Vittorio De Sica interpreta o protagonista de um dos episódios do filme, nomeadamente, o quarto ("I giocatori"), com o cineasta a dar vida a Prospero, um conde caído em desgraça devido ao vicio pelo jogo. Proibido pela esposa de jogar, financeiramente exaurido, sem conseguir que os empregados lhe emprestem um cêntimo, Prospero limita-se a jogar com Gennarino (Pierino Bilancioni), um jovem rapaz que é filho do porteiro. Vittorio De Sica compõe uma figura que tanto tem de trágica como de cómica, ou Prospero não partilhasse o vício pelo jogo com o cineasta e intérprete. O cineasta transpõe um dos vícios que marcou a sua vida para o personagem que interpreta, enquanto Prospero desperta sensações mistas e contraditórias no interior da alma do espectador. Por um lado é impossível não soltar um sorriso quando encontramos Prospero a exibir um desespero notório por perder constantemente para Gennarino, um jovem que despreza os discursos e atitudes do conde, por outro é impossível não perceber que estamos diante de uma figura trágica que se deixou consumir pelos vícios. Vittorio De Sica compõe um personagem que mantém uma postura altiva, embora pouco tenha para apostar, com esta figura trágica a permitir que o actor e cineasta exiba mais uma vez o seu carisma e talento para a representação. Prospero gosta de apostar mas não tem jeito, nem sorte, nem cabeça fria, com um rapazinho a conseguir humilhá-lo sem grande esforço, enquanto "L'oro di Napoli" exibe um problema bem real, nomeadamente, o vício pelo jogo, ainda que inserido no interior da realidade napolitana.

06 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Umberto D." (1952)

 Drama comovente, capaz de deixar marca, despertar angústia e uma enorme revolta, "Umberto D." apresenta uma actualidade assustadora, enquanto coloca o espectador diante da capacidade de Vittorio De Sica em abordar temáticas socialmente relevantes e despertar emoções bem fortes. As reformas baixas, a incapacidade da sociedade em integrar uma parte significativa da população idosa e as parcas condições de vida de alguns cidadãos de mais idade surgem como problemáticas que marcam o enredo de "Umberto D." e continuam na ordem do dia. "Umberto D." tem como pano de fundo o território de Itália, ainda em recuperação, após a II Guerra Mundial, um contexto que marcou outras obras cinematográficas realizadas por Vittorio De Sica, tais como "Sciuscià" e "Ladri di biciclette" (estas duas últimas no período "pré-Milagre Económico Italiano", enquanto a obra cinematográfica que é alvo desta espécie de resenha acompanha o período da recuperação económica). As três obras cinematográficas mencionadas, todas realizadas por Vittorio De Sica, surgem como exemplares recomendáveis, memoráveis e arrebatadores do neo-realismo italiano, com "Umberto D." a contar com diversas características associadas a este movimento. Veja-se as filmagens nas ruas, com a cidade de Roma a surgir praticamente como uma personagem (Vittorio De Sica e G. R. Aldo, o director de fotografia, contribuem e muito para a transmissão da atmosfera deste espaço citadino e dos comportamentos das suas gentes), ou a abordagem de temáticas ligadas aos mais desfavorecidos ou que passam por dificuldades, ou os comentários de foro social (e político), ou a utilização de um elenco composto maioritariamente por actores e actrizes amadores ou desconhecidos. Carlo Battisti, o intérprete que dá vida ao protagonista de "Umberto D.", é um dos elementos amadores que integram o elenco do filme e são capazes de se transformarem no personagem que interpretam, com o actor a contribuir para a densidade deste reformado que procura manter a dignidade no interior de uma sociedade que parece incapaz de integrá-lo. Umberto D. Ferrari (Carlo Battisti) é um indivíduo vetusto, reformado, educado e bem intencionado, que se encontra a experienciar uma série de dificuldades financeiras, com Vittorio De Sica a abordar um caso particular para expor uma problemática mais lata. Quase sempre acompanhado por Flike, o seu simpático cachorro, Umberto representa alguns dos reformados que trabalharam uma vida inteira, embora pareçam ter sido esquecidos nesta fase crepuscular das suas vidas. A reforma não chega para Umberto pagar a renda (algo que o leva a acumular dívidas), os conhecidos afastam-se da sua pessoa, enquanto que as actividades diárias estão longe de preencherem a alma deste indivíduo, ou seja o quotidiano deste antigo funcionário do Ministério do Trabalho é pontuado por uma série de dificuldades e contratempos que apenas parecem ser contrastados com os momentos de alegria dados por Flike ou pela humanidade de Maria (Maria Pia Casilio), a empregada de Antonia (Lina Gennari), a sua senhoria. Se Maria é uma jovem terna, simples e extremamente prestável, já Antonia apresenta uma frieza indelével e uma altivez praticamente indesmentível, surgindo como uma das várias personagens que apresentam um comportamento hostil para com Umberto. Antonia pretende despejar Umberto a todo o custo, apesar dos esforços deste indivíduo em reunir a verba necessária para pagar as rendas em atraso, algo inerente ao facto do reformado apresentar uma ligação muito forte com o quarto onde habita há vinte anos, embora o seu pequeno cubículo esteja localizado numa espelunca que conta com uma praga de formigas e poucas condições.

01 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Sciuscià" (Vítimas da Tormenta)

 O destino é duro e inflexível para com os personagens principais de "Sciuscià", os jovens Giuseppe Filippucci (Rinaldo Smordoni) e Pasquale Maggi (Franco Interlenghi), dois rapazes que contam com uma amizade aparentemente inseparável, vivem em condições miseráveis e sonham adquirir um cavalo. É um sonho que parece saído de um conto de encantar, embora o quotidiano de Giuseppe e Pasquale esteja longe de contar com grandes pedaços de alegria, com o contexto que rodeia os dois personagens a afectar e muito o modo de vida dos petizes. Estamos em plena cidade de Roma no período após a Segunda Guerra Mundial, com Giuseppe e Pasquale a sentirem a destruição que afectou o território, a economia e a sociedade italiana, enquanto Vittorio De Sica realiza um drama neo-realista de excelência. "Sciuscià" partilha diversos elementos transversais a alguns filmes neo-realistas, tais como a utilização e aproveitamento dos cenários exteriores, filmagens em espaços interiores que não fazem parte dos estúdios (mesclados com cenas filmadas em estúdio), um elenco composto por actores e actrizes maioritariamente amadores ou desconhecidos, uma atenção latente aos desfavorecidos e ao drama daqueles que se encontram em situações extremas, os comentários de foro social, entre outros exemplos. É, também, um dos primeiros filmes de Vittorio De Sica a obter um reconhecimento considerável, sobretudo a nível internacional, com o cineasta a apresentar um retrato pungente sobre a vida de dois jovens engraxadores de sapatos que vivem em condições precárias e são obrigados a descurarem os estudos, tal como boa parte das crianças deste período. Essa necessidade das crianças órfãs ou de famílias desfavorecidas terem de trabalhar é exposta desde o início de "Sciuscià", quando encontramos os rapazes a dialogarem quase como se fossem adultos, apesar de manterem um tom relativamente infantil, enquanto laboram como engraxadores para ganharem a vida. Vittorio De Sica transporta-nos para o interior de uma cidade de Roma que se encontra ferida no seu orgulho, destruída na sua moral, marcada pela presença de soldados aliados, gentes depauperadas e negócios ilegais, com o cineasta a conseguir captar a atmosfera da época e transportá-la para o interior da mente e da alma do espectador. O cineasta incute ainda elementos de drama prisional e fuga da prisão a "Sciuscià", enquanto coloca a amizade da dupla de protagonistas à prova e desfere rudes golpes no estômago do espectador ao exibir como estes jovens são afectados por uma série de episódios desfavoráveis e um contexto arrasador. A amizade de Giuseppe e Pasquale sofre fissuras irreparáveis com o avançar da narrativa, enquanto os sonhos destes jovens se quebram diante de uma realidade difícil de combater. Estes dois rapazes trabalham como engraxadores, com Giuseppe a viver com a família, enquanto Pasquale é órfão, com a dupla a contar com parcas condições financeiras. Giuseppe ajuda financeiramente os seus familiares, tendo em Pasquale um amigo inseparável que dorme na sua casa. Pasquale é um pouco mais velho e experiente do que Giuseppe, com este último a encarar o amigo como uma espécie de mentor, com ambos a parecerem inseparáveis. Giuseppe conta ainda com uma forte amizade com Nannarella (Anna Pedoni), uma jovem delicada, que nutre sentimentos afectuosos pelo rapaz, embora ambos sejam separados a partir do momento em que o protagonista é detido.

28 janeiro 2017

Resenha Crítica: "Cloro" (2015)

 O destino nem sempre é simpático e pode contribuir para alguns reveses que proporcionam um embate angustiante entre as responsabilidades inerentes à realidade e os sonhos e objectivos para o futuro, que o diga Jennifer (Sara Serraiocco), mais conhecida como Jenny, a protagonista de "Cloro", o filme que marca a estreia de Lamberto Sanfelice na realização de longas-metragens. As expectativas de Jenny entram muitas das vezes em confronto com a realidade, com a adolescente, prestes a completar dezoito anos de idade, a ser colocada diante da difícil tarefa de ter de crescer antes de tempo, ou melhor, de ter de assumir responsabilidades que vão muito além da sua maturidade, capacidade e disponibilidade, com Sara Serraiocco a transmitir a incerteza que marca a alma desta jovem. Com o avançar do enredo percebemos que o coração de Jenny fica dividido entre um passado que não pode recuperar, um presente que não pediu mas que faz parte da sua realidade e um futuro que idealizou, com "Cloro" a deixar-nos diante de uma jovem que é colocada perante um contexto complicado que praticamente a obriga a ter de redefinir as suas prioridades. No início de "Cloro" pouco ou nada sabemos sobre as razões que conduziram Alfio (Andrea Vergoni), o pai de Jenny e Fabrizio (Anatol Sassi), o irmão mais novo da protagonista, a deslocar-se com o núcleo familiar de Ostia para um chalé numa colina de uma pequena aldeia situada em Abruzzo. É certo que ficamos perante uma espécie de prólogo que traça uma oposição entre Ostia e Abruzzo, para além de expor, ainda que brevemente, a dicotomia entre a vida de Jenny antes e depois de partir com a família para o chalé, apesar dos detalhes sobre estes acontecimentos apenas ficarem mais explícitos com o avançar da narrativa. O chalé pertence a Tondino (Giorgio Colangeli), o irmão de Alfio e tio de Jenny e Fabrizio, um indivíduo que procura ajudar os familiares, apesar de nem sempre conseguir corresponder às expectativas da protagonista. Andrea Vergoni imprime um estilo passivo, praticamente desprovido de vida a Alfio, um indivíduo que padece de uma doença do foro psicológico que o impede de conseguir reagir aos acontecimentos e cuidar dos filhos, algo que apoquenta Jenny. O argumento dota Jenny de alguma complexidade, com a protagonista a apresentar um conjunto de atitudes e sentimentos que evidenciam que estamos diante de alguém que ainda não atingiu a sua maturidade, nem se encontra preparada para lidar com este conjunto alargado de contrariedades, apesar de tentar lutar pela concretização dos seus sonhos e cuidar do lar. Sara Serraiocco tanto expõe o lado mais responsável de Jenny, algo que leva a protagonista a abandonar temporariamente os estudos para trabalhar como empregada no Hotel Splendor e a tentar cuidar de Fabrizio, como exprime uma faceta mais egoísta e desesperada da personagem principal, ou esta não estivesse a experienciar uma situação deveras complicada. Veja-se quando Jenny exibe o seu desespero para com os actos pouco razoáveis do pai, ou tenta convencer o tio a cuidar temporariamente de Fabrizio, tendo em vista a poder libertar-se do ónus de tratar do petiz.

24 janeiro 2017

Resenha Crítica: "La mafia uccide solo d'estate" (A máfia só mata no Verão)

 Não é mero acaso, ou coincidência do destino, que a primeira palavra proferida por Arturo Giammarresi (Pierfrancesco Diliberto durante a idade adulta; Alex Bisconti durante a juventude do personagem), o protagonista de "La mafia uccide solo d'estate", uma comédia de características muito italianas, tenha sido "máfia", ou as acções dos mafiosos não tivessem marcado e muito a vida deste aspirante a jornalista. Os pais de Arturo ficam claramente surpreendidos, enquanto o espectador não consegue deixar de esboçar um sorriso, sobretudo pelo facto do jovem ter apontado para Giacinto (Ninni Bruschetta), um padre que conta com uma personalidade deveras peculiar e ligações à máfia, com "La mafia uccide solo d'estate" a expor por diversas vezes que o crime organizado se encontra enraizado em Palermo, embora uma boa parte da população pretenda ignorar, ou desconheça esse facto. Os assassinatos são noticiados e acontecem em doses generosas, com os jornais a atribuírem a autoria dos crimes à máfia, apesar de diversos elementos da população local preferirem acreditar que os homicídios foram cometidos devido a motivações de ordem passional, uma linha de argumentação que desperta uma certa confusão na cabeça de Arturo e proporciona alguns momentos de humor. As características italianas de "La mafia uccide solo d'estate" remetem exactamente para a capacidade desta obra cinematográfica conseguir mesclar com enorme acerto a comédia e a tragédia (não faltam diversas mortes ao longo do filme), com as desventuras de Arturo, em particular, as suas tentativas de conquistar o coração de Flora (Ginevra Antona interpreta a personagem durante a infância; Cristiana Capotondi durante a idade adulta) a serem entrelaçadas com as acções violentas da máfia e episódios com um fundo histórico verídico. No início de "La mafia uccide solo d'estate", encontramos Arturo, já em idade adulta, a apresentar-nos a figura de Flora e a comentar que nunca teve coragem, nem a oportunidade de se declarar a esta mulher. Quais as razões que conduziram Arturo a não declarar o seu amor por Flora? O protagonista não deixa o espectador sem resposta ao salientar, ainda nos momentos iniciais de "La mafia uccide solo d'estate", que o facto de ser de Palermo condicionou e muito a possibilidade de manifestar os seus sentimentos junto daquela que sempre foi a sua grande paixoneta. Este é um território que conta com características muito particulares e propiciadoras do extravasar das emoções, algo que é exposto ao longo de "La mafia uccide solo d'estate" com enorme vida e algum humor, sempre sem descurar a violência que permeia Palermo no período compreendido entre 1969 (data da concepção de Arturo e do massacre da avenida Lazio, um evento relatado com um tom espirituoso pelo personagem principal) e 1992, ou seja, as balizas cronológicas em que decorre o enredo desta obra cinematográfica que mescla episódios e figuras reais com elementos ficcionais.

20 janeiro 2017

Resenha Crítica: "Cronaca familiare" (Dois irmãos, dois destinos)

 No início de "Cronaca familiare", uma das obras-primas realizadas por Valerio Zurlini, encontramos Enrico (Marcello Mastroianni), um dos protagonistas do filme, na redacção de um jornal, com um olhar cabisbaixo e uma postura que demonstra alguma tristeza e desânimo. Primeiro é confrontado com o facto do jornal do dia seguinte não contar com um único artigo da sua autoria, algo que não o apoquenta. Posteriormente, Enrico recebe uma chamada. A câmara de filmar concentra as suas atenções em Marcello Mastroianni, com o actor a ter um momento de interpretação pontuado pela subtileza e contenção dos sentimentos. Enrico segura o telefone de forma vagarosa, quase que a temer a notícia que aí vem, até ser notificado que Lorenzo (Jacques Perrin), o seu irmão mais novo, faleceu. A lâmpada colocada nas proximidades do telefone no qual Enrico recebeu a notícia não parece ser capaz de iluminar a alma deste indivíduo que permanece absorto nos seus pensamentos, com Marcello Mastroianni a expor paradigmaticamente que Enrico ficou emocionalmente devastado. O silêncio domina estes momentos, com o som de uma máquina de escrever, oriundo do fora de campo, a ser sentido, embora aquilo que fique na memória seja a saída de Enrico da redacção. O sentimento de perda é notório, mesclado com uma certa sensação de culpa e a certeza de que o destino nem sempre foi simpático para com a sua família, com o silêncio de Enrico a ser perturbador e tocante. Enrico caminha pelas ruas, até chegar a casa, parecendo engolido pelos pensamentos, pelas recordações e a triste certeza da impossibilidade de controlar o destino. O silêncio de Enrico termina quando o protagonista chega a casa e decide relatar em off alguns dos episódios que envolvem a sua relação nem sempre próxima com o irmão. Valerio Zurlini deixa-nos diante de longos flashbacks que expõem a história destes dois indivíduos, quase sempre do ponto de vista do personagem interpretado por Marcello Mastroianni, com o actor a assumir as funções de protagonista e narrador de serviço, enquanto ficamos na presença de um drama emocionalmente envolvente, sensível e tocante, que nos coloca perante dois irmãos que são separados e unidos pelo destino. Marcello Mastroianni tem uma interpretação sublime, com o actor a tanto expor o lado fura-vidas de Enrico, um indivíduo que procura lutar contra o destino e vencer na vida, como a evidenciar a sensibilidade e emotividade deste homem que aos poucos forma uma relação de amizade com o irmão. Enrico e Lorenzo foram separados quando o primeiro tinha oito anos e o segundo contava com poucos dias de vida. A mãe de Enrico e Lorenzo falecera, consta que devido a repercussões inerentes ao parto deste último, enquanto que o pai de ambos, uma figura que nunca chegamos a conhecer de forma presencial, encontrava-se internado no hospital, devido a ferimentos sofridos na I Guerra Mundial. Enrico culpara o irmão pela morte da progenitora, enquanto este último ainda era bastante novo para perceber tudo aquilo que o rodeava. Nesta fase da narrativa estamos em Setembro ou Outubro de 1918, com Lorenzo, anteriormente chamado de Dino, a ficar aos cuidados de Salocchi (Salvo Randone), o mordomo de um aristocrata que mora na Villa Rosa. A casa do chefe de Salocchi é pontuada pela abastança, com Lorenzo a ser tratado com os melhores luxos, acabando afastado do irmão, do pai de sangue e da avó (Sylvie). Se a avó de Enrico e Lorenzo é uma mulher simpática, simples e afável, algo transmitido por Sylvie, já Salvo Randone consegue explanar os gestos pomposos e a postura altiva de Salocchi, com o actor a contar com mais um papel secundário onde tem espaço para sobressair, sobretudo quando se reúne com o personagem interpretado por Marcello Mastroianni.

15 janeiro 2017

Resenha Crítica: La ragazza con la valigia" (A Rapariga da Mala)

 Melodrama envolvente, emocionalmente potente e tocante, pontuado por paixões impossíveis, abandonos dolorosos, sonhos desfeitos, relações improváveis, sentimentos fortes e interpretações de grande nível de Claudia Cardinale e Jacques Perrin, "La ragazza con la valigia" não consegue gerar indiferença ou sair facilmente da memória. Claudia Cardinale enche o ecrã de charme, delicadeza, ambição, sensualidade e ingenuidade como Aida Zepponi. Jacques Perrin transmite de forma exímia a personalidade sensível e delicada de Lorenzo, uma adolescente de dezasseis anos de idade que começa a sentir um fraquinho por Aida. É o regresso de Valerio Zurlini às relações proibidas, ou desaprovadas pelos familiares da dupla de protagonistas, um pouco à imagem de "Estate Violenta", a primeira longa-metragem realizada pelo cineasta. Em "Estate violenta", Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago interpretam um casal que desafia as expectativas daqueles que os rodeiam. Ele é filho de um fascista e tem menos idade do que a figura amada. Ela é filha de uma mulher conservadora, viúva de um herói de guerra, tendo uma petiz de tenra idade. Tal como em "Estate violenta", a reunião da dupla de protagonistas de "La ragazza con la valigia" acontece no meio de um contexto caótico. Diga-se que este caos foi provocado por Marcello Fainardi (Corrado Pani), o irmão mais velho de Lorenzo. Aida largou tudo e todos para seguir à aventura com Marcello, um indivíduo que lhe prometeu mundos e fundos, embora não tenha problemas em abandonar esta figura feminina de forma fria e cruel. A personagem interpretada por Claudia Cardinalle mantinha uma relação ambígua com Piero (Gian Maria Volontè), um indivíduo agressivo e impulsivo. Marcello também está longe de ter as melhores das intenções para com Aida, algo notório quando utiliza um apelido falso para enganá-la, nomeadamente, Marchiori. Sem dinheiro, apenas com uma mala com poucos bens e uma imensidão de sonhos por cumprir, Aida decide deslocar-se até à casa de Marcello e Lorenzo, tendo em vista a encontrar Marchiori, mas apenas se depara com a desilusão e a destruição dos sonhos que formara. As ilusões formadas por Aida transformam-se rapidamente em desilusões, com a protagonista a conhecer mais um revés que marca a sua alma. O rosto de Claudia Cardinale transmite raiva e desespero, com a actriz a evidenciar as contradições de Aida, uma cantora que sabe da sua beleza e conta com alguma experiência de vida, embora seja pouco expedita a perceber quando está a ser enganada, algo evidenciado por diversas vezes ao longo de "La ragazza con la valigia". Quem recebe Aida é Lorenzo, naquele que é um dos vários momentos marcantes do filme. Aida finge inicialmente que é uma vendedora de seguros, enquanto Lorenzo tenta proteger esta mulher da verdade ao mesmo tempo que procura manter a mentira do irmão. O olhar de Lorenzo não engana, com Jacques Perrin a demonstrar que o adolescente ficou condoído com a situação de Aida. A banda sonora contribui para exacerbar o tom melodramático que pontua o primeiro encontro entre a dupla de protagonistas, um momento fulcral para os sentimentos fortes que se geram entre Lorenzo e Aida. Perante a situação delicada em que se encontra, Aida opta por habitar temporariamente num pequeno quarto, num hotel barato, embora não consiga pagar o mesmo, tendo uma série de problemas financeiros. Esta conta temporariamente com o apoio financeiro de Lorenzo, enquanto o adolescente se aproxima da protagonista e tenta que esta não descubra que é irmão de Marcello.

14 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il vedovo" (O Viúvo Alegre)

 Um dos aspectos fundamentais da chamada "Commedia all'italiana" centra-se na capacidade das obras cinematográficas do género encontrarem o humor a partir de situações trágicas. "Il vedovo" não é excepção, com Dino Risi a realizar uma comédia à italiana onde não faltam tentativas de golpes, traições, planos mirabolantes e personagens incapazes de melhorarem as suas condições de vida, com o filme a remeter para outras obras do género como "I soliti ignoti" e "Divorzio all'italiana". Não falta um marido que se tenta livrar da esposa, traições, um grupo que elabora um plano que parece incapaz de executar, mas também diversos momentos onde o humor e a tragédia andam lado a lado, bem como um retrato sobre a Itália do denominado "milagre económico", com "Il vedovo" a surgir como um dos recomendáveis representantes do género. Um dos intérpretes que sobressaiu em grande nível neste género de filmes é Alberto Sordi, o protagonista de "Il vedovo", com o actor a exibir o seu carisma e talento para o humor como Alberto Nardi, um empresário romano que tarda em conseguir obter sucesso e respeito. Sordi imprime uma lábia latente a este empresário bem falante e confiante, mas pouco sagaz para os negócios, que engana os funcionários, trai a esposa, ludibria a amante e traça um plano rocambolesco para ficar milionário. Se têm dinheiro disponível, o melhor é afastarem-se de Nardi, caso contrário o mais provável é que este empresário tente convencê-los a investirem no seu negócio, com Alberto Sordi a conseguir transmitir a confiança deste indivíduo que tem "mais olhos do que barriga". Nardi investe os fundos que tem e aqueles que não estão à sua disposição, tendo um negócio relacionado com o fabrico de elevadores onde os prejuízos superam e muito os lucros. Os funcionários encontram-se quase sempre revoltados devido aos ordenados em atraso, os produtos fabricados nem sempre funcionam, os credores não "largam" Nardi, enquanto o empresário conta com companhia leal do tio (Nando Bruno), do marquês Stucchi (Livio Lorenzon) e de Fritzmayer (Enzo Petito). O tio de Nardi é um antigo taxista que investiu todo o seu dinheiro no negócio do sobrinho, sendo sócio e motorista do familiar, apresentando um estranho orgulho por fazer parte deste projecto que tem tudo para não vingar. Stucchi é um marquês caído em desgraça, que respeita e admira Nardi, enquanto Fritzmayer é um técnico alemão que trabalha na criação dos elevadores da empresa do protagonista. Nando Bruno, Livio Lorenzon e Enzo Petito convencem como este trio peculiar, sobretudo no último terço, quando os personagens que interpretam são "empurrados" para o interior de um plano rocambolesco e perigoso. Quem não partilha qualquer admiração por Alberto Nardi é Elvira Almiraghi (Franca Valeri), a esposa do protagonista, uma mulher financeiramente abastada e pragmática, que já não suporta os negócios falhados e os devaneios do esposo. Franca Valeri exprime de forma hábil o enfado de Elvira em relação a Alberto, com o casal a contar com uma relação pontuada pela frieza, diversos enganos e traições. O casal habita num espaço de dimensões alargadas, decorado de forma a expressar a saúde financeira de Elvira, uma mulher experiente, de personalidade forte, que não está disponível para conceder mais dinheiro ao esposo, após diversos negócios falhados deste indivíduo. A casa conta ainda com diversos funcionários e uma série de produtos que Alberto furta para oferecer a Gioia (Leonora Ruffo), a sua amante, uma jovem loira, algo ingénua e pouco expedita a perceber que se está a envolver com um aldrabão.

Leonora Ruffo transmite a ingenuidade da personagem que interpreta, uma jovem que não liga à opinião daqueles que a procuram alertar sobre Nardi, com Gioia a confiar no empresário, mesmo quando este recolhe o casaco de peles que lhe oferecera, tendo em vista a utilizar o adereço para adiar o pagamento de uma dívida. Alberto Nardi tem planos grandiosos para a sua empresa, mas poucos fundos e parco engenho para concretizar esse desiderato. Nardi sonha com grandes feitos, mas também com a morte da esposa, um desejo que exibe paradigmaticamente a falta de amor que existe entre o protagonista e Elvira, bem como o lado negro deste empresário. Se Nardi é um indivíduo que é facilmente enganado, que apenas parece estar rodeado por aqueles que são incapazes de contrariá-lo, já Elvira apresenta uma sagacidade latente a gerir a fortuna da família e uma perspicácia sublime para efectuar bons negócios. Elvira mantém uma série de contactos junto de empresários abastados, tenta manter a sua fortuna e despreza a companhia do esposo, enquanto este último procura obter um empréstimo bancário para investir no negócio dos elevadores. O empréstimo apenas é avalizado pela entidade bancária se Elvira assinar o contrato, algo rejeitado por esta mulher, uma situação que coloca Alberto em pânico. A dinâmica entre Sordi e Valeri como este casal disfuncional funciona quase sempre na perfeição, com a segunda a exibir com gosto o desprezo que Elvira nutre pelo esposo, enquanto o primeiro demonstra por diversas vezes o lado negro deste empresário neurótico e egocêntrico, que sonha com a morte da esposa e pretende livrar-se da mesma para enriquecer com a herança. Num determinado momento de "Il vedovo", Elvira prepara-se para efectuar uma viagem de comboio, tendo em vista a visitar a progenitora. A notícia de que ocorreu um acidente no comboio onde Elvira estava presente e o anúncio nos jornais de que esta poderá ter falecido conduzem Alberto Nardi a evidenciar um falso sentimento de dor e a desfrutar imediatamente da possibilidade de ser milionário devido à morte da esposa. Nardi nem se preocupa em aguardar pela confirmação da morte de Elvira, ou pela hipotética descoberta do corpo, com o empresário a iniciar os preparativos do funeral, enquanto exibe o seu lado mais impulsivo e errático. O humor negro permeia a organização do funeral, bem como os comportamentos de Nardi, com Alberto Sordi a exibir o estilo megalomaníaco e pouco controlado do personagem que interpreta. O empresário ainda vai contar com (mais) uma surpresa desagradável, com Dino Risi a controlar os timings dos momentos de humor e das reviravoltas de forma exímia, inclusive quando o protagonista planeia um assassinato escabroso. Nardi anseia ser bem-sucedido a todo o custo, com este personagem a surgir como um estereótipo das ambições da classe média deste período, algo exposto de forma propositadamente exagerada por Dino Risi. A necessidade do protagonista trazer o carro da esposa para exibir prosperidade, a procura de investir em negócios citadinos e descurar os espaços rurais, o materialismo, as traições, surgem como comentários do foro social de Dino Risi, algo transversal a diversas "comédias à italiana", com o cineasta a colocar-nos diante de um empresário peculiar que raramente consegue executar um plano com sucesso.

Nardi procura apoios financeiros, prepara um velório com o entusiasmo de quem está a comemorar um feito glorioso, decide retirar-se temporariamente num convento, planeia um assassinato e anseia ardentemente ser viúvo. No entanto, os momentos de alegria de Nardi como viúvo duram pouco tempo, sobretudo quando ocorre uma reviravolta na narrativa, com "Il vedovo" a contar com uma série de situações que resultam não só devido ao argumento e à realização de Dino Risi, mas também graças ao elenco competente que o cineasta tem à disposição. Para além dos nomes mencionados, o elenco conta ainda com alguns elementos capazes de darem um ar da sua graça. Veja-se o caso de Mario Passante como Lambertoni, um dos indivíduos que emprestam dinheiro a Nardi, ou Ruggero Marchi como Carlo Fenoglio, um empresário do sector industrial que ascendeu praticamente do zero e conta com um enorme sucesso financeiro. Fenoglio representa um elemento que beneficiou do chamado "milagre económico italiano", tendo investido em negócios rentáveis que contribuíram para que acumulasse riqueza, respeito e poder. Alberto Nardi tarda em conseguir alcançar a prosperidade ansiada e o respeito desejado, uma situação que conduz este indivíduo egocêntrico ao desespero, enquanto encara a morte ou assassinato da esposa como a única possibilidade para se tornar rico de forma rápida. Nardi bem quer ser viúvo, embora Dino Risi não esteja pelos ajustes ao planear um destino bem menos agradável para este empresário que pretende enriquecer através de um método pouco ortodoxo. Com uma interpretação de grande nível de Alberto Sordi como um empresário falhado, charlatão, falador e neurótico, um argumento capaz de explorar a premissa e contar com uma série de ingredientes típicos das "comédias à italiana", "Il vedovo" transporta-nos para o interior do quotidiano caótico de um indivíduo ambicioso mas incompetente, com Dino Risi a efectuar alguns comentários do foro social e a colocar o espectador diante de situações pontuadas quer pelo humor, quer pela tragédia, enquanto o protagonista se prepara para enfrentar a ironia do destino.

Título original: "Il vedovo".
Título em Portugal: "O Viúvo Alegre".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Rodolfo Sonego, Fabio Carpi, Sandro Continenza, Dino Verde, Dino Risi.
Elenco: Alberto Sordi, Franca Valeri, Livio Lorenzon, Nando Bruno, Enzo Petito, Leonora Ruffo, Ruggero Marchi, Mario Passante.

10 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il deserto dei Tartari" (Deserto dos Tártaros)

 No início de "Il deserto dei Tartari", a última longa-metragem realizada por Valerio Zurlini, encontramos Giovanni Drogo (Jacques Perrin), um jovem Tenente, a despedir-se da mãe, da namorada e do melhor amigo. A melancolia permeia estas despedidas que ocorrem a 2 de Agosto de 1907, com a banda sonora de Ennio Morricone a pontuar o ritmo simultaneamente triste, melancólico e esperançoso destes episódios. Drogo sabe que se prepara para partir em direcção a uma aventura incerta, estimulante, diferente de tudo aquilo a que estava habituado, embora não tenha pedido para ser destacado para o Forte Bastiano, uma base isolada que parece influenciar a mente e o corpo dos militares. O Forte Bastiano encontra-se situado numa zona de fronteira que separa o território pertencente ao Império do espaço denominado de Deserto dos Tártaros e da parcela que pertence ao Império do Norte, com os seus integrantes a contarem com regras bastante rígidas e um sentido de dever aparentemente inabalável. Todos os militares encontram-se fardados a rigor, contam com uma hierarquia bem definida e um conjunto de regras para cumprir e respeitar no interior do Forte Bastiano, com "Il deserto dei Tartari" a abordar o quotidiano destes indivíduos com enorme cuidado e acerto. Veja-se quando Drogo é apresentado ao Coronel Filimore (Vittorio Gassman), o líder do Forte Bastiano, um indivíduo de cabelos grisalhos, experiente, carismático, aparentemente brando, que transmite uma aura de respeito e sapiência. A apresentação decorre num jantar que permite exibir quer alguns dos luxos do Forte, quer a estrutura hierárquica e o respeito pela mesma, com cada elemento a posicionar-se à mesa de acordo com o seu estatuto no interior da base fronteiriça. A sensação de isolamento, alienação e a espera por um possível ataque dos Tártaros marca o quotidiano de boa parte dos militares que protegem o Forte Bastiano, enquanto "Il deserto dei Tartari" nos coloca diante dos laços que se formam entre estes personagens, bem como as tensões inevitáveis e o dia-a-dia destes indivíduos que procuram cumprir as tarefas para as quais foram designados, algo abordado e desenvolvido de forma precisa por Valerio Zurlini. As tensões entre alguns militares são praticamente inevitáveis, bem como a camaradagem e as relações de respeito e até de alguma amizade, com Valerio Zurlini a apresentar-nos a um leque alargado de personagens, enquanto aproveita o elenco de luxo que tem à sua disposição, onde constam nomes como Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Helmut Griem, entre outros, com os intérpretes a elevarem os elementos que interpretam. Diga-se que o espaço do Forte surge praticamente como um dos grandes protagonistas do filme. O Forte aparece representado como um espaço de dimensões alargadas, praticamente isolado da humanidade, com o perigo a estar quase sempre presente na mente dos militares que trabalham e habitam neste local, embora tarde em aparecer de forma concreta, ou seja, na figura dos Tártaros. A viagem a cavalo, que Drogo efectua para chegar ao Forte Bastiano, permite exibir desde logo alguns dos elementos que marcam o quotidiano do protagonista nesta base, tais como a presença fantasmagórica e alienadora do deserto, a sensação de isolamento e a solidão, com o trabalho de Luciano Tovoli na cinematografia a permitir exacerbar as características específicas dos espaços que rodeiam os personagens. Veja-se a forma como a imensidão do deserto e as montanhas parecem agigantar-se diante de Drogo ao longo do trajecto que é efectuado pelo personagem principal, com os planos bem abertos, enquadrados com grande acerto, a deixarem o espectador diante da certeza que a viagem deste Tenente é longa e conta com passagens por locais inóspitos. É nesta viagem que Drogo encontra o Capitão Ortiz (Max von Sydow), um dos seus superiores, um indivíduo que se encontra há mais de dezoito anos no Forte Bastiano, tendo outrora tocado o alarme devido a ter visto, ou pensado ter visualizado, o inimigo.

Max von Sydow incute carisma e ponderação a Ortiz, um Capitão experiente e organizado, que procura acatar as ordens, reflectir sobre as decisões que efectua e apresenta uma humanidade que contrasta com a personalidade implacável e irascível do Major Matis (Giuliano Gemma). O código de conduta dos militares que protegem o Forte é bastante rígido, com Giuliano Gemma a expressar o gosto e o entusiasmo que o personagem que interpreta tem em obedecer aos regulamentos e obrigar aqueles que o rodeiam a seguirem as regras. Giuliano Gemma surge quase sempre de feições rígidas e sérias, tendo em vista a imprimir um cunho duro a Matis, um Major que tenta respeitar ao máximo o regulamento e colocar em prática as tarefas impopulares que Filimore necessita de tomar. Matis forma uma estranha relação de respeito com Drogo, embora estes dois personagens nem sempre contem com uma convivência pacífica, com a personalidade de ambos a ser deveras distinta. Para Drogo, a realidade do Forte Bastiano é uma novidade, com este indivíduo a pensar que a sua presença neste espaço é apenas temporária, embora as suas ideias iniciais acabem por não se concretizar, sobretudo quando começa a ser contagiado por alguns dos ideais dos colegas. Jacques Perrin imprime uma personalidade relativamente ingénua e afável ao personagem que interpreta, um Tenente que procura cumprir o seu serviço e ambiciona sair do Forte Bastiano. Esta ambição encontra apoio na figura de Matis, com o Major a efectuar um acordo com Drogo para que o protagonista possa abandonar o local após quatro meses de serviço. Rovine (Jean-Louis Trintignant), o médico de serviço e Major de patente, não tem problemas em efectuar um relatório médico que permita a saída de Drogo do Forte, mas o protagonista parece começar a ser contagiado pelos ideais dos colegas e dos seus superiores, bem como pela esperança de efectuar uma batalha épica contra os Tártaros. O perigo parece rondar silenciosamente o espaço do Forte Bastiano, pelo menos na fase inicial da narrativa, com os militares a serem obrigados a gerir os seus medos, receios e expectativas. Veja-se quando Drogo se encontra de vigia durante a noite, com o protagonista a deparar-se com um estranho movimento. Esse movimento provém de um cavalo branco, ou seja, pertencente aos Tártaros, pois os militares do Forte Bastiano apenas utilizam cavalos negros ou baios. Drogo ainda pondera accionar o alarme, mas é travado pelo Primeiro-Sargento Tronk (Francisco Rabal), um indivíduo aparentemente carrancudo, que é um dos apoios do protagonista. O conselho de Tronk revela-se acertado, bem como a medida de Drogo de não capturar o cavalo, uma decisão que lhe vale uma repreensão por parte de Ortiz, bem como um elogio de Matis, devido ao facto do protagonista ter cumprido as regras do protocolo. A presença do cavalo parece mexer com os sentimentos dos soldados, ou o quotidiano dos mesmos não estivesse ligado a uma longa espera para travarem um ataque com o inimigo. Valerio Zurlini consegue transmitir essa sensação do tempo que tanto passa depressa demais como tarda em avançar, com os militares a parecerem umbilicalmente ligados a este Forte que tem tanto de austero e agreste como sedutor e propiciador de gerar a esperança de que grandes feitos aguardam aqueles que tiverem a sabedoria para esperar pelo momento certo. Também é um local que afecta a mente que neles habitam, uma situação notória no suicídio cometido por um personagem que é obrigado a reformar-se, com o argumento de Valerio Zurlini, inspirado no livro "Il deserto dei Tartari" de Dino Buzzati, a explorar a complexidade inerente ao quotidiano no interior de um espaço situado numa zona deserta, com o realizador a abordar a forma como este ambiente afecta psicologicamente os militares que trabalham no Forte Bastiano.

O lado psicológico nunca é deixado de lado, com o argumento a exibir que existe um misto de racionalidade e irracionalidade associado a esta missão dos elementos que se encontram no Forte, com cada militar a reagir de forma distinta ao dia-a-dia nesta base com características muito próprias. Veja-se quando Drogo questiona Rovine se o Major já efectuou algum pedido para se transferir do Forte Bastiano para outro local, com o médico a salientar que nunca tomou essa decisão devido a considerar que isso levaria a que se sentisse como um desertor. O próprio Drogo começa a sentir o apelo gerado por este espaço e pelos seus integrantes, com o Tenente a desenvolver uma relação de enorme respeito com Ortiz, Simeon (Helmut Griem) e Filimore. Simeon é um Tenente afável, sempre pronto a dialogar, que apresenta parte do Forte Bastiano ao protagonista e forma uma relação de amizade e respeito com Drogo. Helmut Griem sobressai quer nos momentos iniciais, quando o Sol e as tonalidades azuis parecem permear os cenários e tudo parece relativamente calmo, quer a partir do terceiro acto do filme, quando os personagens se encontram claramente mais envelhecidos e a lidar com uma situação inesperada que supera as piores (ou as melhores) previsões. A passagem do tempo é sentida e transmitida, seja pelos personagens ou pelas referências efectuadas ao decorrer dos meses e dos anos, ou às promoções dos militares, enquanto o trabalho de caracterização permite discernir o envelhecimento de alguns elementos. Por sua vez, o Forte Bastiano aparece praticamente intacto, pontuado maioritariamente por paredes de tonalidades desprovidas de vida e alguns luxos no seu interior, embora a vista que rodeia os personagens transmita uma certa sensação de claustrofobia. O deserto, as ruínas, a temperatura (nunca parece existir um meio termo, ou está muito quente ou frio), a possível chegada de um inimigo contribui para o modo muito próprio como estes elementos encaram este espaço, com Valerio Zurlini e Luciano Tovoli a concederem características transcendentes ao local. Filmado em parte em Arg-e Bam, uma fortaleza situada no Irão, "Il deserto dei Tartari" beneficiou e muito das características deste cenário praticamente perfeito para o Forte Bastiano. Austero no seu exterior, capaz de transmitir o sentimento de isolamento da base onde se encontram os personagens principais de "Il deserto dei tartari" este espaço do Irão serviu e muito as pretensões de Valerio Zurlini, com o cineasta a aproveitar o mesmo ao serviço do enredo de forma bastante precisa. O nevoeiro, as montanhas, as areias do deserto povoam o território que circunda o Forte, algo captado ao longo do filme, com "Il deserto dei tartari" a tanto colocar o espectador diante de céus límpidos e azuis que transmitem uma sensação de calor como de chuvas fortes que batem forte nos corpos e trazem consigo o adensar da incerteza. Veja-se quando Lazare (Shaban Golchin Honaz), um dos militares, desobedece às ordens e procura roubar o cavalo branco durante uma noite chuvosa, acabando por ser eliminado por um colega devido a não saber a senha para entrar no Forte. Este acto permite expor a faceta implacável de Matis quando alguém desobedece às ordens mas também a rigidez dos códigos de conduta e a necessidade dos militares não saírem de certos locais fronteiriços, caso contrário estarão a violar os acordos com o Reino do Norte. A disciplina faz parte do dia-a-dia destes elementos, seja no treino, a caçar, num simples jantar ou a efectuarem uma vigia, com Valerio Zurlini a ter tempo para explorar as diferentes vertentes do quotidiano no Forte. Não faltam duelos de esgrima, eventos relacionados com a caça, missões, treinos com os pelotões, entre outras actividades que visam solidificar as competências dos militares que se encontram a cumprir serviço militar no Forte Bastiano.

 O Forte conta ainda com uma série de elementos que se destacam no interior do contingente numeroso que se encontra no interior desta base. Um desses elementos é o tenente Pietro Von Hamerling (Laurent Terzieff), um indivíduo que se encontra debilitado, com problemas de saúde e uma fragilidade física notória. Laurent Terzieff consegue exibir a fragilidade física de Von Hamerling quer nos gestos que incute ao personagem, quer no modo de dialogar, sempre sem parecer algo forçado ou caricatural. Veja-se quando participa numa expedição para estabelecer os limites da fronteira do lado do Império, enquanto decorre uma forte tempestade de neve, com Pietro Von Hamerling a não ter problemas em "atirar-se" para a morte e assumir um papel de relevo na iniciativa, mesmo sabendo que não conta com condições físicas para tal proeza. Temos ainda figuras como o Tenente-Coronel Nathanson (Fernando Rey), um indivíduo que transmite uma enorme imponência, que se digladia com feridas de guerra que consomem o seu corpo, embora esteja sempre presente nas reuniões e momentos de decisão no Forte Bastiano. O elenco conta com interpretações coesas, com Valerio Zurlini a saber extrair desempenhos sólidos da parte dos seus intérpretes, embora o grande destaque recaia em Jacques Perrin, um colaborador habitual do cineasta e uma das figuras mais influentes para conseguir tirar "Il deserto dei Tartari" do papel. Perrin permite atribuir credibilidade a esta entrada de Drogo no Forte Bastiano, às dúvidas iniciais do protagonista, às relações de amizade e lealdade que o Tenente forma no interior da base, bem como às transformações físicas deste personagem com o avançar do tempo. A passagem do tempo e a forma como é exposta e aproveitada por Valerio Zurlini é outro dos pontos fortes de "Il deserto dei Tartari". A sensação da espera dos personagens é transmitida, bem como a forma como os militares parecem contagiados por algo de muito forte e contraditório que os compele quer a pretenderem permanecer no Forte, quer a desejarem sair deste local, embora anseiem por um momento que aqueça as suas almas e atribua relevância ao seu trabalho. O tempo passa, quase não damos por isso, nem os personagens, embora os seus corpos e as suas mentes se ressintam, enquanto são promovidos ou destacados para locais diferentes, ou são colocados diante de situações inesperadas. Drogo é o nosso elo de ligação com o Forte Bastiano. É na companhia de Drogo que viajamos até este espaço, que conhecemos as suas imediações e o deserto, que ficamos a percepcionar a realidade do Forte e as suas características muito particulares. Composto por paredes maioritariamente desprovidas de cores vivas, muitas das vezes com traços de humidade, o Forte Bastiano conta com uma atmosfera relativamente austera, algo notório nos seus corredores cinzentos e nos quartos dos militares, embora a sala de jantar seja um local dotado de alguns luxos. Veja-se a banda a tocar música ao vivo, o tapete vermelho e azul que se encontra a adornar o chão onde se encontra a mesa, os candelabros, todo o aprumo na colocação dos copos, pratos e talheres, ou seja, é um local bem distinto do espaço exterior do Forte.

O trabalho de câmara contribui para termos a noção do espaço do Forte, bem como das suas divisórias, com este cenário a ser utilizado de forma bastante assertiva. O Forte Bastiano parece contar com um superpovoamento notório, tendo em conta que os militares pouco ou nada fazem para além de treinarem e aguardarem pela chegada de um possível ataque dos Tártaros, embora, num determinado momento, uma decisão prometa mexer com as rotinas destes homens que procuram dar o melhor de si próprios na defesa de uma das bases mais longínquas e relevantes do Império. Drogo chega a este espaço como um Tenente que quer mudar rapidamente de base, até começar a ser atraído pelo canto desta sereia em formato de Forte, que provoca um apelo quase irresistível nos soldados. Veja-se o caso de Ortiz, um indivíduo que outrora visualizara o inimigo, tendo ficado no Forte Bastiano à espera de um possível ataque, embora a solidão da reforma e a noção de que ficou algo por cumprir acabem por provocar uma atitude poderosa e inesperada por parte do personagem interpretado por Max von Sydow. Também Drogo não consegue evitar o sentido de missão e de defesa do Forte, com Valerio Zurlini a deixar-nos a espaços na dúvida se algumas observações efectuadas pelos personagens correspondem à realidade ou aos truques da mente, embora o cineasta desfaça rapidamente essas questões no último terço de "Il deserto dei Tartari". Diga-se que estamos ainda diante de uma das provas de maturidade de Valerio Zurlini, com o cineasta a conseguir transmitir a sensação de isolamento e espera dos militares no Forte Bastiano, a recorrer de forma certeira à banda sonora de Ennio Morricone (já em "Estate Violenta", "La ragazza con la valiglia" e "Cronaca Familiare" demonstrara essa apetência para utilizar a música para os efeitos pretendidos), a criar personagens dotados de dimensão e extrair interpretações de um nível elevado por parte do elenco, com "Il deserto dei Tartari" a exibir ainda o talento do realizador para explorar os efeitos da passagem do tempo e as especificidades do território. Valerio Zurlini transmite a atmosfera de camaradagem e algumas tensões que ocorrem no Forte Bastiano, enquanto permite que o elenco sobressaia, sobretudo Jacques Perrin, com "Il deserto dei Tartari" a aparecer como uma obra cinematográfica que nos assombra e nos compele a visualizarmos tudo mais do que uma vez, seja para apreciar a magnífica banda sonora de Ennio Morricone ou o trabalho sublime de Luciano Tovoli na cinematografia, ou observar as características específicas dos cenários e das interpretações, ou a degustar o argumento de Jean-Louis Bertucelli, com tudo a parecer obter ainda mais valor após cada nova degustação.

Título original: "Il deserto dei tartari".
Título em Portugal: "Deserto dos Tártaros".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Jean-Louis Bertucelli.
Elenco: Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Helmut Griem, Jean-Louis Trintignant, Giuliano Gemma, Fernando Rey, Max von Sydow, Laurent Terzieff.

07 novembro 2016

Resenha Crítica: "I mostri" (Os Monstros)

 Entre o humor inteligente e o grotesco, os exageros e o realismo, os comentários de foro social e a sátira, "I mostri" coloca-nos diante de uma narrativa dividida em vinte episódios, todos de curta duração, enquanto Dino Risi utiliza a comédia para dissecar e expor as idiossincrasias de Itália nos anos 60, com Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman a estarem presentes no elenco da maioria destes "sketches". O talento de Gassman e Tognazzi para o humor é exposto de forma paradigmática durante o filme, com a dupla a interpretar uma série de figuras peculiares ao longo dos diferentes episódios de "I mostri". Vittorio Gassman tanto interpreta convincentemente um advogado de expressões e gestos exagerados como um mendigo que engana um cego, ou um polícia desdentado, ou um cineasta excessivamente rigoroso, ou um marido que engana a esposa e as amantes, ou um pugilista caído em desgraça. Ugo Tognazzi também dá vida a uma série de figuras peculiares ao longo de "I mostri", tais como um polícia estrábico, um pai que ensina o filho a quebrar as regras e enganar aqueles que o rodeiam, um soldado que não tem problemas em vender o diário da irmã para um jornal após esta ter sido assassinada, um marido traído, entre outros personagens que são elevados pelas interpretações do actor. O mote para "I mostri" é dado desde o primeiro capítulo, com Dino Risi a colocar o espectador diante de um pai (Ugo Tognazzi) que ensina o filho (Ricky Tognazzi) a transgredir as regras. Desde ultrapassagens em contramão, passando por ludibriar a empregada da caixa do café, até ensinar o filho a bater nos colegas e a roubar, o personagem interpretado por Ugo Tognazzi pensa estar a educar o rebento para que este se consiga desenvencilhar no interior de um Mundo onde apenas os mais "espertos" se safam, embora o desfecho exiba que os planos deste indivíduo saíram completamente ao lado. O primeiro episódio é curto, pontuado por um ritmo frenético e eficaz nos seus propósitos, com o argumento a explorar de forma assertiva o humor a partir de situações trágicas ou exageradas, enquanto é efectuado um comentário do foro social sobre Itália em plenos anos 60, ou seja, durante o denominado "milagre económico". Não faltam alguns exageros na exposição deste comentário e sátira sobre a sociedade da época, com "I mostri" a partilhar diversos elementos transversais em relação à chamada "Commedia all'italiana", tais como as traições, a paixão de alguns personagens pelas ultrapassagens e pela alta velocidade (a fazer recordar "Il sorpasso"), o consumismo e o materialismo (veja-se o soldado que não tem problemas em vender o diário da irmã, recentemente falecida, ao melhor preço), a exposição das diferenças sociais, entre outros exemplos. Essa mudança de valores é particularmente visível no episódio intitulado "L'oppio dei popoli", onde encontramos um indivíduo (Ugo Tognazzi) sentado no sofá, a assistir ao seu programa televisivo preferido, enquanto a esposa (Michèle Mercier) aproveita o momento de distração do marido para traí-lo com o amante (Marino Masè). A presença da televisão no quotidiano das famílias, a necessidade de contar com carros caros, os políticos que pensam acima de tudo nos seus interesses, surgem como algumas temáticas abordadas ao longo destes episódios, com o argumento de Agenore Incrocci, Ruggero Maccari, Elio Petri, Dino Risi, Furio Scarpelli, Ettore Scola (um sexteto de meter respeito) a procurar não deixar escapar nada neste retrato muito particular sobre o território italiano em plena década de 60.

 A política, o desporto, a justiça, a religião, a sexualidade, as relações sentimentais, o cinema e a literatura marcam presença em diversos episódios, com o argumento a revelar uma criatividade latente na procura de atribuir um corpo homogéneo a um conjunto de "sketches" aparentemente desgarrados que conseguem efectuar um retrato mordaz sobre a Itália dos anos 60. A política é alvo de um comentário pouco abonatório em "La giornata dell'onorevole", um episódio onde Ugo Tognazzi interpreta o personagem do título, um deputado que procura manter distância de um general que pretende denunciar um negócio ruinoso para o Estado. O deputado adia a reunião por longas horas, tendo em vista a aguardar que o contrato seja assinado e os planos do general sejam sabotados. Temos ainda a religião a ser alvo de escárnio a partir da figura de um padre (Vittorio Gassman) que não descura uma boa dose de maquilhagem em "Il testamento di Francesco". Ironia das ironias, o padre profere um discurso no qual crítica a vaidade, com "I mostri" a colocar-nos um pouco diante da hipocrisia humana. Essa hipocrisia permeia ainda episódios como "La strada è di tutti", onde um transeunte (Vittorio Gassman) reclama com o facto dos automobilistas não travarem os carros na passagem de peões, embora o protagonista seja o primeiro a apresentar esta atitude quando se encontra no seu veículo, ou "La raccomandazione", no qual um actor egocêntrico (Vittorio Gassman) ignora o pedido de ajuda de um colega de profissão (Franco Castellani). Já o sistema judicial é criticado no rocambolesco "Testimone volontario", onde um advogado (Vittorio Gassman) consegue destruir a reputação de uma testemunha (Ugo Tognazzi) no interior de um julgamento caricato. Diga-se que a testemunha tinha uma série de rabos-de-palha, tais como enganar a entidade patronal e a esposa. As traições amorosas são visíveis em episódios como o mencionado "L'oppio dei popoli", bem como em "Il sacrificato" (um indivíduo trai a esposa e as amantes), "Come un padre" (o elemento interpretado por Lando Buzzanca é traído pelo melhor amigo) e "Vernissage" (o personagem interpretado por Ugo Tognazzi trai a esposa com prostitutas). Diga-se que "Vernissage" remete ainda para o materialismo e para o carro como um sinal de prosperidade, embora neste episódio o protagonista utilize ainda o veículo para pagar menos a uma prostituta. Por sua vez, o prazer dos italianos pelo futebol é satirizado em Che vitaccia!", no qual um indivíduo da periferia, depauperado, pai de uma família numerosa, decide gastar o seus últimos fundos num bilhete para ver um jogo de futebol, embora tenha o rebento doente e a necessitar de medicação. Ou seja, "I mostri" coloca-nos diante de um estranho retrato de Itália em plenos anos 60, com os defeitos e os estereótipos a serem exacerbados de forma mordaz ao serviço do humor, embora exista todo um comentário do foro social que explana paradigmaticamente as idiossincrasias de uma sociedade em mudança. "I mostri" confirma ainda a apetência de Dino Risi para mesclar o humor com a tragédia, com o último episódio a ser paradigmático dessa situação e a trazer à memória os desfechos trágicos de "Il vedovo" e "Il sorpasso", duas obras cinematográficas muito recomendáveis deste cineasta. A criatividade de Dino Risi e do grupo de argumentistas permite que "I mostri" efectue comentários certeiros e mordazes sobre a Itália dos anos 60, enquanto Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi parecem divertir-se imenso e a divertirem-nos pelo caminho a interpretarem uma miríade de figuras de personalidades e características físicas distintas, com a dupla a apresentar-se em bom nível ao longo desta obra cinematográfica cheia de ritmo, humor e situações peculiares.

Título original: "I mostri".
Título em Portugal: "Os Monstros".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Agenore Incrocci, Ruggero Maccari, Elio Petri, Dino Risi, Furio Scarpelli, Ettore Scola.
Elenco: Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Michèle Mercier, Ricky Tognazzi, Franco Castellani, Lando Buzzanca.

05 novembro 2016

Resenha Crítica: "Tutti i santi giorni" (2012)

 Com uma capacidade indelével para mesclar elementos de romance, drama e comédia, "Tutti i santi giorni" transporta-nos para o interior de uma relação aparentemente perfeita que aos poucos é minada por uma série de incertezas e adversidades. É praticamente impossível que uma relação não atravesse fases mais complicadas, com a longevidade de um envolvimento amoroso a depender imenso da capacidade apresentada pelo casal para ultrapassar as adversidades e aprender com os erros e reveses, algo abordado por Paolo Virzì em "Tutti i santi giorni", sempre com enorme humanidade, humor, doses assinaláveis de drama, romantismo e melancolia. O romantismo e a melancolia marcam o enredo e a banda sonora de "Tutti i santi giorni", a décima longa-metragem realizada por Paolo Virzì, um cineasta exímio a criar personagens plenos de humanidade, a extrair interpretações de relevo por parte do elenco principal e a elaborar obras cinematográficas que remetem para as tradições mais profundas do cinema italiano. O humor é encontrado muitas das vezes na tragédia, o comentário social não é descurado, enquanto Luca Marinelli e Thony compõem uma dupla de protagonistas plena de sentimento e humanidade. Luca Marinelli interpreta Guido, um indivíduo bastante reservado e educado, que fala de forma polida, é especialista em literatura latina e mártires cristãos, tendo efectuado uma tese de mestrado relacionada com estas temáticas. Guido trabalha como recepcionista nocturno de um hotel de luxo, situado em Roma, um emprego que lhe permite ler quando o espaço hoteleiro está vazio (um dos seus hobbies preferidos), reflectir, conhecer uma miríade de clientes (alguns bastante peculiares) e ganhar dinheiro suficiente para ter uma vida estável ao lado de Antonia (Thony), a sua namorada. Antonia trabalha numa empresa de aluguer de automóveis, em particular, a Europcar, embora ambicione construir uma carreira como cantora, um sonho deveras complicado de concretizar. Esta canta em algumas festas e clubes nocturnos, com Guido a ser o fã número um da namorada, enquanto Thony, uma cantora e actriz, exibe os seus dotes para a cantoria, com a intérprete a ter a banda sonora do filme a seu cargo. A relação de Guido e Antonia é aparentemente perfeita, com as diferenças destes personagens a parecerem complementar-se praticamente na perfeição. Guido é o elemento mais ponderado, responsável e passivo, que valoriza as palavras e os gestos. Antonia é mais impulsiva, faladora e instável. Ele é toscano, ela é siciliana, com a dupla a ter sido educada de forma bastante distinta. Ambos contam com alguns problemas com os respectivos familiares. O progenitor de Guido, um intelectual, parece pouco convencido em relação ao rumo profissional do rebento, apesar de apresentar uma postura condescendente e não levantar grandes problemas. É certo que o irmão e a cunhada de Guido ainda propõem que este viaje para os EUA, onde trabalham em cargos importantes, mas o protagonista prefere permanecer junto da amada ao invés de partir para uma aventura profissional que provavelmente atomizaria a relação que mantém com Antonia. Por sua vez, Antonia não consegue estar muito tempo junto dos pais, fruto de diversos problemas coleccionados ao longo do tempo, com a simples presença dos progenitores a irritar a protagonista, uma situação que podemos comprovar quando estes efectuam uma visita inesperada ao apartamento da filha. Guido e Antonia habitam num apartamento alugado, relativamente modesto, pontuado por uma decoração acolhedora, com ambos a procurarem aproveitar ao máximo o pouco tempo que têm para estarem juntos, com "Tutti i santi giorni" a colocar-nos diante de um casal de classe média, que tenta manter a chama da relação bem viva e ultrapassar as dificuldades e adversidades com que se deparam pelo caminho, inclusivamente a capacidade inolvidável que o ser humano tem para destruir aquilo que construiu. Ninguém é infalível, Guido e Antonia que o digam, sobretudo a partir do momento em que decidem ter um filho, com este desejo a trazer ao de cima uma série de dúvidas inerentes à incapacidade do casal em concretizar esse objectivo.

 O problema encontrado pelo casal contribui para Paolo Virzì exibir a sua capacidade para conjugar o humor e a tragédia, algo muito próprio do cinema italiano (tal como o cineasta comprovou recentemente no recomendável "La pazza gioia"). Veja-se quando encontramos Guido a masturbar-se para recolher esperma no âmbito da realização de um espermograma, com Luca Marinelli a exibir a atrapalhação do protagonista, enquanto este procura inventar meios para terminar a sua tarefa com sucesso. Guido teme ser estéril, com Paolo Virzì a exibir os receios do protagonista ao mesmo tempo que aproveita os medos deste indivíduo ao serviço do humor. Temos ainda as visitas que Guido e Antonia efectuam ao professor Savarese (Franco Gargia), um ginecologista vetusto, conservador e bastante religioso, com a protagonista a não ter grande paciência para aturar os comentários espirituosos do médico. Paolo Virzì encontra humor em situações trágicas, ou caricatas, embora nunca descure a situação dramática que envolve a dupla de protagonistas. O casal procura fazer de tudo para ter filhos, seja consultar médicos de reputação inatacável, efectuar procriação assistida, frequentar um local que potencia a fertilidade, embora nada pareça resultar, uma situação que começa a mexer com Antonia e a quebrar a espiral de felicidade da dupla de protagonistas. Luca Marinelli e Thony convencem quer nas situações de maior intimidade do casal, quer nos trechos mais tensos e dramáticos. Thony transmite a personalidade mais impulsiva e errática de Antonia, uma mulher que fascina Guido e o espectador, com o casal a partilhar momentos de grande intimidade, amor e amizade. Veja-se quando observamos o casal despido, deitado na cama, a assistir a vídeos no portátil. Os vídeos remetem para os tempos em que Antonia vivia com Jimmy (Giovanni La Parola), o ex-namorado, em San Lorenzo, com o antigo casal a partilhar o gosto pela música. É um momento de intimidade partilhado pela dupla de protagonistas, embora Guido pareça claramente incomodado, sobretudo quando o casal se depara com Jimmy em plena cidade de Roma. Este é um dos personagens secundários que têm algum espaço para sobressair. Veja-se quando Jimmy entra no restaurante indiano onde Guido e Antonia estão a jantar, não tendo problemas em retirar alguma comida do prato do protagonista e dialogar com a ex-namorada como se ainda estivessem envolvidos. Temos ainda personagens como Patrizia (Micol Azzurro) e Marcello (Claudio Pallitto), os vizinhos da dupla de protagonistas, um casal que passa boa parte do tempo a discutir e a acumular gravidezes indesejadas. Marcello é um indivíduo violento e superficial, enquanto Patrizia é uma mulher pouco culta e espalhafatosa, mas simpática, que encara Guido como um exemplo. A demora para engravidar começa a afectar Antonia de forma indelével, com Thony a conseguir explorar a faceta mais problemática desta personagem que se envolve em diversas confusões e protagoniza actos desesperados. A proximidade dos vizinhos, capazes de terem filhos com enorme facilidade, embora não tenham planeado avolumar o núcleo familiar, ou desejado os rebentos, parece aumentar ainda mais as dificuldades de Antonia para enfrentar as adversidades. O destino pode ser cruel e contar com traços de humor negro, que o diga a dupla de protagonistas de "Tutti i santi giorni" (que confirmam o comentário de Bobby em "Café Society": "Life is a comedy written by a sadistic comedy writer."), com Paolo Virzì a desenvolver a relação de Guido e Antonia com enorme acerto e humanidade, sempre com algum humor e dramatismo à mistura. Inspirado no livro "La generazione", o argumento de "Tutti i santi giorni" aborda uma série de temáticas muito próprias das relações modernas e dos casais de classe média. Não faltam as dificuldades para conciliar o tempo livre, o apartamento alugado, o "hipotecar" dos sonhos para ceder ao pragmatismo de trabalhar em áreas distintas daquelas que sonhámos para o futuro, os reveses impossíveis de evitar, enquanto Luca Marinelli e Thony conquistam o espectador como um casal que conta com imensas diferenças mas um grande amor a uni-los.

 Num flashback, utilizado numa fase mais adiantada da narrativa, após Antonia e Guido terem atravessado uma crise, Paolo Virzì coloca-nos diante do primeiro diálogo entre a dupla de protagonistas. Este flashback reforça mais uma vez algo aparentemente óbvio, Antonia e Guido parecem ter sido feitos praticamente à medida um do outro. No entanto, tal como acontece com qualquer casal, a relação de Guido e Antonia atravessa uma fase complicada, com as rotinas aparentemente caóticas mas pontuadas pela felicidade a serem quebradas pelas tentativas frustradas de terem um filho. Será possível superar uma crise pontuada por episódios difíceis? Como ultrapassar um momento menos positivo e recuperar uma relação que parecia quase perfeita, mesmo com as suas pequenas imperfeições? "Tutti i santi giorni" responde a estas questões e aborda algo óbvio de forma inspirada e sincera, ou seja, tudo o que envolve sentimentos é complicado, sendo necessário esforços de parte a parte para que uma relação ultrapasse as dificuldades inerentes à nossa essência humana. Guido é o maior fã de Antonia, surgindo como um intelectual que parece ter sempre as palavras certas para dizer à amada, com Luca Marinelli a incutir um estilo de falar muito próprio ao personagem a quem dá vida. Veja-se quando Guido tenta convencer um grupo a fazer menos barulho para poder ouvir Antonia a cantar, ou assume uma postura lutadora para reconquistar a amada. Marinelli tem mais uma interpretação de bom nível, pontuada pelo carisma habitual do actor e a capacidade deste nos convencer que estamos diante de uma figura masculina que necessita da companhia da mulher amada, da sua amizade, da sua presença, da sua música (veja-se o seu rosto quando observa Antonia a cantar numa festa organizada por Marcello e Patrizia) e das suas palavras. Antonia ama Guido, mas nem sempre toma as decisões mais pragmáticas, com "Tutti i santi giorni" a colocar o espectador diante de um casal que erra, ama, procura ser feliz embora não evite alguns momentos de infelicidade, ou seja, pleno de humanidade. A tonalidade azul pontua diversos momentos da narrativa, uma cor muitas das vezes associada à harmonia, ou frieza e depressão. Ao longo de "Tutti i santi giorni", esta cor pode ser associada a estes diferentes estados de espírito e sentimentos, com Guido e Antonia a tanto protagonizarem alguns episódios que nos fazem esboçar um sorriso como vivem situações complicadas que nos tocam e compelem a torcer para que ambos fiquem juntos. A química entre Luca Marinelli e Thony é essencial para boa parte do enredo de "Tutti i santi giorni" funcionar, com os intérpretes a comporem personagens que se complementam praticamente na perfeição, enquanto aproveitam o bom argumento que têm à sua disposição e a realização certeira de Paolo Virzì, com o cineasta a saber jogar com as convenções dos romances e a incutir pelo meio alguns ingredientes de drama e comédia a esta obra cinematográfica que tem o condão de agarrar por completo a nossa atenção.  

Título original: "Tutti i santi giorni".
Título em inglês: "Every Blessed Day".
Realizador: Paolo Virzì.
Argumento: Francesco Bruni, Paolo Virzì, Simone Lenzi.
Elenco: Luca Marinelli, Thony, Micol Azzurro, Frank Crudele, Giovanni La Parola, Claudio Pallitto.

01 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il sorpasso" (A Ultrapassagem)

 Sentimentos a alta velocidade, ao sabor do vento, do cheiro do asfalto, quentes como o calor emanado pelo Sol num dia abrasador de Verão, prontos a serem vividos de forma plena, intensa, inquietante e perigosa, povoam o enredo de "Il sorpasso", um road movie enérgico com traços de "comédia à italiana", protagonizado por Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, uma dupla com uma dinâmica certeira, convincente e inesquecível, capaz de despertar o mais largo dos sorrisos ou um sentimento de agonia quando a tragédia chega sem aviso. Vittorio Gassman interpreta Bruno Cortona, um indivíduo enérgico, extrovertido, mulherengo, machista, pronto a viver para o momento, a cantar e a conduzir em contramão, um espírito livre que gosta de apreciar os prazeres da vida e parece representar paradigmaticamente alguém que está a desfrutar de perto as alterações proporcionadas pelo denominado "milagre económico italiano". Não é que Bruno seja rico, ou tenha uma profissão segura, bem pelo contrário, mas parece bastar-lhe um carro (sinal de modernidade e estatuto neste período - o filme foi lançado originalmente em 1962), gasolina, cigarros, sopa de peixe e belas mulheres a acompanharem-no para este se sentir aparentemente feliz. Bruno é um dos protagonistas de "Il sorpasso", com Vittorio Gassman a exibir o seu carisma e talento para a comédia, bem como a sua expressividade e capacidade de explorar um lado mais frágil do personagem que interpreta. Jean-Louis Trintignant interpreta Roberto Mariani, com o actor a explanar a sobriedade e timidez deste estudante de advocacia recatado, filho de pais com algumas posses, que tenta ganhar coragem para falar com a vizinha da frente, embora tarde em cumprir esse desiderato. A vida de Roberto muda por completo quando conhece Bruno, com ambos a influenciarem os comportamentos um do outro, enquanto efectuam uma viagem aparentemente sem rumo e deparam-se com uma série de pessoas quer sejam estranhos ou velhos conhecidos. O enredo acompanha cerca de dois dias da vida de Roberto e Bruno, dois homens de personalidades distintas, que travam conhecimento no feriado de Ferragosto, ou seja, a quinze de Agosto, um dia solarengo, no qual a cidade de Roma parece completamente desértica e bafejada por um calor abrasador. Os edifícios parecem praticamente despovoados, as lojas fechadas, bem como os cafés, com a chegada efusiva de Bruno a contrastar com a atmosfera passiva e branda que marca a cidade de Roma durante o feriado. Bruno estaciona o carro junto ao prédio habitado por Roberto, com o primeiro a não ter problemas em exibir os traços extrovertidos da sua personalidade ao pedir ao segundo, um perfeito desconhecido, se este pode telefonar a Marcela, uma amiga com quem tinha marcado um encontro. O personagem interpretado por Vittorio Gassman evidencia um enorme à vontade ao ponto de parecer que conhece o seu interlocutor há bastante tempo, enquanto desperta uma certa sensação de estranheza em Roberto, com o estudante a não saber como reagir perante este furacão de emoções, que não tem tempo a perder, ou para grandes contemplações (veja-se o desprezo que nutre em relação às obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni), embora seja uma figura mais solitária do que aparenta. Roberto chama Bruno e deixa o estranho telefonar no interior da sua casa, com esta decisão a surgir como um momento-chave para o início de uma estranha relação de amizade onde existe muito e pouco a ligar estes dois personagens simultaneamente antagónicos e semelhantes.

Perante o pouco sucesso que obteve com a sua chamada telefónica, Bruno convence Roberto a ir beber ou comer qualquer coisa a algum lado, com o segundo a acabar por ser convencido, apesar de recear inicialmente as intenções do primeiro (algo exposto em voiceover). Aquilo que se segue é uma viagem louca e perigosa, no interior de um Lancia Aurelia descapotável, marcada por uma miríade de episódios inesquecíveis, com os espaços de Roma a serem utilizados com acerto, bem como as suas estradas, enquanto Bruno extravasa os sentimentos em pleno asfalto e os protagonistas deparam-se com uma série de figuras que representam as idiossincrasias do povo italiano. Não falta uma família que viaja numa carripana, um indivíduo a comer um pão enorme no interior do carro, um ciclista, mas também trocas de insultos e uma imensidão de transgressões cometidas por Bruno, com este indivíduo a colocar o quotidiano de Roberto em polvorosa, embora aprecie nitidamente a companhia do estudante. Bruno conduz a alta velocidade, muitas das vezes em contramão, desrespeita as autoridades, ironiza com aqueles que se encontram atrás de si, profere insultos, ouve as suas canções preferidas, tenta meter conversa com duas alemãs, efectua ultrapassagens mirabolantes, parecendo não ter medo de nada, pelo menos até ser confrontado com as consequências de alguns dos seus actos menos ponderados. Jean-Louis Trintignant consegue expressar a surpresa inicial de Roberto em relação a Bruno, com o actor a imprimir um estilo ponderado e tímido ao personagem que interpreta, um estudante que se envolve no interior de uma viagem rocambolesca praticamente por acaso, muitas das vezes sem estar convencido de ter efectuado a melhor opção até ser contagiado pelo seu companheiro de aventura, com o argumento a desenvolver assertivamente esta mudança. Trintignant e Gassman convencem o espectador da estranha dinâmica que se forma entre Roberto e Bruno, com a viagem efectuada pela dupla de protagonistas a trazer algumas descobertas e lições inesperadas, bem como a formação de uma amizade curta, mas intensa e inesquecível. A viagem é marcada por uma série de paragens que contribuem para que fiquemos a conhecer melhor quer a dupla de protagonistas, quer alguns familiares de Roberto, quer a esposa e a filha de Bruno. Os tios de Roberto habitam numa propriedade rural, situada num local perto de Grosseto, um espaço onde o protagonista viveu alguns episódios marcantes da sua infância, com este reencontro a contar com situações pontuadas pelo humor, pela nostalgia e a certeza de que a memória pode ser bastante traiçoeira. Diga-se que a visita a este local permite ainda que Roberto comece a reflectir sobre a sua vida, nomeadamente, sobre o seu passado, o presente e aquilo que planeou para o futuro ao mesmo tempo que compreende que os familiares não correspondem totalmente às memórias que guardava dos mesmos. Nem todas as recordações que guardamos de alguns espaços e de situações de outrora são tão apolíneas como as idealizamos, com Roberto a perceber isso mesmo quando reencontra os tios e descobre alguns segredos sobre os seus familiares, enquanto "Il sorpasso" deixa o espectador diante de uma das imagens de marca das comédias à italiana, ou seja, a capacidade de mesclar o humor com o drama.

A visita aos familiares de Roberto permite ainda que "Il sorpasso" se embrenhe temporariamente pela "Itália rural", com a dupla de protagonistas a deparar-se com uma festa onde os homens e a mulheres do campo se divertem de forma muito própria, com a viagem dos personagens interpretados por Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant a contribuir para que a dupla se envolva por diversos espaços italianos de características distintas. Outra paragem marcante, efectuada no âmbito desta viagem mirabolante e perigosa, acontece em Castiglioncello, um local onde Bruno reencontra a futura ex-mulher (apenas são casados no papel) e a filha. O reencontro de Bruno com as familiares permite exibir que estamos diante de um personagem mais complexo do que aparenta, com Gianna (Luciana Angiolillo), a esposa, a encontrar-se a tratar do divórcio, enquanto Lilli (Catherine Spaak), a filha do protagonista, uma adolescente de quinze anos, pouco contacta com o pai. Lilli encontra-se envolvida com Bibi (Claudio Gora), um indivíduo mais velho do que Bruno, com este último a não parecer aceitar inicialmente a relação, embora pouco ou nada consiga fazer para evitar a mesma, sobretudo quando ganha consciência que foi uma figura quase sempre ausente da vida da adolescente. A presença de Lilli permite que Vittorio Gassman explore um lado mais frágil do protagonista, bem como a procura que este indivíduo efectua para exibir uma atitude extrovertida, pouco contemplativa e aparentemente descomplexada para esconder algumas das suas fraquezas. Por sua vez, Bibi é um indivíduo completamente distinto de Bruno, surgindo como um empresário rico, que representa a segurança e a estabilidade que o segundo nunca conseguiu dar à filha. A casa de férias de Gianna e Lilli encontra-se situada perto da praia, com o protagonista a aproveitar a situação para se divertir neste espaço balnear, ou não estivéssemos diante de um indivíduo que não perde uma oportunidade para desfrutar da vida, mesmo quando leva um ou outro pontapé do destino. Estes reencontros permitem exibir uma faceta distinta dos protagonistas, com Roberto e Bruno a efectuarem imensas paragens ao longo desta jornada e a formarem laços que parecem aparentemente inquebráveis. Veja-se ainda quando frequentam um espaço nocturno onde Bruno dança com a esposa de um conhecido e acaba por se envolver em problemas, ou a ida a um restaurante no qual o personagem interpretado por Vittorio Gassman exibe o seu gosto por sopa de peixe, bem como pela funcionária do local. A viagem e as paragens contribuem para dar a conhecer um pouco mais sobre estas duas figuras peculiares, enquanto Roberto e Bruno protagonizam uma série de episódios marcantes, envolventes e perigosos, com ambos a surgirem como representantes da Itália deste período dos anos 60. O final é inesperado, trágico e doloroso, com Dino Risi a não ter problemas em mexer com os sentimentos do espectador, colocar um personagem diante das consequências dos seus actos pouco ponderados e desfazer uma dupla que tinha conquistado por completo a nossa atenção. É um final surpreendente, que quebra com a noção de que nada de mal aconteceria aos protagonistas, enquanto Dino Risi destrói por completo as expectativas do espectador, com o cineasta a surpreender e a tirar um coelho da cartola que contribui para "Il sorpasso" contar com um desfecho que perdura na memória, preenche a narrativa de desesperança e exibe paradigmaticamente que os actos perigosos podem trazer consequências gravosas.

No final, a tragédia sobrepõe-se aos momentos de humor, com o destino a ser implacável para com os personagens principais de "Il sorpasso", um dos grandes exemplares da "comédia à italiana". Diga-se que "Il sorpasso" conta com diversos elementos deste subgénero tipicamente italiano, tais como a capacidade de encontrar humor em situações trágicas, o drama no interior de um enredo aparentemente leve, os comentários do foro social, a representação de situações muito típicas da época, o final em que diversos personagens não ficaram melhor do que no início do filme, entre outros exemplos. A capacidade de encontrar humor na tragédia é desde logo visível na personalidade de Bruno, um indivíduo extrovertido, que parece contar com grandes amizades e saúde financeira, embora seja um "fura-vidas" solitário que tarda em encontrar estabilidade, tendo em Roberto um inesperado companheiro de viagens. Veja-se quando Bruno não reconhece a filha e tenta galantear a jovem até perceber que está diante de Lilli, um momento que tem tanto de trágico e patético como de cruel, permitindo expor o desfasamento deste indivíduo em relação à realidade e à família. Não faltam traços de drama a "Il sorpasso", bem como uma certa leveza, enquanto ficamos diante de um retrato de uma Itália em mudança, onde os homens e as mulheres contam com valores distintos em relação a um passado recente, com o "milagre económico" a não ter chegado a todas as pessoas apesar de ter afectado o território e boa parte dos comportamentos das suas gentes. Veja-se os elementos do campo a dançarem uma versão muito própria do twist, o gosto pelos carros e pela alta velocidade, a procura de alcançar estatuto social (como o primo de Roberto), as falsas aparências, o materialismo (visível em Bibi e na filha do protagonista), mas também a tentativa de desfrutar de toda uma conjuntura distinta, algo notório na figura de Bruno, um indivíduo magnético, imprevisível, quase sempre pronto a pedir dinheiro emprestado e a influenciar a vida de Roberto, um estudante que é apresentado a uma realidade diferente em relação ao mundo fechado no qual se tinha escondido durante um largo período da sua vida. Se Roberto pensa em compromissos a longo prazo, já Bruno pretende diversão no imediato, com a dupla a apresentar visões distintas da vida, pelo menos a nível inicial, com o segundo a influenciar e muito o primeiro. O argumento, escrito por Dino Risi, Ettore Scola e Ruggero Maccari, explora eficazmente a dinâmica entre Roberto e Bruno, bem como a personalidade de cada um dos personagens principais ao mesmo tempo que aproveita a faceta de road movie de "Il sorpasso" para deixar o espectador diante de uma miríade de episódios que nos dão a conhecer não só a dupla de protagonistas, mas também um território de Itália pontuado por diversas idiossincrasias. A própria banda sonora remete para os ritmos do início da década de 60, com o filme a contar com músicas tão marcantes como "Saint Tropez Twist" de Peppino di Capri, "Quando, quando, quando" de Emilio Pericoli, "Guarda come dondolo" de Edoardo Vianello, "Vecchio frac" de Domenico Modugno, entre outras que são utilizadas eficazmente ao serviço do enredo. Comédia à italiana com características de road movie, pontuada por uma dinâmica notável entre Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, "Il sorpasso" coloca-nos diante de dois indivíduos de personalidades distintas mas igualmente solitários, que efectuam uma viagem marcante, rocambolesca e intensa, onde confrontam o passado e o presente e vivem intensamente, até a desgraça chegar e Dino Risi desferir um murro no estômago do espectador. Não é possível esquecer o final, nem boa parte do filme, com Dino Risi a realizar uma obra cinematográfica que tem o mérito de ultrapassar as expectativas, desafiar o tempo e perdurar na memória.

Título original: "Il sorpasso".
Título em Portugal: "A Ultrapassagem".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Dino Risi, Ettore Scola, Ruggero Maccari.
Elenco: Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaak, Luciana Angiolillo, Claudio Gora.