21 março 2017

Resenha Crítica: "Le cose belle" (2013)

 "Em Nápoles os miúdos não dizem: 'Olá, como estás? Como está a tua família?!!!' Em Nápoles dizem: 'Oh, estamo-nos a cagar para a tua família!' Coisas assim.". É com estas palavras que Enzo Della Volpe descreve o território de Nápoles, um espaço pontuado por uma série de características muito próprias. Enzo é um dos elementos que se encontram em destaque ao longo de "Le cose belle", bem como Adele Serra, Fabio Rippa e Silvana Sorbetti, com o documentário realizado por Agostino Ferrente e Giovanni Piperno a abordar o quotidiano destas figuras quer em 1999, quer em 2013, com a cidade de Nápoles a surgir como o grande ponto de ligação e protagonista desta obra cinematográfica que descai para as fronteiras da docuficção. É um trabalho exemplar, por vezes cortante e doloroso, pronto a expor que os sonhos destes jovens nem sempre se concretizaram e a colocar o passado e o presente em diálogo. Alguns sonhos foram simplesmente agrilhoados ou desfeitos pelo destino, outros por uma série de opções pouco felizes, ou pela incapacidade dos protagonistas em desatarem o nó górdio colocado pela má sorte, com "Le cose belle" a contrastar a esperança, as expectativas e a ingenuidade de Adele, Fabio, Silvana e Enzo em 1999, quando estavam em plena adolescência, com a letargia e desesperança que consomem estas figuras em 2013. Agostino Ferrente e Giovanni Piperno contextualizam eficazmente quer o meio familiar destes jovens, quer as características muito próprias do território que os rodeia. Os sentimentos e as palavras são expostos de forma bem viva, praticamente sem qualquer travão, as detenções e os actos violentos são encarados como algo banal, enquanto que a cidade de Nápoles parece conter uma mescla de crueza e beleza que tanto compele os seus habitantes a sonharem como a enfrentarem o sabor amargo das desilusões inerentes à incapacidade de concretizarem os seus desejos. Diga-se que "Le cose belle" nem sempre é um filme fácil de acompanhar, ou o documentário não tivesse o condão de nos compelir a pensar sobre os nossos sonhos de outrora ao mesmo tempo que nos estimula a reflectir sobre aquilo que concretizámos ou não conseguimos alcançar ao longo da vida, enquanto somos colocados diante do diálogo entre o passado e o presente do quarteto de protagonistas. Adele, Fabio, Silvana e Enzo despertam facilmente a nossa curiosidade, mesmo quando percebemos que as suas vidas embateram numa encruzilhada demasiado difícil de sair. Uns perderam familiares, ou praticamente deixaram de falar com os mesmos, outros tiveram filhos e são obrigados a assumir responsabilidades para as quais não parecem preparados, ou contam com empregos que não satisfazem as suas almas, ou caíram num estado letárgico que consome o corpo e a mente.

15 março 2017

Resenha Crítica: "Ieri, oggi, domani" (Ontem, Hoje e Amanhã)

 Dotado de uma série de características das comédias à italiana, tais como a capacidade de mesclar o humor e a tragédia, a abordagem de temáticas de cariz social, os sentimentos expostos de forma exacerbada, os personagens que evidenciam um enorme desejo sexual, "Ieri, oggi, domani" consegue transmitir algumas das particularidades de Nápoles, Milão e Roma, com estas cidades a assumirem muitas das vezes um papel de relevo ao longo desta obra cinematográfica composta por três episódios realizados por Vittorio De Sica. A unir os três episódios encontram-se Marcello Mastroianni e Sophia Loren, cada um a interpretar um personagem distinto em cada capítulo de "Ieri, oggi, domani", com a dupla a exibir uma dinâmica sublime e uma versatilidade indelével quer quando forma um casal que concebe filhos a um ritmo desgastante, quer como dois amantes, quer como uma prostituta e um cliente muito peculiar. Marcello Mastroianni e Sophia Loren enchem o ecrã de carisma e talento, naquela que é a primeira colaboração da dupla com Vittorio De Sica (a actriz já tinha trabalhado com o cineasta em filmes como "L'oro di Napoli" e "La ciociara"), uma parceria que se repetiria em "Matrimonio all'italiana" e "I girasoli". As características dos personagens que Sophia Loren e Marcello Mastroianni interpretam são distintas, bem como os atributos de cada território onde se desenrola o enredo do filme. Veja-se a representação do território de Nápoles em "Adelina", o primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani", com Vittorio De Sica a transmitir a atmosfera deste espaço de forma bem viva e contagiante. Não falta a exposição das bancas de rua onde são vendidos produtos tão distintos como frutas ou cigarros contrabandeados, a exibição do mercado negro e dos edifícios e das cerimónias locais, com este espaço de Nápoles, em particular, o bairro de Forcella, a contar com um relevância indelével no interior da narrativa do primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani". Diga-se que "Adelina" traz um pouco à memória "L'oro di Napoli", uma longa-metragem realizada por Vittorio De Sica, lançada originalmente em 1954, que efectua um retrato vivaz da cidade de Nápoles e das suas gentes. Tal como nos seis episódios de "L'oro di Napoli", "Adelina" transmite as especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, igrejas e edifícios deste local.

12 março 2017

FESTin 2017 - Entrevista a Erico Rassi sobre "Comeback"

 Erico Rassi tem em "Comeback" um disparo certeiro na estreia como realizador de longas-metragens, com o cineasta a surgir como um nome a ter em grande atenção com este western canarinho pontuado por sentimentos contidos e emoções prontas a serem extravasadas. O Rick's Cinema aproveitou a presença de Erico Rassi na oitava edição do FESTin para entrevistar o cineasta sobre "Comeback", uma obra cinematográfica que nos coloca diante de Amador, um assassino que foi praticamente obrigado a retirar-se do ofício que preenche a sua alma. O comeback do título nasce da vontade do protagonista em saciar o monstro que o começa a devorar por dentro, ou não estivéssemos diante de um pistoleiro na fase crepuscular da sua vida que lida mal com o esquecimento e a insignificância. A interpretar Amador está Nelson Xavier, um actor que atribui ritmos muito próprios ao protagonista, bem como uma aura de experiência, impassibilidade e orgulho, com "Comeback" a efectuar um interessante estudo de personagem. Nesse sentido, seria praticamente impossível entrevistar Erico Rassi e não abordar a importância de Nelson Xavier na criação deste personagem: "O Nelson Xavier é essencial. Sem ele seria outro filme. Ele tem um olhar muito agudo sobre o Brasil. O Nelson encara o Brasil como um país precário, que ainda não consegue cuidar da população de um modo correcto e acaba por trazer isso para a composição dos personagens. Uma coisa que eu sinto que o Nelson Xavier compôs, apesar de não termos conversado especificamente sobre isso, é que ele trouxe essa precariedade de uma pessoa mais velha que vive num país como o Brasil.". Já o processo que conduziu à entrada de Nelson Xavier no elenco do filme foi comentado da seguinte forma: "O casting foi um pouco complicado. Nós não temos muitos actores mais velhos lá no Brasil. Enviámos o argumento para o Nelson, ainda que sem muitas expectativas. Sabíamos das nossas dificuldades. É o nosso primeiro filme e o Nelson Xavier não nos conhecia. Então mandámos o argumento para o Nelson ler e esperámos para ver o que é que aconteceria. Dois dias depois, o Nelson ligou a dizer que aceitava participar do filme. Essencialmente por causa de ter gostado do argumento. É muito difícil contar com o Nelson Xavier ao longo de quarenta dias no interior de Goiás. Ele mudou as datas de alguns trabalhos, deu prioridade ao nosso filme e dispôs-se a filmar durante esse período todo.".

10 março 2017

Resenha Crítica: "Quase Memória" (2016)

 Já imaginaram ter um encontro com o vosso "eu" mais jovem ou com o vosso "eu" mais velho? Carlos, o personagem principal de "Quase Memória", protagoniza um estranho encontro que decorre no âmago da sua mente, ou das suas memórias, ou da realidade peculiar que é criada no interior do enredo desta longa-metragem realizada por Ruy Guerra, um cineasta icónico do chamado Cinema Novo. Carlos, em idade mais avançada (interpretado por Tony Ramos), é colocado diante do seu "eu" mais jovem (interpretado por Charles Fricks), ou vice-versa, com o presente e o passado do protagonista a serem dispostos em diálogo, enquanto ficamos perante um estudo sobre a memória que joga com as regras e as barreiras cinematográficas. Nem sempre tudo resulta, com os trechos de algumas memórias a contarem com um tom demasiado artificial e pitoresco, algo que lhes retira uma certa força e contrasta com o forte impacto provocado pelo encontro entre Carlos Velho e Carlos Novo (vamos tratar os personagens com estes nomes para facilitar o ritmo do texto), embora exista algum sumo a ser espremido de "Quase Memória". A começar pela forma relativamente eficaz como são abordadas as questões relacionadas com as percepções que temos da memória, algo visível desde o primeiro terço de "Quase Memória", quando encontramos Carlos Velho e Carlos Novo a demonstrarem que guardam uma recordação distinta em relação a um episódio que envolve o pai de ambos. Diga-se que este episódio remete ainda para outra situação, nomeadamente, para o facto do personagem interpretado por Tony Ramos ter perdido praticamente o contacto com as suas recordações. Carlos Novo fica preocupado com o estado em que vai ficar no futuro, enquanto recupera, em conjunto com o seu "eu" mais velho, algumas memórias relacionadas com o progenitor. Ernesto (João Miguel), o pai de Carlos, surge como uma figura central do enredo quer por supostamente ter enviado um estranho envelope aos personagens interpretados por Tony Ramos e Charles Fricks, quer pelo facto desta missiva contribuir para que os protagonistas recordem o progenitor, um jornalista que faleceu há cinco anos. O envelope aparece misteriosamente no interior da sala de Carlos e contribui para um ressurgir de memórias que pareciam encobertas por esse grande nevoeiro que é a passagem do tempo. Diga-se que esse nevoeiro é exposto desde o prólogo do filme, quando Ruy Guerra larga o espectador no meio de um pântano dotado de cores frias e imensa névoa, algo que transmite a incerteza em volta das memórias das duas vertentes do protagonista, com Carlos Novo e Carlos Velho a serem colocados perante uma série de situações de outrora, bem como com a contingência de perceberem que nem sempre conviveram pacificamente com estas recordações.

08 março 2017

Entrevista a Daniela Love sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 As longas-metragens de terror portuguesas, ou propositadamente de terror, escasseiam, com "A Floresta das Almas Perdidas" a surgir como um exemplar raro no panorama cinematográfico nacional. O filme teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto, tendo posteriormente sido exibido no FESTin. Foi exactamente no âmbito do FESTin que aproveitámos para entrevistar Daniela Love, a protagonista de "A Floresta das Almas Perdidas". A escassez de longas-metragens de terror nacionais foi um tema abordado, nomeadamente, as razões para não se arriscar no desenvolvimento de filmes do género. Embora tenha procurado evitar abordar questões relacionadas com o mercado, Daniela Love salientou que "se se fizessem mais filmes de terror, se calhar haveria mais pessoas a vê-los. E, se houvesse mais pessoas a vê-los haveriam mais filmes de terror". Nesse sentido, "A Floresta das Almas Perdidas" pode servir como um exemplo de que as longas-metragens de terror nacionais são rentáveis, embora este género continue a surgir em bom ritmo no formato de curtas-metragens. Daniela Love já participou em diversas curtas-metragens, inclusive de terror, tais como "M is For Mail", onde interpretava uma personagem que contribuía para acelerar a morte alheia, um pouco à imagem daquilo que acontece com Carolina, a protagonista de "A Floresta das Almas Perdidas", embora as duas figuras femininas contem com características bem distintas. Diga-se que Carolina é uma personagem que tem um grande impacto ao longo de "A Floresta das Almas Perdidas", sobretudo a partir do momento em que o enredo assume uma faceta slasher, algo que nos conduziu a questionar a actriz sobre os desafios que encontrou a interpretar a protagonista desta recomendável longa-metragem. De acordo com Daniela Love, "antes da faceta slasher dela, o meu principal desafio foi entender a Carolina e as suas motivações. É uma miúda hipster e inconsequente, que se aproveita da fragilidade das outras pessoas. Se pensarmos muito bem, ela não tem um trauma que levou àquilo. Ela basicamente é assim porque pode ser assim. Foi isso que me levou algum tempo a perceber. A parte slasher, em que ela começa efectivamente a matar pessoas, foi a que gostei mais e a que tive mais facilidade em trabalhar."

FESTin 2017 - Entrevista a Hugo Prata sobre "Elis"

 O Rick's Cinema aproveitou a presença de Hugo Prata no FESTin para efectuar algumas perguntas ao realizador de "Elis", uma obra cinematográfica de pendor biográfico sobre Elis Regina. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos como a selecção das canções que integram o filme, a preparação de Andreia Horta para o papel, as dinâmicas entre os elementos do elenco, a necessidade de colocar o público brasileiro a contactar com as suas origens, o grande fulgor do cinema canarinho, entre outros assuntos. Vale a pena salientar que "Elis" é o filme de encerramento da edição de 2017 do FESTin, um certame que continua a trazer para Portugal alguns bons exemplares do cinema brasileiro. P.S: O poster do filme vai ser substituído brevemente por uma fotografia do realizador.

Rick's Cinema: O FESTin tem procurado valorizar o cinema em língua portuguesa e trazer para Portugal alguns bons exemplares do cinema brasileiro. Já conhecia o festival? Quais são as primeiras impressões que tem retirado do festival?

Hugo Prata: Fiquei muito honrado quando recebi o convite da Adriana Niemeyer. Ouço falar sempre muito bem do festival. É uma honra ser convidado para ter o filme de encerramento. Vamos encerrar o festival a 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, acho que é uma homenagem à altura da Elis Regina.

RC: Num determinado momento de "Elis", encontramos a personagem interpretada por Andreia Horta a criticar a política das editoras e a salientar que "(...)  quando você vai tentar novos compositores, as gravadoras não deixam, não querem experimentar (...). O Hugo Prata tem em "Elis" a sua primeira longa-metragem como realizador. Embora o filme aborde épocas diferentes e meios distintos, também sentiu essas dificuldades para conseguir realizar a sua primeira longa-metragem?

HP: Sim e não. É um facto que é muito difícil conseguir financiar qualquer longa-metragem tanto no Brasil como em Portugal ou até nos EUA. É uma pipa de massa. Nesse aspecto é sempre muito difícil. É o meu primeiro filme, é verdade, então as pessoas em geral não conheciam o meu trabalho em longas-metragens, mas ao mesmo tempo tinha a Elis Regina como um nome muito conhecido, muito carismático no Brasil. Diria que foi um processo difícil, mas normal.


RC: A Elis Regina é um ícone da música brasileira, um furacão que continua a mexer com as emoções de imensas pessoas, apesar da sua morte bastante precoce. O que o atraiu na figura de Elis Regina para realizar uma longa-metragem sobre este ícone da música brasileira?

HP: As suas características enquanto personagem: a sua força, o seu arco dramático, o seu carisma, aquilo que ela representava, o temperamento difícil (a alcunha de "Pimentinha"), ser controversa. Isso é sempre muito rico numa personagem. Ela lutou muito em anos nos quais era preciso muita força, eram os anos de ditadura no Brasil. Esse aspecto emocional e a vertente musical interessaram-me muito. Ela traz uma bagagem cultural muito forte no Brasil, tem músicas muito importantes para o período.


RC: Pegando na deixa da música. As músicas são uma componente muito relevante de "Elis". Qual foi o critério seguido para seleccionar as canções que integram o enredo do filme?

HP: Ah, isso foi uma das partes difíceis. As músicas tinham que entrar, levar a história para a frente e fazerem sentido no guião. Não queria que fossem apenas homenagens, algo que seria fácil, já que a Elis Regina tem muitas músicas importantes, que toda a gente iria gostar de ver. Tentámos nos cingir às canções que faziam sentido naquele momento da dramaturgia e levassem a dramaturgia para a frente. Algumas canções importantes ficaram de fora, mas é o preço a pagar na hora de fazer dramaturgia.

06 março 2017

Resenha Crítica: "Curumim" (2016)

 Realizado com mestria, inteligência e sentido de ritmo por Marcos Prado, "Curumim" evita percorrer o caminho fácil de expor a história de Marco Archer, um traficante e piloto de asa delta que foi condenado à pena de morte na Indonésia, como se este fosse um anti-herói romântico ou um indivíduo completamente imoral, com o cineasta a preferir prosseguir por uma trajectória mais pertinente e complexa que passa por não julgar a figura que dá o nome ao título deste documentário. Cabe ao espectador formar uma opinião em relação a Marco Archer, mais conhecido como Curumim, uma tarefa assaz complicada, ou não estivéssemos diante de uma figura que está longe de poder ser encarada meramente a "preto e branco". A descrição efectuada por Ade Tiro, a esposa de Juri Angione, um italiano que foi amigo e colega de prisão de Marco Archer, traduz um pouco aquilo que nos é dado a conhecer sobre Curumim, nomeadamente, "Ele é muito engraçado. Tem a personalidade de uma criança. Ele nunca está triste ou feliz". Com uma personalidade bastante cinematográfica, contendo no interior do seu ser uma série de defeitos carregados e um feitio peculiar, Marco Archer é exposto com um elemento que tanto tem de infantil como de trágico e pouco razoável ao longo deste documentário que mescla entrevistas (a antigos colegas do protagonista no cárcere, a amigos, conhecidos e outras figuras), vídeos filmados "à socapa" por Curumim no interior da prisão (com este indivíduo a exibir um grande cuidado quer com a colocação da câmara, quer em expor parte do seu quotidiano no interior do instituto prisional) e material de arquivo (cartas, reportagens, fotografias), enquanto coloca o espectador diante desta estranha figura que tanto repele como desperta a atenção. É visível que existiu toda uma pesquisa sobre Curumim e o meio que rodeou este elemento no período em que esteve enclausurado na prisão de Cilacap, situada na Ilha de Java, enquanto aguardava a execução, com o documentário a evitar abordar os assuntos pela superfície. Marco Archer foi detido no aeroporto internacional de Jacarta, em 2004, devido a transportar ilegalmente 13,5 Kg de cocaína. Após uma fuga com contornos de thriller de Hollywood, exposta de forma intensa e inquietante, Marco Archer foi preso e condenado à pena de morte devido a tráfico de droga, tendo sido executado a 17 de Janeiro de 2015, com "Curumim" a abordar uma série de assuntos relacionados quer com o protagonista, quer com a pena de morte, sempre sem procurar pregar ideias ao espectador. Nesse sentido, "Curumim" tem o mérito de permitir um debate interessante sobre assuntos como a pena de morte, ou a própria incoerência e cinismo das autoridades indonésias e do sistema jurídico local, com a prisão de Cilacap a surgir como um estabelecimento onde as drogas circulam com facilidade, sendo muitas das vezes difundidas pelos próprios guardas, algo exposto ao longo do documentário.

05 março 2017

Resenha Crítica: "BR 716" (Barata Ribeiro, 716)

 Nos momentos iniciais de "BR 716", Felipe (Caio Blat), o protagonista do filme, salienta o seguinte: "(...) Tinha acabado de descobrir que existem três tipos de angústia. A que resiste ao primeiro whisky. A que resiste ao segundo whisky. E a que resiste ao terceiro whisky. Por isso foi muito difícil para mim escrever o roteiro desse filme que vocês vão assistir em seguida. Eu não lembro dos factos. Eu lembro de impressões. Eu não sei se as coisas aconteceram assim. Eu não lembro, eu estava bêbado porra. Bêbado não lembra". Está dado o mote para a atmosfera inebriante de "BR 716", uma obra cinematográfica de impressões e sensações, na qual imensas doses de álcool e tabaco são consumidas, enquanto ficamos diante de um grupo de jovens que quer viver e sentir, que ama, erra, trai e depara-se com situações inesperadas que acabam por marcar as suas vidas. Boémios, irreverentes, amantes de álcool, poesia e música, os elementos que compõem o grupo de conhecidos de Felipe protagonizam algo de muito especial e intenso, embora quase todos pareçam viver no interior de uma bolha que os impede de observar atentamente o tumulto político e social que os rodeia. Não é que estes jovens não saibam aquilo que os rodeia, embora tentem ignorar os acontecimentos, com "BR 716" a conter no seu texto e subtexto uma vertente política que é essencial para transmitir a atmosfera da época, com o enredo a desenrolar-se maioritariamente entre 1963 e 1964, ou seja, um período tumultuoso da História do Brasil que culminaria no Golpe de Estado e na instauração da Ditadura Militar (o momento em que Auro Moura de Andrade declara que a Presidência da República está vaga é simplesmente cortante). "Eles vão fechar a Câmara. Eles vão fechar o Congresso. Eles vão acabar com a liberdade de imprensa" diz Penan (Gabriel Antunes), um amigo de Felipe, num tom desencantado, enquanto visiona as notícias televisivas ("BR 716" mescla de forma competente alguns vídeos de arquivo com os trechos da obra cinematográfica). É o choque com a realidade, embora, durante boa parte do filme, Penan e os amigos pareçam encapsulados no interior de uma conjuntura distinta, com excepção dos momentos em que recebem as visitas de Silvio (Sergio Guizé), um jovem politizado, de esquerda, para quem "o povo unido jamais será vencido". Silvio é um dos vários integrantes deste grupo que tem no apartamento de Felipe a sua sede não oficial, uma situação que conduz o personagem interpretado por Caio Blat a estar quase sempre no centro dos acontecimentos, com o actor a corresponder com mais uma interpretação de grande nível. Caio Blat compõe um personagem que parece encapsular algumas das ansiedades, gostos, devaneios, sonhos e emoções dos jovens da época, enquanto o intérprete compõe uma figura que parece saído quer de um filme de François Truffaut (as traições atordoantes, as paixões que quase consomem a alma), quer de Woody Allen (o desejo, as frustrações de cariz sexual, a narração muito própria do protagonista, a música clássica), embora tenha sido inspirado, em parte, na juventude de Domingos de Oliveira, o realizador desta esfuziante obra cinematográfica.

03 março 2017

Resenha Crítica: "Comeback" (2016)

 A música toca, cheia de ritmos melancólicos, pronta a exacerbar a nostalgia de Amador (Nelson Xavier) em relação a um passado que conserva no interior da alma e de um álbum de recortes, embora os tempos sejam outros. É um presente onde o passado já não parece ter lugar, no qual a modernidade começa a consumir um território ainda preso aos tempos de outrora, seja na alma das suas gentes ou dos edifícios, ou das ruas. Por vezes parece quase que estamos diante do embate entre o Novo e o Velho Oeste que encontramos em "The Man Who Shot Liberty Valence", onde os cactos são domesticados em vasos e os cowboys como Tom Doniphon parecem começar a perder o lugar. Diga-se que Amador também aparenta concordar com a velha máxima de tornar as lendas em factos, com o seu álbum a conter uma mescla de verdades e mentiras sobre o passado, com Erico Rassi a realizar uma espécie de western dos tempos modernos que nos traz para o interior do quotidiano de um assassino que foi praticamente obrigado a retirar-se do ofício que preenche a sua alma. Amador procura não ser domesticado como o cacto, que é como quem diz, passar o resto da sua vida a frequentar bailes deprimentes destinados a idosos, apesar do tempo em que era temido parecer fazer parte do passado. O tempo de "Comeback" é outro, embora não seja assim tão diferente em relação ao passado, com Erico Rassi a colocar o espectador diante de um bairro da periferia de Anápolis, marcado pela introdução de slot machines, apesar da concorrência das jukeboxes, com Amador, o protagonista do filme, um antigo assassino a soldo, a ter de vender as primeiras a diversos bares e cafés a mando de José Marins (Gê Martu), mais conhecido como Tio, um criminoso que domina o bairro. Se existe algum bar ou café que não tenha uma slot machine, o Tio logo pede a Amador para convencer os proprietários a aceitarem a instalação destes aparelhos que fomentam o jogo ilegal. Os assassinatos a soldo deixaram de ser o crime da moda, com o jogo ilegal a surgir como uma forma de José Marins comandar o território, pese o desprezo que Amador nutre em relação ao seu superior. Um dos poucos elementos com quem Amador mantém uma relação de amizade é Davi (Everaldo Pontes), um antigo colega do protagonista, que se encontra internado em estado praticamente terminal, com o primeiro a visitar regularmente o segundo. O passado e o presente unem-se quando Amador é contactado pelo neto de Davi (Marcos de Andrade), um jovem algo inexperiente que procura aprender com o antigo pistoleiro. É uma relação quase de mestre e discípulo, embora o primeiro tarde em evidenciar as qualidades pelas quais ficou conhecido, enquanto o segundo nutre uma mescla de respeito e dúvida no que diz respeito a este criminoso experiente e, aparentemente, obsoleto. Nelson Xavier transmite a frieza e humanidade de Amador, bem como a experiência deste indivíduo que apenas parece estar bem a cumprir as funções de matador, ou a permanecer obscuro no interior de locais pouco iluminados. Note-se quando Amador dialoga sobre os seus feitos, tais como uma chacina que obrigou a uma mudança de atitude por parte de José Marins em relação aos assassinatos, com o tom de voz de Nelson Xavier a trazer ao de cima toda a frieza deste indivíduo que encara os homicídios com mais calma do que alguém que se encontra a barrar manteiga numa fatia de pão.

02 março 2017

Resenha Crítica: "Big Jato"

 Como um torpedo que atinge o espectador com uma explosão de prosa e poesia, violência e lirismo, intensidade e letargia, sonhos por cumprir e expectativas fossilizadas, música e silêncios, momentos pontuados pela subtileza ou pelo descomedimento, imagens oníricas e trechos marcados pela crueza, "Big Jato", a quarta longa-metragem realizada por Cláudio Assis, envolve-se pelas entranhas do sertão nordestino, enquanto nos apresenta a uma série de personagens que captam o nosso interesse, em especial o jovem Francisco (Rafael Nicácio), mais conhecido como Xico, um adolescente de quinze anos de idade que sonha ser poeta. Inspirado no livro homónimo, da autoria de Xico Sá, no qual o escritor e cronista "(...) cria, a partir de suas memórias, um retrato afetivo de uma juventude passada no Cariri", "Big Jato" é um retrato simultaneamente cru e sensível de um território nordestino que parece prender aqueles que se encontram no seu interior, com a saída deste local a ser encarada mais como um acto de coragem do que de acobardamento. A questão passa não só pela luta hercúlea contra as adversidades inerentes às características fechadas e desérticas de Peixe de Pedra, uma pequena cidade ficcional (real no contexto da narrativa), mas também pela sensação de que este território é pouco propício à abertura de horizontes quer pelas particularidades intrínsecas a este local, quer pela mentalidade pouco aberta dos seus habitantes. Veja-se o caso de Francisco (Matheus Nachtergaele), o pai de Xico, um indivíduo conservador, incapaz de aceitar a paixão do protagonista pela poesia. O quotidiano de Francisco divide-se entre trabalhos pouco gratificantes e mal pagos a limpar as fossas dos espaços que ainda não contam com saneamento básico e noites regadas a cachaça. Diga-se que a noite está longe de ser uma boa conselheira de Francisco, um indivíduo de bigode saliente, cabelo desgrenhado e gestos rudes, que se desloca regularmente no interior do Big Jato, um camião-pipa que é utilizado para limpar as fossas. É um trabalho que está longe de ser agradável quer pelo preconceito em volta do mesmo, quer pelos problemas de saúde que pode despertar, embora Francisco esteja longe de se envergonhar da profissão que lhe permite fugir à miséria. Este encontra-se muitas das vezes acompanhado por Xico, o único rebento que se parece interessar por esta actividade, com a dupla a envolver-se por espaços pontuados pelo cheiro a esterco e condições pouco recomendáveis.

01 março 2017

Resenha Crítica: "Animal Político" (2016)

 Absurdo, irreverente e saudavelmente alucinado, "Animal Político" tem o condão de nos surpreender com um enredo que tanto tem de cómico como de trágico e ensandecido. Não falta uma vaca com problemas existenciais, um robô chamado "ice-borg" que se define como "o melhor mecanismo de busca espiritual do deserto", um monólito idêntico àquele que encontramos em "2001: A Space Odyssey", bem como um delirante episódio que invade a narrativa e permite expor paradigmaticamente que "Animal Político", a estreia de Tião na realização de longas-metragens, gosta de desafiar as expectativas e a tolerância do espectador. Primeiro a proposta de Tião estranha-se, depois começa a entranhar-se, mesmo quando temos a noção de que a crise existencial da protagonista ganha mais interesse não tanto devido à densidade psicológica do argumento, mas sim pelo facto destes problemas estarem a ser sentidos por uma vaca. A alienação em relação ao espaço que nos rodeia, a necessidade de nos encontrarmos com nós próprios, a solidão e as diatribes de uma crise existencial surgem como temáticas e elementos abordados em "Animal Político", quase sempre a partir da perspectiva de uma vaca, embora estas problemáticas contem com um pendor universal que remete e muito para o nosso quotidiano. Nesse sentido, a proposta de "Animal Político" passa por fazer com que o espectador reflicta sobre algumas questões relacionadas com a realidade que o rodeia, ainda que a partir da perspectiva de uma vaca que começa a enfrentar problemas de ordem existencial. É em plena noite de Natal que a protagonista começa a ser consumida por um sentimento de vazio e de deslocamento, algo que a apoquenta, sobretudo por considerar, pelo menos a nível inicial, que tem tudo aquilo que é necessário para ser feliz. Esta vive com uma família, composta por um casal de humanos e uma rapariga, gosta de fazer compras em centros comerciais, frequenta regularmente o ginásio e aprecia ir ao cabeleireiro, com "Animal Político" a contar com alguns trechos onde absurdo toma conta do enredo, ou não estivéssemos a observar uma vaca a envolver-se por locais pouco habituais para a sua espécie. Tião não poupa no humor e nas situações a roçarem o absurdo, enquanto coloca a protagonista a entrar no interior de uma peculiar jornada de descoberta. Antes de tomar a decisão de partir para um território desértico, a protagonista ainda decide alterar os hábitos alimentares e praticar yoga, bem como visitar galerias de arte, estudar e experimentar substâncias estupefacientes, embora nenhuma destas acções resulte, pelo que a quadrúpede opta por medidas drásticas. Perante esta conjuntura, a protagonista decide viajar até uma zona desértica e afastar-se temporariamente da humanidade, com o trabalho de Marcelo Lordello e Gustavo Zahn na cinematografia a realçar as tonalidades mais acastanhadas da zona desértica, bem como a imensidão destes cenários de grandes dimensões.

28 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "O Outro Lado do Paraíso"

 Num determinado momento de "O Outro Lado do Paraíso", Fernando (Davi Galdeano), o protagonista e narrador desta delicada obra cinematográfica realizada por André Ristum, salienta o seguinte: "O sentido da vida pode não ser alcançar um sonho, mas apenas lutar por ele com todas as forças. E é essa busca incessante que nos alimenta, enquanto nos dura a vida". O comentário traduz praticamente na perfeição a mensagem de "O Outro Lado do Paraíso" e aquilo que move alguns dos personagens. Um desses personagens é Antonio Trindade (Eduardo Moscovis), o progenitor de Fernando, um indivíduo idealista e sonhador, que almeja não só conseguir dar uma vida melhor à sua esposa e aos seus três filhos, mas também encontrar um local quase perfeito para habitar com o seu núcleo familiar. Esse desejo parece concretizar-se quando, após receber um sinal quase bíblico, Antonio decide sair do interior de Minas para Brasília, um destino que parecia ser praticamente perfeito para construir o sonho de Evilath (não faltam referências bíblicas ao longo do filme, tais como a luta utópica por encontrar o país de Evilath e a figura de uma cobra que aparece em dois momentos fulcrais da vida de Antonio), ou o enredo não tivesse os primórdios da década de 60 como pano de fundo, ou seja, poucos anos depois da fundação desta cidade que ainda está a dar os seus primeiros passos. O contexto histórico fervilhante, tão propício a sonhos como a desilusões, pronto a despertar sentimentos exacerbados e uma multitude de sentimentos, raramente é esquecido ao longo do filme, bem como as referências religiosas e políticas, com André Ristum a deixar bem explícito que as contingências deste período mexeram e muito com o quotidiano da família de Fernando. Diga-se que André Ristum efectua um trabalho competente quer na procura de transmitir a atmosfera da época, quer na exposição dos acontecimentos históricos (sempre com algumas liberdades à mistura), com o realizador a utilizar assertivamente elementos como os jornais, a televisão e a rádio para exibir episódios que ocorreram no seio deste período de tempo conturbado da História do Brasil. Estes elementos surgem como um meio ágil e prático de fornecer informação sobre o contexto histórico, com André Ristum a recorrer muitas das vezes a materiais de arquivo, algo que permite evitar diálogos excessivamente expositivos sobre esta conjuntura política intensa. Estamos na antevéspera do Golpe de Estado de 1964, no Brasil, que culminou na destituição de João Goulart (Jango), o Presidente democraticamente eleito (entrou no cargo após a renúncia de Jânio Quadros, algo exposto em formato de animação nos créditos iniciais do filme), com "O Outro Lado do Paraíso" a transmitir as paixões e ódios despertadas por esta figura quase lendária da política brasileira, bem como o fervilhar de emoções que pontuou este período.

27 fevereiro 2017

Entrevista a José Pedro Lopes sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 Pontuado por uma realização segura de José Pedro Lopes e um desempenho digno de atenção por parte de Daniela Love, "A Floresta das Almas Perdidas" mescla assertivamente elementos de terror (inclusive conta com uma faceta slasher), drama familiar e até humor negro, tendo tudo para ganhar o estatuto de filme de culto. "A Floresta das Almas Perdidas", um exemplo raro de uma longa-metragem de terror "made in Portugal", teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto e prepara-se para ser exibido pela primeira vez em Lisboa na oitava edição do FESTin. O Rick's Cinema aproveitou o facto de "A Floresta das Almas Perdidas" estar quase a chegar ao FESTin (dia 5 de Março, às 17h30, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira) para entrevistar online José Pedro Lopes. O realizador demonstrou uma enorme disponibilidade para responder às questões, algo que podem comprovar já de seguida. 


Rick's Cinema - Uma das informações que encontramos no site da Anexo 82 é que os elementos da produtora resolvem os problemas como o Macgyver ("Resolvemos problemas como o Macgyver"). Produzir, realizar e escrever o argumento de uma longa-metragem independente de terror, ainda por cima em Portugal, envolve ter o talento, a criatividade e a capacidade de improviso de Macgyver?

José Pedro Lopes: Sim, mas com uma grande diferença em relação ao Macgyver que é que não conseguíamos fazer o filme sozinhos. Contamos com muitos apoios na sua produção de gente que trabalhou connosco, ou nos apoiou logisticamente, e inclusive um apoio financeiro da Fundação GDA. "A Floresta das Almas Perdidas" é uma produção pequena, e foi preciso planear tudo muito bem para conseguirmos fazer os 25 dias de rodagem (que se espalharam ao longo de dois anos) e que envolviam ir filmar a locais muito complicados como o cimo do Caramulo ou o Lago Glaciar de Sanabria.


RC: O José Pedro Lopes já realizou e produziu diversas curtas-metragens, algumas no registo do terror. É mais fácil produzir e realizar um filme de terror em Portugal ou conseguir convencer o público a assistir ao mesmo, ou encontrar meios de distribuição e exibição? 

JPL: Creio que Portugal não aposta no cinema de género.
  Há muita gente que gosta e o faz (basta ver todas as curtas fantásticas de género que surgem no Fantas e no Motelx todos os anos). Mas financiar um filme neste registo é muito difícil. E distribuí-lo também, porque o público de cinema é escasso e é bastante céptico face a cinema nacional e ao de género.
  No Fantas este ano tens uma retrospectiva de cinema de género argentino, e podes encontrar muitos filmes de género na América Latina, uns com mais sucesso que outros, e alguns a chegarem até às portas de Hollywood. Mas na América Latina há abertura a financiar cinema de género e a apoia-la. Muitos vem do fórum Blood Window da Ventana Sur. Outros são financiados por institutos de cinema. No Reino Unido ou no Canadá, mesmo na Europa de Leste, todos os anos filmes apoiados financeiramente por institutos são de género.
 O cinema português tem muitos filmes bons, e imensa gente com talento. Aliás, viu-se isso na Berlinale. Inclusive a querer fazer fantástico. Mas o cinema de género e de terror, em Portugal, não tem a oportunidade que merece.


RC: No "É a Vida Alvim", o José Pedro Lopes salientou que na Ásia os cineastas não são tão presos a realizar o filme num único registo. Podemos dizer que essa mistura de registos do cinema asiático foi uma das inspirações para "A Floresta das Almas Perdidas", onde encontramos uma mescla de terror, drama e salpicos de humor negro?

JPL: Definitivamente. "A Floresta" começa como sendo uma história de amizade, com algumas discussões bem portuguesas e divertidas. Mas é uma história sobe perda, e sobre uma família destruída. Mas tudo isto é abruptamente assombrado por elementos de terror que tomam controlo do filme. E é um filme com uma mensagem, sobre a sociedade actual. Parece um absurdo quando escrito mas quem vê o filme fica surpreendido pela extensa agenda narrativa e temática que tem.
 É sem dúvida uma mescla. Muito terror, e muito muito drama, mas também bastante humor lusitano.

Entrevista a Roni Nunes sobre a oitava edição do FESTin

 Lá diz o ditado popular, "a curiosidade matou o gato". No meu caso, a curiosidade sobre a oitava edição do FESTin conduziu-me a enviar treze questões a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ganha o blog com a disponibilidade do Roni Nunes para responder a esta imensidão de questões (a ideia inicial era fazer algo como "oito perguntas sobre a oitava edição do FESTin", mas, para não variar, falhei o objectivo), bem como aqueles que estiverem interessados em ler um pouco mais sobre este recomendável evento que dignifica e valoriza o cinema em língua portuguesa (vale a pena realçar que esta edição conta com exemplares bem interessantes do cinema brasileiro como "Comeback", "BR716", "Big Jato" e "Curumim", bem como obras cinematográficas nacionais como "A Floresta das Almas Perdidas" que pode, com o tempo, ganhar o estatuto de "filme de culto"). Ao longo da entrevista, Roni Nunes aborda questões relacionadas com a selecção das obras cinematográficas, a parceria com o FILMin, a retrospectiva dedicada a Margarida Gil, o novo formato da FESTinha, entre outros assuntos. Vale ainda a pena salientar que a oitava edição do FESTin começa a 1 de Março e decorre até ao dia 8 de Março.


Rick's Cinema - O ano passado salientaste que "trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival". A ousadia foi um dos motes para a selecção dos filmes que se encontram presentes na competição de longas-metragens? Quais foram as principais linhas definidoras para a selecção dos filmes da competição de longas-metragens? 

 Roni Nunes: A competição do FESTin tem feito uma percetível viragem no sentido de se tornar mais autoral, ousada e experimental – sem que o festival como um todo, no entanto, abra mão de outras das suas características, como a mostra de cinema mais acessível e o seu vínculo social. A ideia não é trazer filmes para nichos, mas sim obras que comuniquem com o público – mesmo tendo preocupações estilísticas e uma estética apurada.


RC: Fiquei com a sensação que a Competição de Longas-Metragens procura acima de tudo desafiar e estimular o espectador ao invés de se limitar a ir ao encontro do mesmo com conteúdos que são tão fáceis de digerir como de esquecer. Foi com esse intuito, para além das qualidades que observaram nos filmes, que seleccionaram obras como "BR 716", "Big Jato", "Comeback", "Animal Político", "Quase Memória"? 

RN: Posso afirmar sem grande modéstia que a competição do FESTin este ano, como também já o foi a do ano passado, é a melhor mostra de cinema brasileiro de Portugal. Como disse, ao mesmo tempo são trabalhos bastante acessíveis – como “BR 716”, “Big Jato” ou “Comeback”.


RC: A competição de longas-metragens mescla cineastas experientes como Domingos de Oliveira, Ruy Guerra e Cláudio Assis com estreantes na realização de longas-metragens, tais como Erico Rassi, Tião e José Pedro Lopes. Esta mescla de experiência e "sangue novo" foi algo propositado na elaboração da programação? O que nos podes dizer sobre as longas-metragens dos cineastas mencionados?

RN: Mesmo entre os primeiros que citas há uma diferença de gerações. O Ruy Guerra é um ícone do Cinema Novo, o Cláudio Assis é um génio do século XXI. Não foi algo pensado conscientemente, mas ainda bem que notou isso. É uma prova da vitalidade destas cinematografias. Em relação aos filmes, “Quase Memória” é uma meditação algo nostálgica sobre o passado, com um vai-e-vem na história bastante original – enquanto “BR 716” também vai ao passado mas, neste caso, através de uma leitura a “nouvelle vague” dos anos 60, as suas grandes esperanças e desilusões. Cláudio Assis e Tião são de Pernambuco, um dos grandes impulsionadores do cinema brasileiro do século XXI. Ambos são provocadores e filosóficos – com “Animal Político” recorrendo ao surrealismo e “Big Jato” ao artifício de dois irmãos, ambos vividos pelo magnífico Matheus Natchergaele, para fazer os seus “statements”. Érico Rassi vem das curtas-metragens e o seu primeiro filme é bastante seguro e tem outro intérprete genial, Nélson Xavier, enquanto a obra de José Pedro Lopes segue uma tendência muito contemporânea – a fusão de terror com arthouse.

21 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Matrimonio all'italiana" (Matrimónio à Italiana)

 Depois de um "divórcio à italiana" com a anuência de Pietro Germi, Marcello Mastroianni protagoniza um "casamento à italiana" com a bênção de Vittorio De Sica. O humor e a tragédia estão bem presentes em ambos os filmes, bem como os comentários de foro social e o talento de Marcello Mastroianni para o humor e a sua capacidade para desfazer e satirizar a sua faceta de galã. Se em "Divorzio all'italiana", Ferdinando Cefalù, um indivíduo mulherengo, tentou ser traído pela esposa de forma a aproveitar a lei e conseguir uma pena mais leve por eliminar a cara metade, já Domenico (Marcello Mastroianni), um dos protagonistas de "Matrimonio all'italiana", apresenta uma personalidade igualmente galanteadora e um bigodinho saliente, enquanto procura não contrair matrimónio com Filumena (Sophia Loren), uma mulher de uma beleza impressionante e um carácter forte. Vittorio De Sica ziguezagueia no tempo para nos apresentar aos meandros desta relação amorosa conturbada, onde o desejo é mútuo, embora o amor não seja demonstrado pela parte masculina, com Domenico, um homem de negócios bem sucedido e endinheirado, a tardar em reconhecer Filumena de forma oficial. Os enganos entre Filumena e Domenico são imensos, com ambos a cometerem actos dos quais se arrependem, apesar de não conseguirem controlar os ímpetos, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren a expressarem assertivamente a forma bem viva e muito própria como os personagens que interpretam expõem os sentimentos. Domenico é um indivíduo abastado e egocêntrico, que gosta de se vestir bem, fumar, cantar e desfrutar dos prazeres da vida. Filumena tem uma estampa vistosa, um olhar felino e uma personalidade mais complexa do que inicialmente pode dar a entender, com a personagem a apresentar uma evolução notória ao longo do enredo. De Sica joga com as convenções dos melodramas, com "Matrimonio all'italiana" a entrar pelos meandros deste género ao mesmo tempo que rejeita os seus ingredientes e assume a sua faceta de Commedia all'italiana. O humor e a tragédia reúnem-se, os comentários de foro social são notórios, o desejo sexual e as emoções são expostos de forma muito viva, embora não faltem momentos sentimentalmente poderosos, com "Matrimonio all'italiana" a não descurar algo de essencial, ou seja, a necessidade de existirem personagens fortes com os quais o espectador se importa e procura seguir, mesmo quando os protagonistas deixam a razão de lado para cederem ao sentimento ou ao seu ego. No início do filme, Domenico é chamado de urgência por Alfredo (Aldo Puglisi), o seu empregado, devido a Filumena, a mulher com quem mantém uma relação de longa data, estar gravemente doente. O momento é pontuado por algum humor, ou Domenico não estivesse acompanhado por Diana, a sua amante e empregada da caixa da sua pastelaria. Domenico não perde tempo e desloca-se até à sua habitação, onde ouve o médico a exibir uma preocupação notória em relação ao estado de saúde de Filumena. A face desta mulher encontra-se lívida e o seu olhar mortiço, com Domenico a parecer relativamente preocupado quando Filumena lhe pede para chamar um padre. A câmara foca o rosto de Domenico, com um close-up extremo a surgir como um meio para Vittorio De Sica expor que o protagonista entrou num momento introspectivo no qual se recorda do passado, nomeadamente, dos primeiros encontros com Filumena.