24 setembro 2016

Resenha Crítica: "La pazza gioia" (Loucamente)

 "La pazza gioia" não renega as suas origens, com Paolo Virzì a colocar-nos diante uma obra cinematográfica que combina praticamente na perfeição o humor e a tragédia, bem como alguns comentários de foro social e económico, algo que remete para as célebres comédias à italiana de cineastas como Mario Monicelli, Pietro Germi, Dino Risi, entre outros. Diga-se que o próprio Paolo Virzì parece assumir, ainda que indirectamente, essa tradição italiana ao comentar no press kit do filme: "É possível sorrir ou mesmo rir ao narrar o sofrimento, ou isso é visto como indecoroso e escandaloso? Oxalá assim seja, porque é isso que prefiro quando faço um filme, no fundo, é a única coisa que me interessa (...) Todos os filmes são uma terapia. Eles ajudam, não digo a curar, mas ao menos a suportar melhor as coisas da vida, sobretudo se conseguem desencantar a comédia precisamente em pleno drama e tragédia". No caso de "La Pazza Gioia" não ficamos diante de um indivíduo que pretende ser traído pela esposa para aproveitar as leis locais e assassiná-la, tendo em vista a contar com uma curta pena de prisão e casar com a sobrinha ("Divorzio all'italiana"), nem de uma siciliana que viaja em direcção a Inglaterra para se vingar do homem que a desonrou ("La ragazza con la pistola"), ou um mulherengo que apenas consegue colocar a "máquina" a trabalhar quando está em perigo ("Casanova '70"), mas sim perante Beatrice Morandini Valdirana (Valeria Bruni Tedeschi) e Donatella Morelli (Micaela Ramazzotti), duas figuras femininas emocionalmente despedaçadas que se conhecem no interior da Villa Biondi. Esta é uma instituição terapêutica destinada a mulheres que padecem de problemas mentais, sendo habitada por doentes, freiras e médicos. Se Giorgio Lorenzini (Tomasso Ragno), o director da instituição, é um indivíduo calmo e compreensivo, já Beatrice é um vulcão que expõe as suas emoções de forma bem viva, que não parece ter um travão que lhe permita discernir quando está a ser frontal ou inconveniente, enquanto mente, finge ter conhecimentos nos mais altos escalões da sociedade (veja-se a lista de supostos contactos que guarda no telemóvel), comete actos egoístas e atitudes mirabolantes, possui um guarda-roupa extravagante e esconde uma enorme fragilidade. Valeria Bruni Tedeschi arrasa por completo com uma interpretação plena de humanidade, sempre sem cair na caricatura, embora abrace os exageros de Beatrice, bem como a fragilidade desta mulher. As fragilidades de Beatrice apenas são conhecidas com o desenrolar do filme, bem como os problemas que povoam a mente de Donatella. Com o corpo repleto de tatuagens, roupas simples, uma silhueta magra e um rosto que espelha uma miríade de dores e desilusões, Donatella surge como uma figura problemática e deprimida, que inicialmente não parece disposta a formar grandes amizades, embora seja contagiada por Beatrice. A personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi aparece como uma figura espalhafatosa, pronta a vestir-se com roupas de tonalidades garridas, a mentir e a evitar que alguém fique no seu quarto, uma situação que muda quando conhece Donatella. Beatrice finge inicialmente que é uma médica, tendo em vista a conversar com Donatella e a descobrir informações sobre o passado desta mulher que acabou de chegar à instituição, num momento pontuado por imenso humor, enquanto Valeria Bruni Tedeschi exibe o lado descontrolado da personagem que interpreta. 

 Beatrice padece de distúrbio bipolar, conta com uma personalidade assaz peculiar e um passado problemático, com as suas atitudes descontroladas e extemporâneas a surgirem como uma espécie de capa que permite esconder a fragilidade desta mulher. Muitas das vezes acompanhada por um chapéu para não ser incomodada pelo excesso de raios solares, pouco dada a cumprir os trabalhos destinados aos pacientes da Villa Biondi, Beatrice nem sempre parece ter a consciência dos actos que comete, algo que se torna particularmente notório ao longo do filme, pelo menos até esta começar a exibir as suas fragilidades e a ser confrontada com a realidade. Diga-se que Paolo Virzì aborda eficazmente os traços que marcam quer a personalidade de Beatrice, quer de Donatella, com o cineasta a saber ainda desconstruir algumas ideias pré-concebidas que poderíamos ter em relação a estas mulheres e a explanar que estamos diante de duas protagonistas dotadas de alguma complexidade. Esta situação torna-se particularmente notória quando Beatrice e Donatella entram em fuga e iniciam uma aventura marcada por momentos que variam entre o rocambolesco, o cómico, o dramático e o embaraçoso, enquanto conhecemos mais elementos sobre estas personagens e os episódios que as conduziram à Villa Biondi. Virzì é capaz de utilizar esta faceta aparentemente tresloucada de Beatrice ao serviço do humor, beneficiando e muito do carisma e talento de Valeria Bruni Tedeschi, enquanto a protagonista procura proteger Donatella, ainda que de forma peculiar, com esta relação de amizade a começar de forma conturbada (não poderia ser de outra forma). Donatella é inicialmente representada como uma mulher de personalidade arisca e fechada, pouco dada a grandes demonstrações de alegria ou a fazer amizades, com a sua alma a encontrar-se mais ferida do que o seu rosto. Micaela Ramazzotti compõe uma personagem que aos poucos surpreende o espectador, com a intérprete a conseguir transmitir os problemas que envolvem Donatella e consomem a sua mente. Donatella é desprezada pelo pai (Marco Messeri) e pela mãe (Anna Galiena), conta com tendências suicidas e outrora cometeu um acto que lhe valeu a perda da guarda do filho, com "La pazza gioia" a deixar-nos não só com a noção de que esta mulher cometeu imensos erros, mas também que não foi ajudada ou compreendida por aqueles que a rodeiam. "La pazza gioia" procura que, quando chega o final do filme, tenhamos a perspectiva da complexidade do passado e do presente de Beatrice e Donatella, duas figuras femininas que cometeram muitos erros mas também foram sujeitas a situações capazes de abalar a mais sólida das montanhas. Ou seja, "La pazza gioia" não escamoteia o lado problemático destas mulheres, mas também não despreza que o destino nem sempre foi agradável para com as mesmas, com a dupla a surgir como um livro que é muitas das vezes julgado pela capa ao invés de ser avaliado pelo seu conteúdo. Nesse sentido, o argumento de Paolo Virzì e Francesca Archibugi consegue desenvolver eficazmente a dupla de protagonistas, bem como a dinâmica entre Donatella e Beatrice, com a saída temporária destas mulheres da Villa Biondi a prometer ficar na memória. Diga-se que o melhor que se pode dizer sobre "La pazza gioia" é que honra o legado de alguns do cineastas mencionados, com Paolo Virzì a realizar uma obra cinematográfica puramente italiana, que é capaz de despertar alguns risos através da tragédia, emocionar e a espaços afiar a faca sobre a política e a economia de Itália e da União Europeia. Mario Draghi, Silvio Berlusconi (indirectamente), o actual Governo italiano, as instituições bancárias, as supostas regras de conduta da sociedade são alvo de comentários escarninos, enquanto conhecemos duas figuras peculiares, diagnosticadas como mentalmente instáveis, embora os espaços e as gentes com que contactam também estejam longe de serem exemplares.

 Num determinado momento do livro "Pela Estrada Fora", Sal Paradise salienta o seguinte: "(...) as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo de artifício a explodir (...)". Paolo Virzì parece seguir essa cartilha em "La pazza gioia", com a jornada de libertação, confrontação dos demónios interiores e consciencialização por parte destas duas mulheres aparentemente loucas a ganhar características delirantes, dramáticas, prontas a fazer sorrir e comover o espectador. Donatella apresenta quase sempre uma postura mais lacónica, embora o seu passado seja devastador. Beatrice é a loucura em pessoa, apesar de também ter sofrido e feito sofrer imenso. A evasão destas mulheres é marcada por episódios tão distintos como roubo de veículos, compras em centros comerciais, a fuga de um restaurante após terem consumido um belo repasto sem terem dinheiro para pagar a conta, mas também situações completamente dramáticas, com Beatrice e Donatella a perceberem a importância da amizade que formaram ao longo do tempo em que estão juntas. Estas tentam escapulir-se dos elementos da Villa Biondi que procuram capturá-las, embora, a partir de um determinado momento, pareça certo que Beatrice e Donatella apenas estão a adiar o inevitável. Não é que o inevitável seja propriamente mau, com a jornada de Donatella e Beatrice a contribuir para que estas mulheres contactem de perto com os problemas e os erros do passado e do presente, enquanto convivem, discutem e tomam consciência de que precisam de mudar os seus comportamentos perante a vida e aqueles que as rodeiam. Esta fuga permite ainda que "La pazza gioia" ganhe características de road movie, com as personagens principais a deslocarem-se para uma miríade de locais, enquanto contactam com uma série de pessoas que marcaram as suas vidas, algo que dá espaço para o elenco secundário ter algum tempo para sobressair. Veja-se quando Beatrice contacta com Pierluigi Aitiani (Bob Messini), o seu ex-marido, um advogado famoso, com a primeira a ter arruinado a relação ao envolver-se com Renato Corsi (Roberto Rondelli ), um vigarista violento. Beatrice entra na casa de Pierluigi como se o tempo não tivesse passado e ambos continuassem juntos, com Valeria Bruni Tedeschi a exibir o lado extravagante e diva trash desta mulher que não tem problemas em roubar o ex-marido. Já o contacto entre Renato e Beatrice permite expor o lado mais frágil desta mulher, com Tedeschi a conseguir comover-nos com a mesma facilidade com que desperta o nosso sorriso. Donatella também tem os seus encontros marcantes. Esta reencontra a progenitora e o pai, com este último a exibir um descuido enorme para com a filha, apesar de Donatella guardar boas recordações deste indivíduo que a abandonou quando a protagonista ainda era uma criança. Ferida no corpo e na alma, o reencontro de Donatella com Maurizio, o dono do Seven Apples, um clube nocturno onde a primeira trabalhou, permite que Paolo Virzì exponha uma das figuras venenosas do passado da protagonista, bem como alguns dos erros que esta cometeu e as agressões a que foi sujeita. Maurizio é um indivíduo casado que nunca assumiu o filho que teve com Donatella, com esta a ter perdido a guarda do bebé após uma série de episódios devastadores que nos são dados a conhecer. Donatella pretende contactar com o filho, embora a tarefa seja legalmente impossível, enquanto nos deparamos com as forças e fraquezas desta mulher, com Micaela Ramazzotti a conseguir que o espectador compreenda esta figura puramente humana.

 A fuga de Donatella e Beatrice ganha assim uma série de episódios de características distintas, que permite dar a conhecer a personalidade da cada uma das protagonistas. A faceta de diva trash de Beatrice é desfeita quando está na presença de Renato. A depressão de Donatella tem raízes profundas e os seus problemas são bem mais complexos do que poderíamos esperar, com esta mulher a estar longe de poder ser simplesmente catalogada como um perigo para o filho e para a sociedade. É certo que errou imenso, mas existe algo mais complexo a envolver esta personagem. Por um lado queremos culpá-la e achamos que merece estar afastada do filho, por outro sentimos que esta cometeu uma série de erros e enfrentou um furacão de revezes que nem todos são capazes de aguentar. O argumento ajuda a tarefa de Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti, com as actrizes a contarem com material de sobra para criarem protagonistas capazes de despertarem um conjunto alargado de sentimentos no espectador. Tanto conseguimos rir com Donatella e Beatrice como recebemos murros no estômago que são desferidos de forma dolorosa, enquanto "La pazza gioia" aborda temáticas como a depressão, o distúrbio bipolar, os problemas entre pais e filhos, para além de desconstruir a imagem das protagonistas e apresentar uma viagem recheada de significado. O humor é encontrado na tragédia, enquanto a tristeza a espaços não conta com espaços para sorrisos, embora "La pazza gioia" seja uma obra cinematográfica que consegue balancear na justa medida a sua faceta dramática com algum optimismo. O argumento é exemplar, tal como o trabalho a nível da escolha do guarda-roupa, com as vestimentas de Donatella e Beatrice a contribuírem para exacerbar as características distintas das protagonistas. Beatrice veste-se quase sempre como se fosse uma diva sem palco para brilhar, enquanto Donatella surge quase sempre com roupas mais simples, informais e de tonalidades mais escuras. Diga-se que Beatrice não tem problemas em criticar o estilo da amiga, com as duas protagonistas a entrarem em algumas discussões, embora formem uma amizade forte e peculiar, surgindo como duas figuras trágicas, que são regularmente estigmatizadas e catalogadas de forma insensível por parte de alguns sectores da sociedade. Temos ainda o momento delirante em que Donatella e Beatrice fingem trabalhar como figurantes de um filme, utilizando as roupas das personagens, enquanto roubam o carro e parecem saídas de "Thelma & Louise". No caso do filme realizado por Ridley Scott, uma viagem iniciada por duas amigas logo se transforma numa fuga às autoridades, enquanto estas se deslocam por uma miríade de locais, contactam com uma série de pessoas e ficamos a conhecer diversos elementos sobre a inesquecível dupla de protagonistas, com "Thelma & Louise" e "La pazza gioia" a partilharem não só a faceta de road movie mas também o facto de contarem com figuras femininas complexas e marcantes como personagens principais. Com uma construção hábil da dupla de protagonistas, duas mulheres que tanto têm de frágeis como de fortes, uma interpretação fulgurante por parte de Valeria Bruni Tedeschi e um desempenho sublime de Micaela Ramazzotti, "La pazza gioia" procura fugir a catalogações fáceis sobre os doentes do foro mental, enquanto nos coloca diante de uma viagem intensa e marcante, dotada de episódios de características díspares e inesquecíveis, com Paolo Virzì a criar uma obra cinematográfica dotada de enorme humanidade, que conta com alguns traços das boas comédias à italiana, ou não estivéssemos diante de um filme que tanto tem de cómico como de dramático, com o humor a ser encontrado muitas das vezes na tragédia.

Título original: "La pazza gioia".
Título em Portugal: "Loucamente".
Título no Brasil: "Loucas de Alegria".
Realizador: Paolo Virzì.
Argumento: Paolo Virzì e Francesca Archibugi.
Elenco: Valeria Bruni Tedeschi, Micaela Ramazzotti, Roberto Rondelli, Bob Messini, Tommaso Ragno, Marco Messeri, Anna Galiena.

22 setembro 2016

Resenha Crítica: "Perfetti sconosciuti" (2016)

 Três casais decidem reunir-se para um jantar de convívio aparentemente inócuo e rotineiro, tendo em vista a trocarem uns "dedos" de conversa, com o sexteto a contar ainda com a companhia de um amigo que mantém uma relação pontuada por algum mistério. No entanto, um jogo promete mudar por completo os planos iniciais destes personagens, bem como a percepção que os protagonistas de "Perfetti sconosciuti" tinham formado em relação aos seus pares, pelo menos até Paolo Genovese, o realizador, puxar o tapete ao espectador e brindá-lo com uma reviravolta inesperada. Paolo Genovese concede espaço para que os intérpretes que integram o elenco principal consigam sobressair, com cada elemento a compor um ou uma personagem que guarda uma série de segredos e conta com uma personalidade muito própria, enquanto o cineasta gere os ritmos da narrativa de forma exímia. Aos poucos, conhecemos os segredos destes personagens, enquanto estes se deparam com factos que desconheciam sobre os seus pares. Tudo começa com um simples jogo, após uma apresentação rápida e eficaz dos personagens, com o desafio a consistir em que cada um dos convidados exiba as mensagens recebidas nos respectivos telemóveis ou receba as chamadas em alta voz. Parecia uma simples brincadeira, ou um jogo relativamente infantil, mas tudo se transforma numa situação incómoda para quase todos os elementos do grupo, com o jantar a trazer um fervilhar de emoções. Se um eclipse lunar contribui para que a Lua deixe de ser temporariamente visualizada pelos protagonistas, já um simples telemóvel permite que imensa informação seja revelada. Não faltam descobertas sobre traições, jogos de cariz sexual, a revelação da verdadeira orientação sexual de um personagem, entre outros exemplos que prometem mexer com as emoções dos protagonistas. No final, Paolo Genovese tira-nos o tapete, deixa-nos desamparados, expõe que tudo aquilo que percepcionámos foi bem mais complexo do que poderíamos esperar e exibe que a metáfora do eclipse não foi colocada na narrativa por mero acaso, com "Perfetti sconosciuti" a fazer justiça ao jogo dos protagonistas e a expor que algumas revelações podem provocar um impacto indelével. Quantos de nós estaríamos dispostos a exibir todo o conteúdo dos nossos telemóveis? Quais os segredos que escondemos daqueles que nos são mais próximos? Será possível manter uma relação estável, seja esta de amizade ou amorosa, contando sempre a verdade? "Perfetti sconosciuti" surge como um retrato relevante e importante sobre as relações contemporâneas, bem como da importância da tecnologia no nosso quotidiano, com um simples telemóvel a poder conter uma bomba atómica capaz de arrasar por completo com um envolvimento amoroso. Paolo Genovese sabe gerir o ritmo das revelações e da narrativa, com os momentos de humor a serem eficazmente rompidos com trechos pontuados pelo mal-estar e tensão, com o drama a envolver um filme que a espaços conta com pequenos salpicos de comédia, enquanto os vários elementos do elenco parecem compreender praticamente na perfeição a necessidade das dinâmicas colectivas estarem completamente afinadas para que o talento individual de cada actor e actriz sobressaia. É como se estivéssemos diante de uma pequena orquestra, conduzida com mestria por Paolo Genovese, com o cineasta a assumir quase o papel de Roman Polanski e a aproveitar de forma exímia as possibilidades de deixar um conjunto restrito de personagens num espaço fechado, enquanto uma miríade de sentimentos e revelações surgem ao de cima numa noite que promete deixar marcas. Alguns elementos de cada casal apresentam maiores afinidades entre si, outros parecem contar com um nível distinto de intimidade, embora seja certo que quase todos guardam segredos dos restantes, com Paolo Genovese a conceder espaço para que cada actor e actriz se destaque e explore a personalidade do personagem que interpreta. O elenco é composto por um conjunto de actores e actrizes de valor insuspeito, com a maioria a ter espaço para sobressair ao longo desta obra cinematográfica que se desenrola maioritariamente na casa de Eva (Kasia Smutniak) e Rocco (Marco Giallini).

Rocco e Eva organizam o jantar, com a segunda a surgir como uma psicóloga incapaz de compreender a filha adolescente, enquanto o primeiro é um cirurgião que mantém uma relação de alguma amizade com a jovem, com o casal a contar com um matrimónio aparentemente estável, apesar de esconderem alguns segredos um do outro. A decoração da habitação de Eva e Rocco é reveladora do estatuto de classe média/alta deste casal, bem como da maioria do grupo de amigos que participa neste jantar. É na casa de Eva e Rocco que se reúnem mais dois casais, nomeadamente, Bianca (Alba Rohrwacher) e Cosimo (Edoardo Leo) bem como Lele (Valerio Mastandrea) e Carlotta (Anna Foglietta), para além de Peppe (Giuseppe Battiston), com este último a não trazer a sua suposta companheira. O jantar é regado a bom vinho, comida e o mencionado jogo, com a narrativa a ganhar contornos gradualmente fervilhantes, enquanto o espaço da casa começa a ser contaminado por uma atmosfera claustrofóbica, com todos os personagens principais a serem obrigados a conviverem com o inevitável: a revelação de diversos segredos que procuravam esconder. O jogo partiu de uma ideia de Eva, embora a própria tenha os seus esqueletos no armário, com o argumento de Paolo Genovese, Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini e Rolando Ravello a apresentar uma coesão latente (algo raro quando estão envolvidos tantos elementos) e a permitir que o cineasta explore estas intrigas entre amigos, bem como entre cônjuges. Como encarar a notícia de que a amante do esposo está grávida? Será uma boa ideia trocar de telemóvel com um amigo com uma rotina aparentemente desprovida de interesse? Como reagir à notícia de que um amigo de longa data é homossexual? A atmosfera torna-se gradualmente mais opressora, com a cinematografia a contribuir para essa sensação, enquanto as revelações contam com o tempo suficiente para serem desenvolvidas e ganharem impacto junto do espectador e dos personagens. Revelar mais do que aquilo foi mencionado ao longo deste texto seria estragar o prazer da primeira visualização de "Perfetti sconosciuti", embora a segunda visualização, após a descoberta das revelações, traga todo um novo conjunto de elementos que permitem valorizar ainda mais esta obra cinematográfica tipicamente italiana onde a tragédia e a comédia se juntam. Junte-se a tudo isto um elenco onde Alba Rohrwacher, Edoardo Leo, Valerio Mastandrea, Anna Foglietta, Giuseppe Battiston, Kasia Smutniak e Marco Giulliani têm espaço para sobressaírem e comporem personagens de relevo e "Perfetti sconosciuti" ganha rapidamente o estatuto de mais uma pérola oriunda de Itália. Alba Rohrwacher como uma veterinária recém-casada, que confia em demasia no esposo e parece apresentar alguma afinidade com o mesmo. Edoardo Leo como um taxista que tarda em encontrar estabilidade nos negócios e nas relações, algo que lhe promete trazer problemas. Valerio Mastandrea e Anna Foglietta destacam-se como um casal que se encontra unido há dez anos, com Lele e Carlotta a contarem com dois filhos e muitos segredos por revelar, bem como diversos problemas que começam a ser exibidos logo na apresentação rápida dos personagens, algo que que ocorre nos momentos iniciais do filme. Diga-se que Paolo Genovese não perde tempo a efectuar um retrato geral dos protagonistas e da intimidade de cada um, até começar a desenvolver gradualmente os personagens e a expor os seus segredos, com esta construção competente dos elementos que povoam a narrativa a contribuir e de que maneira para exacerbar o impacto dos acontecimentos ocorridos. Vale ainda a pena destacar Giuseppe Battiston como Peppe, um professor desempregado que supostamente tem um novo caso amoroso com uma mulher, tarda em encontrar um emprego que lhe agrade e tem uma aplicação específica no telemóvel para efectuar exercícios de X em X minutos, tendo em vista a perder peso.

 Giuseppe Battiston interpreta uma das várias figuras complexas de "Perfetti sconosciuti", com Peppe a permitir abordar temáticas como a homossexualidade, a insegurança em revelar a orientação sexual, a procura de contar com um aspecto que seja bem visto pela sociedade, entre outros exemplos, enquanto o actor tem uma interpretação de relevo. Todos estes elementos mencionados são amigos de longa data, ou conhecem-se há tempo suficiente para não terem problemas em disparar diálogos a espaços inconvenientes, embora o jogo prometa mudar a percepção que têm uns dos outros ou, pelo menos, permite que o espectador descubra alguns segredos relacionados com os protagonistas. Um dos vários méritos de Paolo Genovese passa por conseguir que compremos a ideia de que estes personagens estão a receber a informação ao mesmo tempo que o espectador, com o cineasta a contar com um domínio notório dos ritmos da narrativa, bem como da mise-en-scène, com os cenários, o trabalho dos actores, os planos, a contribuírem para que tudo funcione. Os vários espaços da casa de Eva e Rocco são utilizados, ainda que para objectivos distintos, com a habitação a surgir quase como uma personagem no interior da narrativa. Veja-se a sala de jantar, com os sete convidados a reunirem-se no interior da mesma, enquanto trocam conversas aparentemente inócuas, até o ambiente relativamente aprazível começar a aquecer, ou a forma como a casa de banho serve para Bianca extravasar os seus nervos. Inicialmente quase todos os personagens parecem apresentar uma confiança desmedida de que não contam com segredos comprometedores, pelo menos até estes começarem a ser revelados e a provocarem incómodos. Veja-se quando um dos personagens exibe a sua homofobia, ou uma confusão conduz um elemento a perceber o quão dolorosos podem ser os preconceitos contra os homossexuais, ou a exposição de que hoje em dia, ainda que tenhamos uma miríade de aparelhos e aplicações que permitam facilitar o diálogo, parecemos imensamente afastados daqueles que nos são próximos. Esse afastamento é visível nos segredos que estes personagens descobrem, com tudo e todos a parecerem contar com os seus esqueletos no armário e uma imensidão de receios, com Paolo Genovese a explorar esta situação com classe, inspiração e confiança. Entre o estudo sobre as relações modernas, o drama, a comédia e o comentário contundente sobre a nossa sociedade, "Perfetti sconosciuti" é uma pequena pérola que sabe conjugar um elenco principal composto maioritariamente por sete elementos, com tudo e todos a terem espaço para sobressair, bem como os aparelhos electrónicos que são utilizados, com as novas tecnologias a surgirem como uma fonte de aproximação, afastamento e imensos segredos.

Título original: "Perfetti sconosciuti".
Título em inglês: "Perfect Strangers".
Realizador: Paolo Genovese.
Argumento: Paolo Genovese, Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini, Rolando Ravello.
Elenco: Giuseppe Battiston, Anna Foglietta, Marco Giallini, Edoardo Leo, Valerio Mastandrea, Alba Rohrwacher, Kasia Smutniak.

20 setembro 2016

Resenha Crítica: "Julieta" (2016)

 Melodrama pontuado por uma estrutura narrativa relativamente episódica, cenários prontos a adensarem os estados de espírito dos personagens e boas interpretações por parte de Emma Suárez e Adriana Ugarte, "Julieta" aborda a procura da protagonista em exorcizar alguns dos seus fantasmas interiores, enquanto escreve um diário, ou um livro de memórias, onde expõe diversos episódios sobre o seu passado. A depressão parece consumir o corpo e alma desta personagem que empresta o nome à vigésima longa-metragem realizada por Pedro Almodóvar, com Julieta a surgir como a protagonista, narradora e confidente do espectador. Conhecemos a faceta de Julieta como mulher solteira, namorada, esposa, mãe, filha e amiga, com Emma Suárez (Julieta no presente) e Adriana Ugarte (Julieta no passado) a conseguirem expressar os diferentes estados de espírito desta personagem ao longo do tempo. No presente, Julieta encontra-se a preparar uma mudança para Portugal, contando com a companhia de Lorenzo (Darío Grandinetti), o seu namorado. Lorenzo é um escritor de personalidade ponderada, com Darío Grandinetti a imprimir uma serenidade latente ao personagem que interpreta, uma figura que assume uma importância vital na vida de Julieta, sobretudo no terceiro acto do filme. A casa de Julieta conta com uma decoração relativamente moderna e impessoal (veja-se as tonalidades brancas das paredes, quase como se esta não quisesse deixar uma marca na habitação), uma estatueta com motivos fálicos, uma série de livros, diversos quadros e um espaço vermelho na cozinha que adensa o lado mais inquieto da alma da protagonista. Esse lado inquieto e turbulento surge ao de cima quando Julieta reencontra Beatriz (Michelle Jenner no presente; Sara Jiménez nas cenas do passado), uma amiga de infância da filha da protagonista. Beatriz revela que Antía (Priscilla Delgado durante a adolescência de Antía; Blanca Parés como a personagem aos dezoito anos de idade), a filha de Julieta, tem três rebentos (dois rapazes e uma rapariga), com a protagonista a fingir que se encontra informada sobre a situação, embora não contacte com a descendente há doze anos. Tudo muda radicalmente. A aparente felicidade de Julieta dá lugar a sentimentos como desilusão, tristeza, melancolia e dúvida, com as dores do passado a invadirem o presente, algo que conduz esta mulher a desistir de viajar para Portugal. Lorenzo fica desiludido e surpreendido com toda esta mudança comportamental de Julieta, com a protagonista não revelar inicialmente as razões para ter abandonado a decisão de deixar Madrid. Emma Suárez consegue transmitir a mágoa indelével da protagonista em relação ao afastamento da filha, com Julieta a padecer de uma depressão que teima em dar sinais de vida e exacerba a fragilidade emocional desta figura feminina que opta muitas das vezes por manter uma postura silenciosa e introspectiva. Quais as razões para mãe e filha se terem afastado? Pedro Almodóvar incute algum mistério em relação aos motivos que conduziram a este afastamento entre mãe e filha, enquanto nos dá a conhecer a protagonista e algumas figuras que a rodeiam, com Emma Suárez e Adriana Ugarte a efectuarem uma composição competente da personagem do título. Suárez sobressai desde logo quando contrasta com facilidade a aparente felicidade de Julieta com o sentimento de tristeza que invade a protagonista, quase como se Beatriz tivesse aberto uma cicatriz de uma ferida mal sarada. A alma de Julieta parece tão despedaçada como uma fotografia que esta mulher guarda no interior de um envelope azul. Rasgada em diversos pedaços, a fotografia reúne Julieta e a filha, duas figuras separadas pelo destino e por decisões nem sempre compreensíveis, com a protagonista a decidir escrever um diário onde pretende abordar todos os episódios relevantes da sua vida, tendo em vista a abrir a alma junto de Antía, a destinatária destes escritos. Julieta nem sabe se a filha vai ler o diário, embora esta decisão permita que a protagonista tente exorcizar alguns episódios menos felizes que ocorreram no passado e teimam em assolar a sua mente, enquanto enfrenta os mesmos e um estranho sentimento de culpa.

 Pedro Almodóvar povoa a narrativa com uma série de flashbacks, alguns com alguma pertinência, outros desprovidos de interesse devido ao pouco desenvolvimento dos personagens secundários ou das subtramas, com a narração de Julieta a surgir como o ponto de união entre estes episódios. Julieta surge como a narradora e a protagonista de serviço, com a narração em off a permitir costurar os diferentes episódios da narrativa, embora Pedro Almodóvar utilize excessivamente este recurso, algo que a espaços atribui um tom demasiado expositivo e redundante a alguns momentos do enredo. "Julieta" é livremente inspirado em três contos do livro "Runaway" de Alice Munro, algo que pode ajudar a explicar esta utilização quase literária da narração, como se existisse a necessidade de Julieta relatar tudo aquilo que sentiu e sente. É Julieta quem ficamos a conhecer ao longo do filme, seja quando esta se depara pela primeira vez com Xoan (Daniel Grao), uma das grandes paixões da sua vida, ou quando visita a mãe, uma mulher que se encontra acamada, ou enfrenta uma série de contrariedades profissionais e pessoais. Julieta conhece Xoan numa viagem de comboio, em plenos anos 80, com este episódio a ser exposto com enorme detalhe, bem como os sentimentos quentes que envolvem estes dois personagens. Xoan é um pescador de personalidade galanteadora e afável, que é casado quando se envolve com Julieta, embora a esposa esteja acamada há cinco anos. O personagem interpretado por Daniel Grao desperta facilmente a atenção da protagonista, com Xoan e Julieta a viverem um conjunto de episódios marcantes no interior do comboio onde efectuam uma viagem com destino a Madrid. Pedro Almodóvar aproveita eficazmente o espaço deste meio de transporte, com os momentos que decorrem no interior do comboio a contarem com situações tão díspares como a notícia de uma morte macabra e um jogo de sedução, enquanto um casal expõe os seus sentimentos e desejos. Adriana Ugarte consegue transmitir o lado mais aventureiro de Julieta durante esta fase da sua vida, algo exposto no caso que esta inicia no comboio ou na forma bem viva como a protagonista conduz as aulas de filologia clássica que lecciona temporariamente numa escola de Madrid. A literatura conta com uma relevância indelével na vida de Julieta, bem como o significado das palavras e as tragédias gregas, ou esta não surgisse como uma protagonista com propensão para se envolver em situações dramáticas. Após ter visto o seu contrato como professora substituta terminar, Julieta decide visitar Xoan, com quem inicia uma relação séria e tem uma filha, a jovem Antía. Xoan vive numa habitação com vista para o mar, com a casa deste pescador a transmitir o espírito livre deste personagem pronto a amar loucamente a protagonista e a filha, embora mantenha uma relação ambígua com Ava (Inma Cuesta), uma amiga de longa data. Ava é outra das figuras femininas que têm algum espaço para sobressair, com Inma Cuesta a interpretar uma artista especialista em esculturas com motivos fálicos. Uma das esculturas de Ava é transportada de mãos em mãos, com Pedro Almodóvar a aproveitar para colocar uma representação masculina na palma das mãos das mulheres, enquanto expõe o poder da figura feminina em relação ao homem. É o regresso de Almodóvar aos universos narrativos centrados maioritariamente em mulheres, com o cineasta a compreender as suas personagens, enquanto concede espaço para que as suas actrizes principais sobressaiam. No entanto, regressemos a Ava. Esta forma uma espécie de relação de amizade com Julieta, sobretudo a partir do momento em que uma tragédia conduz à morte de um personagem relevante para ambas as mulheres, com estes revezes a contribuírem e muito para a faceta menos esperançosa e pouco vivaz que Emma Suárez incute à protagonista. 

 Enquanto a narrativa avança, também os personagens amadurecem e protagonizam alguns episódios que moldam as suas vidas, algo notório quando Julieta se muda para Madrid com a companhia de Antía. A relação entre mãe e filha raramente é desenvolvida ao ponto de alcançar a densidade necessária para que a dor de Julieta, provocada pela ausência de Antía, após a jovem ter partido quando completou dezoito anos, seja sentida pelo espectador com a mesma intensidade que é vivida pela protagonista. Percebemos o estado de espírito da protagonista, mas nem sempre o sentimos de forma bem viva, algo inerente ao facto de Pedro Almodóvar apostar numa exposição excessiva dos acontecimentos por parte da narradora de serviço ao invés de desenvolver a relação entre Julieta e Antía de forma intensa e densa. A espaços quase que parece que ficamos diante de uma espécie de bullet points dos episódios que Julieta, ou melhor, Pedro Almodóvar, considera que contam com alguma relevância, embora o cineasta nunca desenvolva assertivamente a dinâmica entre Antía e os pais. "Julieta" quer dar muito ao espectador, embora nem sempre consiga cumprir esse desiderato, parecendo faltar quase sempre algo naquilo que diz respeito ao desenvolvimento das relações entre a personagem do título e as figuras que a rodeiam. O afastamento de Antía provocou uma enorme comoção na protagonista, sobretudo devido à relevância que a jovem teve para que Julieta conseguisse ultrapassar temporariamente uma depressão, com Almodóvar a colocar-nos diante de uma mulher que conta com uma série de relações conturbadas, seja com o pai, a empregada de Xoan, ou a filha. A relação de Julieta com o pai é problemática, sendo apresentada num dos diversos flashbacks que povoam a narrativa do filme, com Pedro Almodóvar a colocar-nos diante de pequenos fragmentos da vida desta mulher, embora nem todos sejam desenvolvidos na justa medida. Os problemas entre Julieta e o pai surgem como alguns dos elementos abordados de forma superficial ao longo do filme, com o argumento a nem sempre investir no desenvolvimento dos personagens secundários. Por sua vez, Marian (Rossy de Palma - na sua sétima colaboração com Almodóvar), a empregada de Xoan, surge como uma figura conservadora, indiscreta e caricatural, que não parece simpatizar com Julieta e raramente é desenvolvida ao longo do enredo. Quem está no centro de quase tudo aquilo que acontece na narrativa é Julieta, uma mulher que procura enfrentar os episódios do passado, após ter tentado esquecer os mesmos, com Pedro Almodóvar a realizar uma obra cinematográfica que, apesar de nem sempre explorar devidamente todas as subtramas e da banda sonora a puxar descaradamente para o melodrama, é relativamente eficaz em alguns dos seus propósitos. Pedaços do presente e do passado de Julieta são dados a conhecer, enquanto os cenários, o guarda-roupa e os penteados parecem contar com uma relevância indelével para adensar determinados estados de espírito. A casa de Xoan surge como um espaço relativamente simples, que permite transmitir a beleza do mar, mas também os seus perigos, com a relação entre Julieta e o amado a contar com alguns tumultos, um pouco à imagem das águas que rodeiam este cenário. O lar de Xoan contrasta com a casa da protagonista quando esta se desloca com a filha para Madrid, após um episódio trágico, com a jovem a surgir como um baluarte que procura evitar que Julieta permaneça enleada nas teias de uma depressão. A casa de Madrid é exposta e descrita como um espaço inicialmente opressivo e angustiante, até ser pintado, com o valor sentimental da primeira habitação de Julieta na capital de Espanha a trazer um peso indelével à narrativa. A procura da protagonista em pintar a casa, tendo em vista a mudar o estilo da mesma, reflecte também todo o cuidado que Almodóvar colocou na utilização das cores, com o cineasta a utilizar assertivamente a paleta cromática ao serviço da narrativa e dos seus devaneios (não faltam tonalidades vermelhas e azuis em doses industriais, muito ao estilo do realizador). Veja-se a casa da protagonista em 2016, com as tonalidades brancas das paredes a expressarem uma certa impessoalidade, ou o espaço do comboio (Julieta com uma camisola azul, as tonalidades vermelhas dos bancos e os tons laranjas da cortinas), entre outros exemplos. 

 Os espaços madrilenos também contam com algum peso dramático e valor simbólico, com a cidade de Madrid a surgir praticamente como uma personagem de relevo. Veja-se quando Julieta perambula por Madrid e se senta no banco de um campo de basquetebol, com este espaço a trazer à memória o período de tempo em que Antía e Beatriz brincavam no local. O passado e o presente tocam-se em episódios distintos, com Julieta a procurar reencontrar os espaços dos quais se afastou a partir do momento em que tentou esquecer a filha, com estes locais a contribuírem para o reavivar de memórias de outrora. Esse jogo de repetições verifica-se desde logo quando Julieta decide voltar a residir no mesmo prédio que habitara quando foi viver com a filha para Madrid, com a protagonista a isolar-se neste espaço para escrever o seu diário e esperar por algo aparentemente impossível, ou seja, que Antía entre em contacto e revele a sua morada. Julieta parece procurar algo que perdeu e tarda em reencontrar, seja a filha, ou a felicidade perdida, com o peso dos episódios que esta mulher viveu a carregarem a sua alma de uma melancolia com a qual não contava na juventude. Os próprios penteados da protagonista dizem muito sobre a sua personalidade (Almodóvar também não perdoa neste quesito). No passado, quando se encontra no comboio, Julieta conta com um penteado curto e moderno para a época, algo revelador da fase mais aventureira e impulsiva da protagonista. Já quando encontramos um momento onde passado e presente se unem, o cabelo de Julieta aparece mais descuidado, algo que contrasta com o corte elegante que apresenta no início do filme, antes de ser "engolida" pelos episódios que marcaram a sua vida. Julieta procurou esquecer a filha, mas este desiderato revelou-se uma tarefa impossível de cumprir, com a dor a parecer contribuir para separar e unir estas duas personagens, bem como um silêncio doloroso que marca a (não) relação de ambas. Este é também um filme sobre a dor, seja esta de uma esposa que se depara com a morte de um ente querido, de uma mãe que lida com o longo afastamento da filha, de um progenitor que procura contactar com uma das familiares mais próximas, de um namorado que não compreende totalmente aquilo que se encontra a ocorrer na mente da cara-metade. "Julieta" aborda temáticas como a perda, o sentimento de culpa por parte de uma mãe, os problemas familiares e a incapacidade de controlar o destino, com o argumento a explorar alguns temas relevantes, embora algumas subtramas sejam desenvolvidas praticamente "a correr", algo que tira uma certa força a uma obra cinematográfica que conta com uma protagonista capaz de despertar o nosso interesse. No presente, Julieta aparece como uma figura mais solitária, isolada e vulnerável, que carrega consigo o peso das diatribes do destino, enquanto em alguns flashbacks podemos encontrar uma faceta mais leve da protagonista, pelo menos até o acaso desferir uma série de pancadas ferozes que deixam diversas cicatrizes que teimam em ser reabertas e contaminam a alma. "Julieta" remete ainda para outros melodramas no feminino de Almodóvar, tais como "Volver". Não falta a utilização bastante expressiva das cores (sobretudo o vermelho e o azul), os problemas familiares e os momentos a puxar ao melodrama, os cenários decorados de forma a exacerbarem a personalidade de alguns personagens, embora "Julieta" não conte com os trechos marcados pelo absurdo como "Volver". A utilização extravagante das cores, os momentos melodramáticos e as interpretações de bom nível também estão presentes em "Todo sobre mi madre", um drama onde Pedro Almodóvar aborda temáticas como a dor de uma mãe que perdeu o seu filho. Em "Julieta", a personagem do título não perdeu a sua filha para sempre, mas não contacta com a mesma há doze anos, com a ausência a afectar e muito a protagonista, algo que é exposto ao longo do filme. Pedro Almodóvar volta a embrenhar-se no interior de um universo narrativo dominado pelas figuras femininas, com a personagem do título a destacar-se acima de todas as outras e a permitir que Emma Suárez e Adriana Ugarte sobressaiam, com as actrizes a compensarem alguns tropeços de "Julieta", tais como os exageros melodramáticos e o parco desenvolvimento de alguns elementos secundários, embora seja de elogiar todo o cuidado colocado no design de produção, bem como a atenção indelével aos pormenores e a capacidade do cineasta em envolver-se na mente de uma mulher que viveu uma série de episódios que a marcaram de forma insofismável.

Título original: "Julieta".
Realizador: Pedro Almodóvar.
Argumento: Pedro Almodóvar.
Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Inma Cuesta, Daniel Grao, Rossy de Palma, Priscilla Delgado, Blanca Parés, Darío Grandinetti.

19 setembro 2016

Resenha Crítica: "Évolution" (Evolução)

  Misterioso, enigmático, pronto a estimular a mente e os sentidos do espectador, "Évolution" tem tanto de indecifrável como de questionador, inebriante, poético, belo, perturbador e assustador, com Lucile Hadžihalilović a abandonar-nos no interior de uma ilha isolada, rodeada pelo mar e povoada por um grupo de rapazes e estranhas mulheres, enquanto o nosso corpo e nossa a mente são consumidos por aquilo que a cineasta tem para apresentar, ou melhor, assombrar. Ficamos perante um território marcado por regras muito próprias, com o mar a transmitir simultaneamente uma sensação de libertação e isolamento, perigo e conforto, lirismo e crueza, com os personagens de "Évolution" a contarem com uma relação muito próxima com as águas que rodeiam a ilha onde habitam. A força das ondas e os seus sons são bem audíveis, enquanto as profundezas do mar transmitem toda uma sensação de mistério e poesia, quase como se estivéssemos diante de algo que tanto evidencia a capacidade de libertar como de aprisionar. O mar é uma presença sentida e relevante, enquanto os homens são uma ausência que nos traz mais dúvidas do que certezas, com o território a contar apenas com rapazes de tenra idade e mulheres. Não existem raparigas, nem homens a povoarem este espaço, com as mulheres a tratarem os jovens de um modo muito peculiar, com quase todos os rapazes a terem como destino um hospital estranhamente assustador, uma espécie de limbo onde o futuro das crianças parece incerto. Será que estão doentes? Quais os propósitos destes tratamentos? Qual o papel das enfermeiras? Estas são algumas das dúvidas que assolam inicialmente a nossa mente, com "Évolution" a conseguir estimular os nossos sentidos, a nossa capacidade de interpretação e de questionamento, enquanto mergulhamos para o interior de uma espécie de sonho bizarro onde os tratamentos efectuados na unidade hospitalar ganham contornos de pesadelo. O hospital surge representado como um espaço opressor, marcado por tonalidades verdes desprovidas de vida, com esta cor a estar longe de transmitir calma, esperança ou serenidade. Diga-se que o cenário do hospital demonstra paradigmaticamente algum do cuidado colocado no design de produção, com este espaço fechado, pontuado por paredes recheadas de marcas de humidade, a adensar a atmosfera misteriosa e inquietante que envolve esta obra cinematográfica estranhamente inebriante. O enredo conta maioritariamente com um jovem como protagonista, em particular, Nicolas (Max Brebant), um rapaz curioso, que gosta de nadar e desenhar. Nicolas mantém uma relação problemática com a mãe (Julie-Marie Parmentier), uma figura enigmática, com os comportamentos desta última a despertarem alguma curiosidade no primeiro. A casa onde Nicolas e a mãe habitam é pontuada por um estilo de decoração frio e austero, com este cenário interior a transmitir desde logo a impessoalidade e a frieza que marca o dia-a-dia neste espaço, bem como a estranha relação entre o protagonista e a progenitora. O quotidiano destes personagens é marcado por situações como a mãe de Nicolas obrigar o jovem a tomar um medicamento misterioso e a ingerir estranhas refeições, com Julie-Marie Parmentier a incutir algum mistério aos actos desta mulher. A frieza da casa de Nicolas contrasta com as cores vivas com que nos deparamos quando os personagens se encontram no fundo do mar, com esta grande extensão de água a trazer uma estranha sensação de liberdade e uma capacidade indelével para estimular a imaginação. No interior das águas marítimas, os jovens tanto podem encontrar uma estrela-do-mar como corais ou simplesmente envolverem-se em situações mais delicadas, com o mar a surgir como um elemento relevante no quotidiano dos moradores desta ilha.

Nicolas gosta de nadar, tendo supostamente descoberto um cadáver, algo que é desmentido pela sua progenitora, embora pareça certo que esta se encontra a esconder alguma coisa deste rapaz. Este efectua actos muito próprios dos jovens da sua idade, com os rapazes a brincarem, a envolverem-se em zangas e a formarem estranhos laços, mesmo quando começam a ser estranhamente internados num hospital, com tudo e todos a parecerem contar com este destino, excepção feita às mulheres. A curiosidade de Nicolas é adensada a partir do momento em que é internado pela progenitora, com este a ser sujeito a diversos tratamentos, tal como alguns rapazes desta ilha. Nicolas não sabe qual é a doença de que padece, nem acredita que conta com alguma maleita, com o jovem a procurar fugir deste espaço, enquanto tenta descobrir os segredos sobre as mulheres deste território. Nesse sentido, Nicolas é surpreendido pela descoberta de uma série de rituais protagonizados pelas mulheres, alguns dotados de erotismo e imensa estranheza, bem como por diversos hábitos das poucas figuras adultas desta ilha. É o despertar do jovem para o mundo dos adultos, para os sonhos e os pesadelos inerentes ao crescimento, com Nicolas a lidar com toda uma realidade que o transcende. Quais são os objectivos destas mulheres? Aos poucos percebemos alguns dos planos destas figuras femininas que contam com estranhas marcas nas costas, com o símbolo recorrente da estrela-do-mar a não ter sido colocado na narrativa ao acaso, ou não estivéssemos diante de algo que se pode reproduzir sexualmente ou de forma assexuada. Diga-se que as próprias luzes de um aparelho do hospital remetem para a forma de uma estrela-do-mar, algo que confirma a possibilidade destes jovens estarem a ser sujeitos a testes que permitam que estes se reproduzam de forma assexual, com o umbigo dos mesmos a surgir como um estranho alvo das experiências e estudos efectuados na unidade hospitalar. Nem tudo é esclarecido, embora "Évolution" forneça algumas pistas ao espectador, sempre sem deixar que este se sinta totalmente confortável, parecendo impossível que a nossa mente sossegue totalmente e se preencha de certezas em relação àquilo que está a acontecer neste hospital. O mistério pontua a narrativa da segunda longa-metragem realizada por Lucile Hadžihalilović, bem como os silêncios e os parcos diálogos, com as próprias interpretações a contribuírem para as características enigmáticas do filme. Veja-se o caso de Julie-Marie Parmentier, com esta a surgir como uma figura austera, que procura cuidar de Nicolas, embora os planos que esta congemina para o jovem contem com uma certa dose de ambiguidade, com a actriz a conseguir transmitir eficazmente essa situação. Esta parece ainda estar a lidar com questões relacionadas com a maternidade, uma situação que se verifica ainda em diversas figuras femininas que povoam a narrativa desta obra cinematográfica, com a maioria a indicar querer travar o crescimento destes jovens e mantê-los sob a sua alçada (com o mar a poder simbolizar o líquido amniótico, ou seja, um elo de ligação entre os jovens e as suas criadoras), enquanto deixam que os rapazes sejam sujeitos a testes peculiares (que a espaços incutem uma faceta de "body horror" a "Évolution"). Outra das intérpretes em destaque é Roxane Duran como Stella, uma enfermeira do hospital, uma mulher que inicia uma estranha relação de proximidade com o protagonista, com a actriz a demonstrar que estamos diante de uma figura que se encontra numa luta interna entre manter os valores do espaço que a rodeia ou ceder à curiosidade do rapaz. Stella é um enigma difícil de compreender, embora partilhe alguns momentos com Nicolas que prometem ficar na memória de ambos e do espectador, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica onde os gestos e as sensações contam com enorme significado e relevo. Lucile Hadžihalilović incute uma certa ambiguidade aos episódios que ocorrem ao longo do enredo, com o design sonoro a incrementar o tom intrigante da narrativa, enquanto a cineasta extrai interpretações convincentes por parte do elenco principal e inquieta o espectador.

O grande destaque a nível de interpretações vai para o jovem Max Brebant, um estreante que consegue exprimir as questões que assolam a mente do protagonista, bem como os seus receios, anseios e fraquezas, algo que partilha com outros rapazes e com Stella. "Évolution" é também um filme sobre os medos e as dúvidas de um jovem em plena puberdade, que se depara com todo um mundo novo, quase como se de repente entrasse numa máquina do tempo que o coloca a saltitar entre a infância e a idade adulta, com alguns dos episódios em que este se envolve a serem incompreensíveis até para os mais velhos. A entrada do jovem no hospital adensa essas dúvidas, bem como as descobertas que efectua fora deste cenário fechado. Os testes efectuados nestes jovens contam com características bizarras, com Lucile Hadžihalilović a não ter problemas em jogar com os receios dos personagens e do espectador. Veja-se quando Nicolas sonha que um molusco toca no seu umbigo, ou os estranhos procedimentos que são efectuados no hospital, com "Évolution" a entrar muitas das vezes pelas águas do terror. Os sonhos perturbam a realidade de Nicolas, enquanto este entra num mundo de descobertas no interior de uma ilha capaz de perturbar, encantar, assustar e inebriar os sentidos. Lucile Hadžihalilović deixa-nos diante de imagens marcantes, simultaneamente poéticas e perturbadoras, que teimam em permanecer na nossa mente após a visualização de "Évolution", uma obra cinematográfica que aborda temas como os ritos de passagem, as descobertas efectuadas por um rapaz que se encontra a entrar na puberdade, os medos e os receios dos jovens, a maternidade, a gravidez (seja esta feminina ou masculina), entre outros. A ilha que nos é apresentada surge como um espaço praticamente à parte do Mundo, localizada num território e tempo difíceis de discernir, quase onírico e a espaços assustador, com Lucile Hadžihalilović a criar um universo narrativo que mexe com os nossos sentidos e se apodera da nossa mente, algo incrementado por uma cinematografia capaz de adensar todos estes elementos, com "Évolution" a deixar uma marca bem forte e a teimar em assumir um lugar na nossa memória.

Título original: "Évolution".
Título em Portugal: "Evolução".
Realizadora: Lucile Hadžihalilović,
Argumento: Lucile Hadžihalilović e Alante Kavaite.
Elenco: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier.

17 setembro 2016

Resenha Crítica: "The Nice Guys" (Bons Rapazes)

 A partir de um determinado momento de "The Nice Guys", a investigação protagonizada por Holland March (Ryan Gosling) e Jackson Healy (Russell Crowe) ganha contornos intrincados e rocambolescos, com a dupla de protagonistas a deparar-se com uma miríade de personagens e descobertas que prometem despertar imensas dúvidas e colocar a vida destes elementos em perigo. É o regresso de Shane Black aos filmes que envolvem duplas improváveis, após ter escrito o argumento de "Lethal Weapon" e realizado "Kiss Kiss Bang Bang". Diga-se que é um regresso em grande estilo, recheado de inspiração, sentido de humor, acção, ritmo, doses de saudável loucura, referências aos noir e neo-noir, personagens moralmente ambíguos e uma investigação com ramificações inesperadas, com Shane Black a colocar-nos diante de um enredo que conta com a cidade de Los Angeles como pano de fundo. É o território de Los Angeles em 1977 que é representado em "The Nice Guys", com os cenários interiores (veja-se o estilo da decoração das habitações e os adereços utilizados), o guarda-roupa dos personagens, as festas, os carros, as referências televisivas, as teorias da conspiração e a atmosfera que envolve a narrativa do filme a remeterem para a procura de Shane Black em evocar a década de 70 e algumas das obras cinematográficas da época. Los Angeles transforma-se rapidamente em cidade e protagonista, com Holland e Jackson a deslocarem-se pelos espaços deste território e a dialogarem com o seus habitantes, enquanto procuram resolver um caso intrincado. Black constrói uma dupla de protagonistas dotada de alguma dimensão e imensa personalidade, pronta a convencer quer nos momentos de humor e exuberância, quer nas situações mais sérias, com Ryan Gosling e Russell Crowe a acertarem por completo nas dinâmicas entre os personagens que interpretam, enquanto o cineasta e argumentista sabe aproveitar esta "química" entre os actores. Ryan Gosling dá vida a Holland March, um detective beberrão e fumador, que não perde uma oportunidade de aceitar casos de resolução impossível, tendo em vista a ganhar dinheiro de forma fácil, com os seus valores morais e a sua ética profissional a serem amplamente questionados quer pelo espectador, quer por Holly (Angourie Rice), a filha deste indivíduo, uma pré-adolescente de treze anos de idade. Holly conta com uma maturidade acima da média, com Angourie Rice a surgir como uma agradável surpresa ao conseguir sobressair no meio de elementos com o estatuto de Crowe e Gosling. A actriz convence em relação à curiosidade e maturidade de Holly, bem como naquilo que diz respeito às tentativas efectuadas pela pré-adolescente para que o pai consiga voltar a entrar nos eixos. Holly pretende que o pai seja um exemplo a seguir, embora Holland esteja longe de ser um herói de comportamentos imaculados. A vida de Holland não atravessa um bom momento, com este a aceitar casos manhosos e a parecer preso ao passado, em particular, ao episódio que conduziu à morte da sua esposa. Holland perdeu o olfacto, algo que o impediu de travar uma fuga de gás que provocou um acidente na sua antiga habitação, uma situação que redundou na morte da esposa do detective, com o protagonista a deixar transparecer que ainda não superou totalmente este episódio. Ryan Gosling incute um estilo descontraído e convencido a Holland, um detective em quem nem sempre se consegue confiar, embora o protagonista tenha alguma sorte a "tropeçar" nas pistas e nos elementos que procura, com o actor a contar com um papel onde tem espaço para sobressair.

 Holland não tem problemas em adiar a resolução dos casos, enganar os clientes e tomar atitudes pouco profissionais, com o detective a parecer temer as responsabilidades e a proporcionar alguns momentos de humor, sobretudo quando desafia as nossas expectativas em relação às suas decisões. Veja-se quando encontramos Holland a nadar no interior de uma espécie de aquário, completamente embriagado, quando deveria estar a reunir pistas. Temos ainda o momento em que Holland se reúne com uma cliente que procura encontrar o esposo, um indivíduo que se encontra supostamente desaparecido desde o funeral, com o protagonista a encontrar a urna com as cinzas do falecido no interior da casa e a perceber que a idosa ensandeceu. De bigode cuidado, quase sempre de fato e pronto a beber uns copos e a fumar os seus cigarros, Holland permite que Ryan Gosling exponha a sua habilidade quer para o humor, quer para efectuar a transição para os momentos mais sérios, com o actor a aproveitar os problemas deste detective e a sua "pancada" para criar um personagem dotado de alguma dimensão. Gosling conta com o auxílio do argumento de Shane Black, com o realizador e argumentista a voltar a exibir a sua perícia para este ofício, bem como para desenvolver obras cinematográficas que contam com duplas improváveis. Quem forma uma dupla improvável com Holland é Jackson Healy, um tipo de personalidade dura e implacável, de voz grossa e um corpanzil capaz de intimidar aqueles que se colocam no seu caminho. Crowe incute um estilo duro e intimidatório a Jackson, um indivíduo que não aceita de bom grado que o agridam ou ameacem. A postura física, as expressões, o corpo e a personalidade de Jackson parecem argumentos de peso para colocar em sentido aqueles que se metem no caminho do protagonista. No entanto, a violência e as confusões parecem fazer parte do quotidiano de Jackson, com Shane Black a colocar-nos diante de um personagem moralmente ambíguo, que não tem problemas em utilizar a força física e eliminar um inimigo, embora tenha alguns valores morais e desperte facilmente a nossa simpatia. Se Holland parece levar a sua profissão com alguma ligeireza, já Jackson encara o seu ofício com enorme rigor, embora não seja um detective profissional, com o estilo e personalidade de ambos a diferir imenso, algo notório quando são obrigados a formarem uma dupla improvável para encontrarem Amelia Kutner (Margaret Qualley), uma jovem que desapareceu misteriosamente e é perseguida por criminosos perigosos. A investigação é típica dos filmes noir, com o caso a ser bem mais intrincado do que parece a nível inicial, com os protagonistas a depararem-se com um emaranhado de dúvidas, testemunhas, inimigos, mentiras, traições e reviravoltas que os colocam em perigo. No início de "The Nice Guys" encontramos um carro a despenhar-se contra uma habitação, com a dona do veículo a falecer. A proprietária do carro é Misty Mountains (Murielle Telio), uma actriz pornográfica bastante conhecida, com a sua morte a gerar alguma comoção, embora a tia da artista acredite que esta se encontra viva. A tia de Misty acredita que viu a sobrinha após a notícia da morte da actriz. Nesse sentido, a familiar da estrela de filmes pornográficos contrata Holland para descobrir Misty, com o detective a aceitar o caso, embora não acredite na possibilidade da actriz estar viva. Uma das figuras com quem Holland pretende contactar é Amelia, uma jovem que esteve envolvida em "How Do You Like My Car, Big Boy?", um "filme alternativo" no qual Misty Mountains figurava no elenco principal. Por sua vez, Amelia contrata Jackson para que este último afaste Holland, com o detective a sentir no corpo a força física e a personalidade pouco dada a grandes brincadeiras do personagem interpretado por Russell Crowe.

 Amelia não abriu o jogo todo com Jackson, algo que este percebe quando é atacado por Blue Face (Beau Knapp) e Older Guy (Keith David), dois criminosos que pretendem descobrir o paradeiro da jovem, embora o protagonista não revele informações. O desaparecimento de Amelia e a morte de diversos elementos ligados a "How Do You Like My Car, Big Boy?" conduzem Jackson e Holland a unirem esforços para encontrarem a jovem, uma tarefa que promete ser intrincada. Ao longo do filme, Jackson e Holland deparam-se com uma casa queimada, diversas mortes (inclusive do realizador e do produtor de "How Do You Like My Car, Big Boy?"), um grupo de protestantes que luta contra a poluição (estamos em plenos anos 70, no período após a Guerra do Vietname, ou seja, quando os protestos ainda eram bem vivos), pistas relevantes (tais como aquelas que são dadas por Chet, o projeccionista do "filme alternativo"), frequentam uma festa para encontrarem informações, enfrentam criminosos, entre outros episódios que permitem ajudar a solucionar os mistérios que envolvem este caso e dar a conhecer a personalidade dos personagens interpretados por Russell Crowe e Ryan Gosling. A presença da dupla numa festa financiada por Sid Shattack, um famoso produtor de obras pornográficas, que produziu o "filme alternativo" protagonizado por Misty e Amelia, surge como um exemplo da capacidade de "The Nice Guys" em mesclar momentos completamente alucinados com acção, tensão e perigo. Veja-se quando encontramos Holland embriagado a nadar num aquário recheado de "sereias", ou o momento em que se deparam com Blue Face e Older Guy, duas faces visíveis do perigo que rodeia esta investigação. Outra das faces do perigo é John Boy (Matt Bomer), um assassino frio, letal e lacónico, pronto a eliminar todos aqueles que podem colocar em causa a sua missão. Matt Bomer tem um personagem que é capaz de fazer corar de vergonha diversos antagonistas da saga James Bond, com o actor a incutir um sentido prático e psicótico a este assassino que surge como uma ameaça aos planos dos protagonistas. John Boy tem de eliminar Amelia, com os elementos que o contrataram a surgirem como um mistério durante uma parte do filme, pelo menos até descobrirmos os planos mais obscuros que envolvem alguns sectores contaminados pela corrupção em Los Angeles. A corrupção em Los Angeles remete em certa medida para "L.A. Confidential", uma obra cinematográfica que contou com Kim Basinger e Russell Crowe no elenco principal, com a dupla a reunir-se em "The Nice Guys". Se "L.A. Confidential" é um exemplo paradigmático de um filme neo-noir, já "The Nice Guys" bebe alguma da sua inspiração neste subgénero, com esta cidade que nos é apresentada a estar longe de surgir como um local paradisíaco, com o desaparecimento de Amelia e um problema relacionado com produtores de automóveis de Detroit a estarem mais ligados do que pareciam a nível inicial. Os produtores de automóveis pretendem suprimir a introdução dos catalisadores nos veículos e contam com apoios poderosos, com o caso a contar com estranhas ligações com a história de Amelia. Margaret Qualley interpreta uma figura misteriosa que raramente chegamos a conhecer, embora Amelia apareça como a dinamizadora de boa parte da narrativa de "The Nice Guys", com a actriz a ter pouco tempo para sobressair, apesar da personagem que interpreta contar com uma relevância indelével no enredo. Amelia procura efectuar uma denúncia de forma deveras peculiar, tendo uma relação complicada com a progenitora, uma figura em quem não pode confiar. Judith Kutner (Kim Basinger), a mãe da desaparecida, uma mulher misteriosa que lidera o Departamento de Justiça, contrata os protagonistas para descobrirem o paradeiro da jovem, embora os seus objectivos nem sempre pareçam claros.

 Kim Basinger imprime um certo mistério e charme a Judith, com esta mulher a contar com uma assistente (Yaya DaCosta) que também está longe de despertar confiança, embora os protagonistas confiem inicialmente nestas duas figuras femininas. Quase todos os personagens prometem despertar um sentimento de incerteza junto de Jackson e Holland (com excepção de Holly), enquanto Shane Black coloca a dupla de protagonistas em perigo em plena Los Angeles dos anos 70, com tudo a ser exposto ao estilo do cineasta. Esse estilo de Black é visível não só nos diálogos recheados de vida e nos personagens pontuados por dimensão e personalidade, mas também na capacidade do realizador e argumentista em incutir tons distintos ao enredo, com "The Nice Guys" a tanto abordar situações de forma mais séria, como completamente alucinante, enquanto o humor e a seriedade parecem andar lado a lado ao longo do filme. Não faltam temáticas como a dor provocada por uma perda, ou a corrupção no interior de um espaço citadino, ou a relação entre um pai e a sua filha, mas também situações de humor físico ou de situação, com Russell Crowe e Ryan Gosling a entrarem no jogo e estilo do cineasta. Vale ainda a pena deixar mais umas palavras para Angourie Rice, com a jovem actriz a sobressair, sobretudo quando Holly procura despertar a faceta mais profissional do pai, ou tenta que Jackson não deixe o seu lado mais agressivo à solta, com a intérprete a surgir como uma das grandes revelações do filme. Diga-se que "The Nice Guys" é uma agradável surpresa, com Shane Black a saber utilizar e subverter diversos componentes ligados aos filmes noir, tais como os personagens moralmente ambíguos, a narração em off, as figuras fumadoras, a investigação labiríntica, entre outros elementos que remetem ainda para os neo-noir e para a criatividade do cineasta. Com uma dinâmica electrizante entre Russell Crowe e Ryan Gosling, um caso intrincado que prende a nossa atenção, diversos momentos de humor, acção e tensão, "The Nice Guys" é uma das agradáveis surpresas cinematográficas de 2016, com Shane Black a exibir mais uma vez o seu talento para a escrita de argumentos e para deixar o espectador diante de duplas improváveis e carismáticas. 

Título original: "The Nice Guys". 
Título em Portugal: "Bons Rapazes". 
Realizador: Shane Black.
Argumento: Shane Black e Anthony Bagarozzi.
Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Kim Basinger, Matt Bomer, Margaret Qualley, Beau Knapp, Keith David, Yaya DaCosta.

14 setembro 2016

Resenha Crítica: "Captain Fantastic" (Capitão Fantástico)

 Num determinado momento de "Captain Fantastic", a segunda longa-metragem realizada por Matt Ross, encontramos Rellian (Nicholas Hamilton), um dos seis filhos de Ben (Viggo Mortensen), a citar Noam Chomsky, um dos ídolos do progenitor: "If you assume that there is no hope, you guarantee that there will be no hope. If you assume that there is an instinct for freedom, that there are opportunities to change things, then there is a possibility that you can contribute to making a better world". "Captain Fantastic" pode não ter o poder de mudar o Mundo, mas contribui para que este se torne num espaço mais agradável, sobretudo quando o espectador dedica cerca de uma hora e cinquenta minutos da sua vida a apreciar esta obra cinematográfica estranhamente terna, peculiar, sensível, ingénua e melancólica. A citação efectuada por Rellian, um rapaz que conta com cerca de dez anos de idade, não foi obra do acaso, com Ben, o protagonista do filme, a educar os filhos de forma muito própria, uma situação da qual nos podemos aperceber logo nos momentos iniciais de "Captain Fantastic". É no início do filme que ficamos diante de Ben e dos seus seis filhos, Bodevan (George MacKay), Kielyr (Samantha Isler), Vespyr (Annalise Basso), Rellian, Zaja (Shree Crooks) e Nai (Charlie Shotwell), com todos a habitarem numa floresta situada no nordeste do Pacífico, um território afastado dos grandes espaços citadinos, uma decisão tomada pelo primeiro e por Leslie (Trin Miller), a sua esposa. Apesar de nunca terem frequentado uma escola tradicional, os jovens foram ensinados pelos pais com grande rigor e primor, com os rapazes e as raparigas a contarem com horários para aprenderem a caçar, fazerem exercício físico, arrumarem a habitação, tocarem instrumentos musicais e estudarem, com todos a serem estimulados para desenvolverem um pensamento crítico. Nesse sentido, os jovens estão liminarmente proibidos de utilizarem adjectivos vagos na análise a livros, com o termo "interessante" a surgir praticamente como uma palavra maldita, para além de não poderem incluir resumos meramente descritivos, algo que podemos comprovar quando Kielyr fala sobre "Lolita" (é comum encontrarmos os filhos do protagonista a lerem livros que parecem inadequados para as suas idades). Ben pretende que os filhos saibam pensar por si próprios, tenham espírito crítico, questionem os poderes instituídos, dominem diversas línguas e aprendam a sobreviver num mundo recheado de adversidades. É certo que inicialmente o modo de vida destes personagens provoca uma certa estranheza, com Ben a escolher métodos pouco habituais para educar e cuidar dos filhos e prepará-los para o futuro. Veja-se quando encontramos os jovens a caçarem um cervo, com todos a terem sido treinados para eliminarem e eviscerarem animais, tendo em vista a consumirem as presas, com Ben a procurar que os rebentos evitem a superficialidade dos espaços urbanos. Ben e Leslie criaram uma espécie de fortaleza na floresta onde os jovens crescem de acordo com regras muito próprias, embora estejam completamente distantes da vida no espaço citadino, algo que promete ser problemático, sobretudo quando tiverem de se deslocar para fora da sua zona de conforto. Matt Ross tem o mérito de fazer com que acreditemos neste universo narrativo peculiar, naïf e questionador que nos é apresentado, com o cineasta a manter quase sempre um pé na realidade e outro na fantasia, embora os sentimentos e as temáticas abordadas sejam bem reais. Não faltam temas como a paternidade, o luto, os laços familiares, os conflitos entre gerações, o crescimento e educação dos jovens, a necessidade de estimular o espírito crítico, a oposição entre a cidade e um espaço florestal, com Matt Ross a abordar os mesmos de forma muito própria, sempre com algum humor, drama e melancolia à mistura (quase a trazer à memória Wes Anderson, embora com as devidas diferenças - apesar da carrinha do protagonista parecer ter saído de uma obra deste cineasta), enquanto nos transporta para um universo narrativo pontuado por alguma excentricidade e imenso sentimento. "Captain Fantastic" estabelece o quotidiano destes personagens de forma relativamente convincente, com Matt Ross a "vender" bem as suas ideias e a transportar-nos para o interior deste espaço simultaneamente belo e selvagem, onde Ben e a sua família contam com rotinas bem definidas.

 Será possível educar os filhos desta forma? Será possível afastar os jovens dos espaços citadinos? Esta educação é a mais eficaz para preparar os jovens para o futuro? O contacto com o espaço citadino parece inevitável, sobretudo a partir do momento em que Ben e os rebentos recebem a notícia de que Leslie cometeu suicídio. A notícia abala por completo a vida destes sete personagens e o rumo da narrativa, sobretudo quando estes elementos decidem deslocar-se até ao espaço citadino para participarem no funeral e impedirem o enterro da falecida. Leslie não apreciava as grandes instituições religiosas, era budista e deixou em testamento que pretendia ser cremada. Diga-se que Leslie acrescentou ainda que pretendia que as suas cinzas fossem despejadas numa sanita, algo que não é aceite por Jack (Frank Langella) e Abby (Ann Dowd), os pais da falecida. Leslie padecia de distúrbio bipolar, tendo cortado os pulsos, com este acto a abalar por completo o quotidiano destes personagens, com Ben a deparar-se com a situação delicada de ter que educar os filhos por sua conta e risco, enquanto procura cumprir os últimos desejos da esposa. Este é também um filme sobre a paternidade, com um pai a ter de fazer as escolhas consoante aquilo que considera ser melhor para os seus filhos, mesmo que isso implique um desvio em relação aos planos iniciais ou agir de forma que parece inicialmente peculiar ao olhar daqueles que estão de fora. O argumento explora a temática da paternidade com enorme acerto e algumas doses de saudável loucura, com "Captain Fantastic" a deixar-nos diante das dificuldades inerentes a este papel, com Ben a tentar manter a estabilidade do lar, embora não consiga evitar os célebres conflitos entre gerações. De barba farta, um estilo de se vestir peculiar, completamente anti-capitalista, anti-establishment, pouco dado a apreciar os espaços citadinos e as novas tecnologias, Ben é uma figura carismática e inteligente que pensa muitas das vezes estar a fazer o melhor para os seus filhos, embora entre em choque com alguns dos seus rebentos. Os choques entre gerações, bem como entre pais e filhos são temos abordados de forma amiúde em "Captain Fantastic", com Viggo Mortensen a interpretar um pai muito peculiar, que não tem problemas em dizer palavrões à frente dos filhos, colocá-los de forma directa e dura perante as informações relacionadas com a morte da progenitora, ou dialogar com os rebentos sobre assuntos que envolvem relações sexuais, política, religião, alimentação, entre outros exemplos. Viggo Mortensen tem uma interpretação de nível elevado como Ben, com o actor a transmitir credibilidade, sinceridade e emotividade como este personagem que se rege por valores muito próprios. Diga-se que o actor está num dos planos mais marcantes do filme, em particular, quando as lágrimas de tristeza de Ben se reúnem com as longas fileiras de água que escorrem numa cascata. Ficamos diante da união entre o Homem e a natureza, entre as lágrimas de tristeza e uma correnteza, com o trabalho de Stéphane Fontaine na cinematografia a contar com um momento de fino recorte. A própria exposição inicial do território, como um espaço recheado de árvores verdejantes e um ambiente aparentemente paradisíaco, permite que o espectador perceba algumas das razões para Ben e a esposa se terem apaixonado por este local. Essa relação entre Ben e a natureza é temporariamente quebrada quando este e os filhos decidem viajar até ao Novo México, o território onde vai decorrer o funeral de Leslie. Ben e os seus filhos iniciam uma jornada até ao Novo México, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre a personalidade destes personagens, bem como aquilo que os une e separa. Diga-se que esta viagem atribui características de road movie a "Captain Fantastic", com os personagens a efectuarem paragens por diversos locais, tais como um supermercado onde roubam comida, um restaurante onde Ben exibe o seu desprezo para com a comida fast-food e descreve a Coca-Cola como "água tóxica", visitam Harper (Kathryn Hahn) e Dave (Steve Zahn), passam algum tempo num parque de campismo, até chegarem ao funeral, bem como à habitação dos sogros de Ben. A viagem conta com alguns percalços, feridas no corpo e na alma, imensas peripécias e situações que prometem marcar os personagens principais, com Matt Ross a aproveitar para expor as dicotomias entre o espaço citadino e o florestal, para além de desenvolver o choque dos filhos de Ben com a nova realidade.

 Os momentos na casa de Harper e Dave, a irmã e o cunhado do protagonista, permitem expor desde logo essas dicotomias, com os filhos de Ben a exibirem um enorme saber enciclopédico, embora pouco ou nada saibam sobre os produtos que estão na moda ou associados à cultura de massas (veja-se quando não sabem o que é a Nike ou a Adidas). Os filhos de Harper e Dave parecem mais superficiais e desinteressados em relação à vida política, social e cultural do país, mas os rebentos de Ben pouco ou nada sabem sobre o funcionamento dos espaços urbanos ou aquilo que é necessário para manter uma conversa mais leve. Apesar de procurar fugir a maniqueísmos na exposição dos prós e contras dos diferentes modos de vida e educação, Matt Ross deixa sempre em evidência que parece existir uma certa artificialidade no espaço citadino. A violência de uma escalada na montanha é trocada por um jogo de computador ultra-violento, a pureza da comida efectuada na floresta contrasta com a artificialidade da ida a um restaurante, entre outros exemplos. No entanto, os filhos de Ben, sobretudo Bodevan e Rellian, percebem que a sua educação foi deficitária. Veja-se quando Bodevan tenta conversar com uma jovem da sua idade (Erin Moriarty) e o diálogo revela-se um momento completamente desastroso, com o primeiro a não saber conviver com jovens da sua idade, conhecendo apenas aquilo que aprendeu nos livros. O problema não está apenas no jovem, ou a sua interlocutora não revelasse uma falta de conhecimento notória, embora o momento entre Bodevan e a personagem interpretada por Erin Moriarty ganhe características simultaneamente cómicas, trágicas e caricatas. A maioridade de Bodevan foi comemorada com um ritual que envolveu o consumo do coração de um cervo, algo que evidencia a estranheza do quotidiano destes personagens quando se encontram na floresta, mas também o ideal de vida que Ben preconizou para a sua família, com o primeiro a admirar o progenitor, apesar de começar a questionar os métodos de educação do mesmo. Bodevan não é o único filho de Ben e Leslie a questionar a educação proporcionada pelos progenitores. Rellian assume uma postura arisca e agressiva, com o jovem rapaz a culpar o pai pela morte da mãe e a expor por diversas vezes que pretende um estilo de vida "normal". Diga-se que Rellian é uma surpresa desde o início, seja quando encontramos o jovem a ler "Os Irmãos Karamazov", ou a disparar palavrões com uma faca na mão. Aos poucos, as virtudes e defeitos da educação preconizada por Ben surgem ao de cima, sobretudo quando este contacta com os sogros, com Jack a não ter problemas em criticar o modo de vida do genro. Frank Langella é mais um dos actores do elenco secundário que tem espaço para compor um personagem com alguma relevância e pertinência, com Jack a aparecer como uma figura conservadora que pretende ficar com a guarda dos netos. As expressões do rosto de Frank Langella e a colocação de voz do actor surgem como argumentos suficientes para Jack surgir como um personagem que tanto pode apresentar uma postura ponderada como exibir um lado menos agradável, algo notório quando ameaça o protagonista. Ben teme perder a guarda dos filhos, embora, a partir de um determinado momento de "Captain Fantastic", comece a colocar em causa as suas ideias para a educação dos mesmos. Viggo Mortensen transmite essas dúvidas, com o momento em que Ben corta a barba a parecer trazer um peso muito próprio (a fazer recordar a cena em que o personagem interpretado por Owen Wilson retira as ligaduras em "The Darjeeling Limited" - perdoem mais uma referência a Wes Anderson). O corte da barba parece simbolizar um corte com o passado, embora isso pareça uma tarefa quase impossível de acontecer. Ben é um indivíduo peculiar e carismático, que não tem problemas em travar um funeral, ou comemorar a existência de Noam Chomsky ao invés de celebrar o Natal. Esta celebração da existência de Noam Chomsky remete para o modo de vida de Ben e para o seu estilo anti-autoridade, com o protagonista a evitar ser engolido pela superficialidade e pelo consumismo que a espaços marcam a nossa sociedade, algo que tenta transmitir para os filhos. Os rebentos de Ben contam com idades distintas, com Bodevan a ser o mais velho, enquanto Nai é o mais novo, com todos a contarem com características muito próprias, algo adensado pelo guarda-roupa.

 O trabalho de Courtney Hoffman na selecção do guarda-roupa é merecedor de toda uma panóplia de elogios. Veja-se o fato vermelho que Ben utiliza quando aparece no funeral da esposa, algo que atribui todo um impacto acrescido à sua entrada no evento (a própria utilização do fato remete ainda para uma fotografia na casa do protagonista onde podemos perceber que este utilizou a mesma fatiota quando contraiu matrimónio com Leslie), ou as roupas dos rebentos do protagonista, com Zaja a encontrar-se quase sempre acompanhada por uma pele de animal a cobrir a parte superior da cabeça. As roupas de Zaja adequam-se praticamente na perfeição à atmosfera peculiar do filme, com Ben e a sua família a viverem num mundo muito próprio que aos poucos é dado a conhecer ao espectador e àqueles que os rodeiam. A atmosfera do filme, simultaneamente cómica e dramática, quase que poderia ser descrita a partir do cover de "Sweet Child of Mine", com este a começar de forma melancólica, até ganhar um tom mais alegre e emotivo, enquanto ficamos diante de um dos momentos de maior impacto de "Captain Fantastic". A dor provocada por uma perda é sempre difícil de superar, bem como os cortes abruptos com o passado, mesmo quando percebemos que algumas mudanças são necessárias, com esse crescimento a ser feito à base de episódios positivos e negativos. Os personagens de "Captain Fantastic" começam a perceber que esse crescimento vem acompanhado por alguns episódios dolorosos, ou decisões difíceis. Veja-se o caso de Bodevan, com este a ter de optar entre ficar com os familiares ou ir para a universidade, ou escolher outro rumo para a sua vida, com o jovem adulto a perceber que precisa de aplicar o seu saber a lidar no dia-a-dia com outras pessoas que não sejam elementos da sua família. Temos ainda casos como Nai, um jovem inocente que apresenta uma expressividade desarmante e uma curiosidade que é capaz de despertar um sorriso ao mais sisudo dos espectadores (Charlie Shotwell é uma agradável surpresa). A juntar a tudo isto, "Captain Fantastic" coloca-nos ainda diante da complicada questão: qual o melhor método para educar um filho? Ben e Leslie escolheram um caminho, enquanto Harper e Dave seleccionaram outro, embora os dois métodos distintos de educar os filhos estejam longe de se encontrarem livres de defeitos e virtudes. Educar um filho é uma tarefa complicada, com parte do futuro dos rebentos a estar em jogo, algo que Ben percebe, com o protagonista a procurar que os descendentes estejam aptos para enfrentarem o maior dos desafios: a vida adulta. Diga-se que a ideia do argumento para o filme partiu de uma pergunta que Matt Ross colocou a si próprio: “Am I being a good parent?”. Ou seja, o cineasta partiu das suas dúvidas interiores, até criar uma narrativa que nos coloca diante de um pai que criou uma espécie de "paraíso" para viver e educar os filhos, com o filme a assumir um tom tragicómico quando estes entram em contacto com os espaços citadinos. Diga-se que é praticamente impossível olharmos para estes personagens e não pensarmos que os ideais de Ben têm alguma razão de ser, com este personagem a surgir muitas das vezes como um incorformado que estimula os filhos a aprenderem, a pensarem por si próprios, a terem espírito crítico e a desafiarem o poder instituído (o lema desta família parece ser: "O povo é quem mais ordena, que se dane a autoridade"). Ficamos diante de um universo narrativo muito peculiar, onde a existência de Noam Chomsky é celebrada, a imaginação e o espírito crítico são elogiados e estimulados, bem como os laços familiares, com Matt Ross a deixar-nos perante uma família peculiar que conquista merecidamente a nossa atenção. Ben e Leslie procuraram escolher nomes únicos para os seus filhos, com mais ninguém no Mundo a ser chamado de Bodevan, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai. Os nomes podem parecer estranhos, tal como diversos momentos do filme, mas as relações destes personagens, os seus comportamentos e características, bem como os seus dilemas e ansiedades fazem que estes surjam como figuras plenas de humanidade, com Matt Ross a realizar uma obra cinematográfica estranha, estimulante e de grande sensibilidade.

Título original: "Captain Fantastic".
Título em Portugal: "Capitão Fantástico".
Realizador: Matt Ross.
Argumento: Matt Ross.
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Samantha Isler, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Frank Langella, Kathryn Hahn, Steve Zahn, Ann Dowd, Erin Moriarty.

12 setembro 2016

Resenha Crítica: "Personal Shopper" (2016)

 Olivier Assayas parece ter em Kristen Stewart a sua musa inspiradora, com a relação profissional entre o realizador e a actriz a ter mais um capítulo recomendável em "Personal Shopper", uma obra cinematográfica que comprova que os assobios no Festival de Cannes nem sempre são mau sinal, bem pelo contrário. Diga-se que "Personal Shopper", apesar de um ou outro tropeço, é filme que promete ser reavaliado em alta com a passagem do tempo, com Olivier Assayas a realizar uma obra cinematográfica estranhamente sedutora, assustadora e elegante, que se embrenha pelo mundo do espiritismo, da moda, da formação da identidade por parte de uma jovem que se encontra de luto, enquanto Kristen Stewart continua a exibir que se está a tornar numa das intérpretes mais entusiasmantes, enigmáticas e misteriosas de acompanhar. Depois de trabalhos sólidos em filmes como "Adventureland", "Clouds of Sils Maria", "Still Alice" e "Equals", começa a ser notório que Kristen Stewart já merece que se deixe de a associar pura e simplesmente ao seu trabalho na saga "Twilight". Kristen Stewart conta com uma interpretação praticamente imaculada como Maureen, a "personal shopper" de Kyra (Nora von Waldstätten), uma celebridade de personalidade fria e trato difícil. O trabalho de Maureen consiste em adquirir as roupas e as jóias de Kyra, uma celebridade que se veste com os melhores vestidos, sapatos e acessórios. A personagem interpretada por Kristen Stewart nutre sentimentos antagónicos em relação a esta profissão, com a protagonista a tanto parecer desprezar este mundo supérfluo como admirar as belas roupas e o estilo de vida luxuoso de Kyra. Maureen veste-se muitas das vezes de forma informal, com calças de ganga, ténis e uma camisola banal, algo que contrasta com Kyra e permite expor alguns traços da personalidade da protagonista, uma jovem simples e solitária que tarda em desamarrar-se dos grilhões do passado. Esses gostos dicotómicos não implicam que Maureen despreze por completo o estilo de vestir de Kyra, ou a personalidade da sua patroa, com Kristen Stewart a criar uma personagem complexa, que se encontra em busca de formar a sua identidade e de se afirmar perante o mundo que a rodeia, enquanto procura ultrapassar a dor provocada pela morte do irmão. A própria actriz tem uma ligação especial com o mundo da moda, com Kristen Stewart a surgir como uma intérprete que provoca um apelo nem sempre fácil de descrever, quase como se estivéssemos diante de alguém que se está a lixar para todas as convenções, embora saiba utilizar as mesmas, com Maureen a inserir-se praticamente nesta descrição. Maureen está peremptoriamente proibida de vestir as roupas de Kyra, embora comece a quebrar essas regras, ainda que de forma gradual. O momento em que Maureen aproveita o facto de contar com as chaves de casa de Kyra para utilizar as roupas da celebridade é de libertação e transgressão, mas também de medo e receio, com Olivier Assayas a criar um dos grandes momentos de "Personal Shopper". Kristen Stewart é a pedra de toque para tudo funcionar, com a actriz a tanto conseguir convencer como a jovem informal que se parece estar a borrifar para o mundo de Kyra como deixa marca quando veste as roupas desta última e expõe uma elegância digna das modelos mais elogiadas e assume uma faceta desconhecida. A casa de Kyra é um espaço dotado de enormes luxos, com Maureen a decidir embrenhar-se às escondidas neste espaço para se libertar um pouco das suas amarras, testar os seus medos e abraçar os seus desejos. A sensualidade e o receio permeiam estes momentos na habitação de Kyra, enquanto Kristen Stewart surpreende pela capacidade que tem em transmitir as inseguranças, certezas e ansiedades da personagem que interpreta. Oriunda dos EUA, Maureen encontra-se a viver e a laborar em Paris devido a pretender entrar em contacto com o espírito do irmão, um indivíduo que faleceu devido a um ataque cardíaco, com a protagonista a contar com a mesma malformação no coração do familiar, algo que a preocupa.

 Lewis, o irmão gémeo de Maureen, supostamente tinha poderes de medium, com a irmã a contar com uma habilidade semelhante. Estes prometeram que aquele que morresse primeiro iria dar um sinal ao familiar que permanecesse vivo, um acto que conduz Maureen a deslocar-se até à casa de Lewis, em Paris, tendo em vista a procurar cumprir esse desejo. O mistério e o receio dominam os momentos em que Maureen se encontra na habitação do irmão, com Olivier Assayas a saber jogar com as convenções associadas aos filmes de casas assombradas, embora desperte inicialmente a dúvida se este espaço pode ou não contar com fenómenos sobrenaturais. Não faltam elementos que adensam as dúvidas, a inquietação e os receios dos espectadores e dos personagens. Veja-se a parca iluminação da casa durante a noite, os sons que são adensados pelo design sonoro (tais como passos, portas a rangerem, água que escorre a partir de torneiras que se abrem espontâneamente), o território praticamente deserto que rodeia a habitação, o espaço demasiado vasto para ser habitado apenas por uma pessoa, entre outros elementos que tornam o lar de Lewis num lugar que pode ou não surgir como uma porta para o sobrenatural. Maureen anseia por receber um sinal do irmão, encontrando-se quase sempre em alerta, enquanto Olivier Assayas joga com os receios do espectador ao efectuar um filme de fantasmas enigmático, que desperta uma imensidão de dúvidas e alguma inquietação, com o cineasta a nunca perder o foco no essencial: o desenvolvimento da protagonista. Kristen Stewart tanto transmite a fragilidade de Maureen como a sua resiliência e as incertezas que marcam a sua mente, com a jovem a procurar um sinal que a coloque em contacto com o irmão, embora não tenha totalmente a certeza de que essa situação seja possível. Maureen vive num quarto relativamente barato, pequeno e recheado de livros, com a protagonista a interessar-se por assuntos relacionados com o contacto com os espíritos. Nesse sentido, Maureen começa a estudar as pinturas de Hilma af Klint, uma pioneira radical da Arte Abstracta, uma artista que acreditava que os espíritos comunicam com os vivos, bem como os textos de Victor Hugo, um autor que acreditou ter contactado com os mortos. Victor Hugo supostamente dialogava com os mortos através de um estranho conjunto de sons, com esta informação a não ser inserida ao acaso no enredo de "Personal Shopper", algo comprovado pelo terceiro acto do filme, com Olivier Assayas a jogar com as nossas dúvidas e as questões que envolvem Maureen. A protagonista dialoga com alguma regularidade com Lara (Sigrid Bouaziz), a namorada de Lewis, com esta última a procurar seguir em frente com a sua vida, enquanto a primeira tenta visitar regularmente a casa do irmão. Maureen tanto parece acreditar que é possível entrar em contacto com o irmão, como deixa transparecer algumas reservas em relação a essa possibilidade remota, com Kristen Stewart a exibir os dilemas desta mulher que divide o seu quotidiano entre os locais de luxo onde efectua as compras para a sua chefe e a espera por um contacto do falecido. As rotinas desta jovem são repetitivas, pelo menos até começar a receber estranhas mensagens no telemóvel, com este aparelho a surgir como um elemento fulcral para Olivier Assayas trabalhar um conjunto de situações que envolvem Maureen. Quem é que está a enviar as mensagens? Quais as razões para Maureen continuar a responder às mensagens? Será o irmão a entrar em contacto ou algum stalker? Aos poucos, algumas questões são respondidas, outras abertas, enquanto se inicia um estranho jogo entre Maureen e o elemento que envia as mensagens. Este recurso é utilizado de forma irregular por Olivier Assayas, com o cineasta a tanto permitir que as mensagens facilitem a exposição do estado de espírito, desejos e ansiedades da protagonista como deixa que a espaços esta troca de sms se torne quase caricatural. Maureen anseia que as mensagens estejam a ser enviadas pelo irmão, embora essa situação seja improvável, apesar da mente por vezes pregar algumas partidas, sobretudo quando estamos mais fragilizados.

 É sempre importante realçar que Maureen está a vivenciar um período de luto, ou seja, um momento problemático que é bastante difícil de ultrapassar. "Personal Shopper" aborda eficazmente a temática do luto, com Maureen a pretender receber um último sinal do irmão, embora este aviso tarde em chegar, algo que contribui para as dificuldades sentidas pela protagonista para se desprender das amarras que a prendem ao passado. Maureen é uma jovem solitária, que pouco ou nada convive, encontrando-se muitas das vezes fechada no seu próprio mundo, com a possibilidade de entrar em contacto com o irmão a mexer com sua a mente e a sua alma. A própria maneira como esta se veste inicialmente, quase de forma masculina, pode remeter não só para a personalidade de Maureen, mas também para a tentativa desta personagem emular o estilo do irmão gémeo. Estamos diante de uma protagonista com uma personalidade especial, bem mais complexa do que uma leitura superficial pode dar a entender, com Kristen Stewart a transmitir as diferentes camadas desta personagem. Se o aviso directo e preciso de Lewis tarda em chegar, já as mensagens do desconhecido parecem estar para ficar, pelo menos até ocorrer um estranho assassinato. As trocas de mensagens permitem não só expor as fragilidades emocionais desta figura feminina, mas também o seu desejo em transgredir as regras que envolvem o seu quotidiano, com a protagonista a admitir junto do estranho ou estranha que gostava de ser outra pessoa e a utilizar as roupas de Kyra. É através deste jogo, efectuado com o elemento que envia as sms, que Maureen ganha coragem para testar as roupas de Kyra, com o momento em que coloca um vestido prateado a exibir um lado feminino, elegante e sensual da personagem, bem como a sua capacidade para cometer riscos. O guarda-roupa é essencial para transmitir estas mudanças de Maureen, com o trabalho de Jürgen Doering como figurinista a revelar-se de enorme importância. Veja-se os contrastes nas roupas da protagonista, com esta a apresentar posturas distintas consoante as vestimentas, algo notório quando se encontra no quarto de Kyra. Diga-se que Olivier Assayas rodeou-se de uma equipa competente quer a nível do elenco, quer do figurino, quer na cinematografia, com o cineasta a criar um filme de fantasmas com algum "pedigree". Mérito para Assayas, que sabe mexer os cordelinhos nos tempos certos, seja para criar tensão, ou desenvolver os personagens, mas também para aproveitar o elenco. O foco principal está em Kristen Stewart como Maureen, uma jovem que se desloca de mota ou metro para diversos locais de Paris, visita lojas de luxo, enquanto contacta com uma realidade que despreza e admira, mantendo um namoro à distância com Gary (Ty Olwin). A relação entre Gary e Maureen pouco é aproveitada, um pouco à imagem da dinâmica entre esta e Kyra, com a celebridade a surgir como uma figura relativamente unidimensional. Temos ainda dois personagens que ganham uma relevância surpreendente na narrativa, nomeadamente, Ingo (Lars Eidinger) e Erwin (Anders Danielsen Lie). Ingo trabalha para uma revista relacionada com a moda, sendo amante de Kyra, enquanto Erwin surge como um indivíduo ponderado e sensato, que namora com Lara e permite a Anders Danielsen Lie ter uma presença curta mas relevante no interior da narrativa de "Personal Shopper". No entanto, o grande destaque de "Personal Shopper" é Kristen Stewart, bem como o trabalho de Olivier Assayas na realização, com o cineasta a criar um filme de fantasmas com "nota artística", pontuado por elementos de drama e uma classe indelével.

 O domínio que Olivier Assayas tem da narrativa é visível na forma eficaz como gere as dúvidas do espectador e da protagonista, com o cineasta a saber criar uma atmosfera inquietante que não está dependente de sustos avulsos. Veja-se a presença de Maureen na casa que pertencera ao irmão, ou a cena em que a protagonista se depara com uma figura espectral. Já as mensagens trocadas a partir do telemóvel colocam-nos diante de um estranho jogo que tanto tem de enigmático como de relevante e a espaços quase caricatural. É um recurso utilizado de forma irregular, por vezes até algo repetitiva, embora permita dar a conhecer um pouco mais sobre a protagonista e exacerbe o mistério em volta de um possível contacto entre esta e o irmão. Olivier Assayas decidiu utilizar o telemóvel ao serviço do enredo, um aparelho que a espaços é considerado como um empecilho para os filmes de terror, com o cineasta a parecer levar a sério a ideia de transformar um suposto problema numa oportunidade, enquanto joga com as potencialidades das novas tecnologias, com estas a contribuírem não só para aproximar mas também para criar um sentimento de alienação em relação à realidade que nos rodeia. Nesse sentido, as trocas de mensagens permitem criar uma estranha dinâmica entre Maureen e o elemento com quem esta comunica, algo que mexe com os sentimentos desta jovem. A protagonista não sabe a identidade do elemento que está a enviar as mensagens, mas, a partir do momento em que pergunta se o remetente é Lewis, percebemos qual é o desejo de Maureen, enquanto esta consegue comunicar com alguém, algo que parece ter alguma dificuldade de efectuar quando se encontra directamente com outras pessoas (veja-se o pouco contacto que mantém com Kyra, ou o namoro à distância com Gary). A identidade do elemento que envia as mensagens é revelada no terceiro acto (Olivier Assayas reforçou a identidade do mesmo durante a conferência de imprensa do filme), embora o jogo perigoso e peculiar que se cria entre o remetente e a protagonista permita trazer algum mistério ao enredo, bem como expor a necessidade desta em comunicar. A tentativa de Maureen receber um sinal de Lewis acaba por remeter não só para essa comunicação à distância, mas também para a necessidade que esta tem em acreditar na possibilidade de algo transcendente, que supere a razão e permita atomizar as tormentas que apoquentam a sua mente. Os elementos sobrenaturais não são descurados ao longo do filme, com um copo, uma torneira, um espírito, ou uma mensagem a poderem causar calafrios, embora os actos dos vivos também provoquem imensos estragos, que o diga Maureen quando se depara com uma situação hedionda. A procura desta personagem em contactar com o irmão gémeo é reveladora do apego que ainda sente em relação ao familiar, enquanto se procura libertar dos grilhões que a prendem a uma profissão pouco motivante e a um presente que não lhe parece trazer felicidade. O acto de vestir as roupas de Kyra surge como um gesto de rebeldia, que representa paradigmaticamente a tentativa de Maureen desafiar o presente e o passado, com esta personagem a precisar de encontrar paz interior para seguir em frente com a sua vida. Por vezes desconfiamos das suas hipotéticas habilidades como medium, com a mente a parecer pregar algumas partidas à protagonista, enquanto em outras situações acreditamos nesta figura que protagoniza uma série de episódios que a parecem preparar para uma nova fase da sua vida, com Kristen Stewart a transmitir que estamos diante de uma jovem solitária, que se encontra praticamente presa a um espaço onde não tem grandes contactos ou amigos. Com um desempenho notável de Kristen Stewart, "Personal Shopper" surge como um filme de fantasmas dotado de classe, elegância, doses assinaláveis de inquietação e um guarda-roupa cuidado, com Olivier Assayas a exibir precisão e inspiração na realização, enquanto joga eficazmente com as nossas expectativas e sensações.

Título original: "Personal Shopper".
Realizador: Olivier Assayas.
Argumento: Olivier Assayas.
Elenco. Kristen Stewart, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin, Nora von Waldstatten.