25 setembro 2017

Resenha Crítica: "Once Upon a Time in Venice" (Era Uma Vez em Los Angeles)

 Muitas das vezes escrevemos que um actor entrou num filme "para o cheque". Nada contra o facto de um intérprete querer encher os bolsos. O problema é quando temos de ver o resultado desse trabalho. "Once Upon a Time in Venice" é um desses filmes em que quase todos os elementos do elenco transmitem a ideia de que apenas estão a trabalhar para o cheque. Bruce Willis até parece estar a divertir-se imenso a interpretar uma caricatura de si próprio, tal como Jason Momoa, mas esse sentimento está longe de se reflectir nas nossas pessoas. Diga-se que o filme reflecte paradigmaticamente a fase menos fulgurante da carreira de Bruce Willis: feito maioritariamente para o mercado de VOD; realizado por um cineasta medíocre ou que não tem poder para controlar a vedeta (uma opção não exclui a outra); pontuado por um argumento vulgar e personagens desprovidos de complexidade. O realizador que não consegue domar a vedeta é Mark Cullen, um cineasta que se revela incapaz de elevar "Once Upon a Time in Venice" acima da mediocridade. Talvez o adjectivo seja demasiado severo, ou não estivéssemos acima de tudo perante um filme preguiçoso, que vive à sombra dos sucessos do passado de Willis e parece uma desculpa para uma parte considerável do elenco desfrutar de umas férias remuneradas. Willis interpreta Steve, um detective privado relativamente despreocupado e incompetente, que apenas exibe alguma perspicácia quando a duração do filme já vai longa. Este habita e trabalha em Venice Beach, um local dotado de contrastes, praias, belas mulheres e calor, que nos é inicialmente apresentado por John (Thomas Middleditch), o assistente do protagonista e narrador de serviço (a narração em off é utilizada de forma pouco pragmática).

23 setembro 2017

Resenha Crítica: "Il padre d'Italia" (2017)

 Ela cai-lhe nos braços. Ele leva-a para o hospital. Ela está sem rumo, tal como ele. Ela é Mia (Isabella Ragonese), uma cantora de pouco sucesso, que se encontra grávida, não sabe quem é o pai da criança e tarda em tomar precauções para proteger o rebento. Ele é Paolo (Luca Marinelli), um indivíduo que trabalha numa loja de móveis pré-fabricados, que ainda não ultrapassou o final da relação com Mario (Mario Sgueglia), o seu companheiro durante oito anos. Entre Paolo e Mia forma-se algo inicialmente estranho que aos poucos desemboca numa ligação forte. Luca Marinelli imprime uma postura introvertida, pragmática, solitária e algo pessimista a Paolo, algo que diferencia e muito este personagem de Mia. Por sua vez, Isabella Ragonese incute um tom extrovertido e despassarado a Mia, um espírito livre que vê quase tudo e todos a fecharem-lhe a porta. O namorado troca-a por outra, um ex-namorado morreu, enquanto que a família aceita-a temporariamente de volta, embora a postura conservadora dos familiares conduza a que a tempestade pareça aproximar-se a qualquer momento. Isabella Ragonese é uma actriz de grande competência, algo que volta a demonstrar em "Il padre d'Italia", um drama que beneficia e muito do talento da sua dupla de protagonistas. Nesse sentido, a actriz é essencial para transmitir a faceta vivaz e problemática deste espírito livre que nem sempre toma as melhores opções. Os tons loiros e rosados pontuam o seu cabelo de raízes escuras, com esta mistura de cores a espelhar a rebeldia de Mia e a confusão que vai no interior da alma desta cantora que começa a mexer e muito com o quotidiano de Paolo. Voltemos ao momento em que Mia cai nos braços de Paolo. Ambos estavam numa discoteca, com a luz vermelha a acentuar a inquietação e as mudanças fervilhantes que se aproximam, nomeadamente, a partir do episódio em que Mia desmaia e Paolo transporta-a até ao hospital. Esta melhora rapidamente e expõe o seu desagrado por ter perdido a carteira e os documentos, enquanto consegue convencer Paolo a levá-la de Torino até Asti, em particular, ao local onde supostamente vai ensaiar com a banda do namorado. Em Asti, Paolo depara-se desde logo com uma das muitas rejeições que Mia recebe: o namorado já está com outra, pronto a descartá-la.

19 setembro 2017

Resenha Crítica: "Home Again" (Uma Casa Cheia)

 Uma quarentona em crise, que se separou recentemente, recebe em casa três indivíduos mais jovens. Esta poderia ser a premissa de um filme pornográfico, ou de uma sitcom, ou de uma comédia romântica. É a premissa de "Home Again", um filme que não está em exibição no PornHub ou em sites do género, mas sim nas salas de cinema. Diga-se que "Home Again" não é um filme pornográfico, mas os seus diálogos e o seu argumento são maus ao ponto de parecerem perfeitos para uma obra de um género que outrora figurava nos cantos recônditos dos clubes de vídeo. Por sua vez, "Home Again", a primeira longa-metragem realizada por Hallie Meyers-Shyer (a filha de Nancy Meyers) teria de constar numa secção dedicada aos desastres colossais. Os diálogos são exasperantes, os personagens contam com a densidade de uma folha de papel, as situações de maior tensão raramente são sentidas ou desenvolvidas, os dilemas da protagonista são expostos de forma simplista e a banda sonora parece ter saído de um template que serve para qualquer comédia romântica. Junte-se uma miríade de momentos de humor que provocam mais bocejos do que risos e tudo piora. É tudo demasiado insípido e pouco genuíno, com Meyers-Shyer a realizar um mau filme de Nancy Meyers. Já Reese Witherspoon prova que gosta de dar uns quantos passos atrás na carreira, com a actriz a voltar a estampar-se ao comprido numa comédia. Witherspoon dá vida a Alice, uma mulher que se mudou com as jovens Isabel (Lola Flanery) e Rosie (Eden Grace Redfield), as suas filhas, para Los Angeles, tendo em vista a afastar-se temporariamente de Austen (Michael Sheen), o seu esposo.

18 setembro 2017

Resenha Crítica: "Kingsman: The Golden Circle" (Kingsman: O Círculo Dourado)

 Existe algo de extremamente apelativo em "Kingsman: The Golden Circle", seja a sua capacidade de manter o tom irreverente, enérgico, saudavelmente demente e politicamente incorrecto do primeiro filme, ou as coreografias de excelência das cenas de acção e o cuidado colocado no design de produção, ou as dinâmicas entre Taron Egerton e Colin Firth. É uma sequela que sabe aquilo que quer, ou seja, manter a alma do filme original, desenvolver os personagens apresentados em "Kingsman: The Secret Service" e colocá-los em situações novas, sempre com algumas doses de insolência e extravagância. Matthew Vaughn assume sem qualquer ponta de vergonha e com imenso descaramento que estamos diante de um filme de espionagem que simultaneamente utiliza e subverte as convenções do género, com o cineasta a conseguir balancear com um acerto notável o lado mais leve de "Kingsman: The Golden Circle" com a sua faceta mais séria e dramática. A destruição das bases da Kingsman e a aniquilação de uma boa parte dos seus operativos aparecem como um meio para Matthew Vaughn colocar Eggsy (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong) a deslocarem-se até aos EUA, tendo em vista a contactarem com a Statesman, a versão americana da agência de espionagem. Se a agência britânica tem uma alfaiataria de fachada e os seus integrantes assumem uma faceta de gentlemans, já os agentes yankees contam com uma postura de cowboys e têm no álcool e no whisky um negócio que aquece, e muito, o espírito. As adições são de luxo, com Jeff Bridges, Channing Tatum, Halle Berry e Pedro Pascal a darem vida e personalidade aos peculiares agentes da Statesman. Do lado dos antagonistas temos Poppy, a líder do Golden Circle, com Julianne Moore a inserir um estilo desequilibrado, mortífero, deliciosamente negro e caricatural a esta traficante que pretende que o seu negócio seja legalizado e coloca a humanidade em risco, em particular, aqueles que consomem drogas.

13 setembro 2017

Resenha Crítica: "Big Trouble in Little China" (As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim)

 "Big Trouble in Little China" (em Portugal: "As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim") é um filme que sabe aquilo que quer, nomeadamente, proporcionar uma esfuziante dose de entretenimento ao espectador. Também sabe aquilo que não quer, ou seja, levar-se totalmente a sério ou entrar por questões complexas. É um filme que encontra no caos o seu porto de abrigo, que tem na falta de sentido o seu sentido e na aventura e na fantasia os seus ingredientes mais preciosos, enquanto nos deixa diante de uma história onde não faltam lendas chinesas, artes marciais, estereótipos, a desconstrução da figura do "macho", algumas doses de romance e humor, bem como a habitual capacidade de John Carpenter para colocar os personagens em problemas no interior de espaços fechados (e o prazer de deixar umas pontas soltas no final do filme). Tal como em diversos filmes deste magnífico cineasta, a banda sonora tem um papel de relevo para sublinhar os acontecimentos que nos são apresentados, com a música a transmitir a mescla de aventura, fantasia e leveza que pontua esta obra cinematográfica dotada de uma série de episódios marcantes. Num determinado de "Big Trouble in Little China" encontramos Jack Burton (Kurt Russell) a aventurar-se pelo covil de Lo Pan (James Hong), o antagonista, um feiticeiro lendário, enquanto efectua uma entrada triunfal, acompanhado de diversos personagens, entre os quais Wang Chi (Dennis Dun), um amigo. Tudo parecia correr bem, até Jack expor a sua faceta desastrada e disparar de forma descoordenada para o ar, uma situação que conduz a que algumas pedras caiam em cima da sua cabeça e deixem-no temporariamente fora de combate. Não é o primeiro, nem o último momento em que John Carpenter aproveita a figura de Jack Burton para desconstruir a figura do herói e do "macho", enquanto permite que Kurt Russell componha um personagem icónico, com o actor a imprimir um tom extrovertido, desprendido e sardónico ao protagonista de "Big Trouble in Little China", um camionista com uma enorme propensão para se envolver em confusões e um gosto notório por camisolas de manga de cava. Note-se logo no início do filme, após o prólogo, quando encontramos Jack Burton a jogar com Wang Chi e mais outros elementos no interior de um estabelecimento situado na Chinatown de San Francisco, com o primeiro a exibir a sua faceta peculiar e algo fanfarrona.

12 setembro 2017

Resenha Crítica: "It" (2017)

 "It" é acima de tudo um filme sobre a ultrapassagem dos medos. É, também, uma obra cinematográfica sobre os laços que ligam um grupo de jovens e os rituais de passagem que fazem com que as crianças amadureçam. A atmosfera que rodeia o enredo tem muito de "The Goonies", ou não estivéssemos diante de um grupo de jovens que se encontram à margem, denominado de "The Losers Club", que conta com diversas idiossincrasias no seu núcleo e tem de lidar com algo que aparentemente ultrapassa as capacidades dos seus integrantes. Se em "The Goonies", o grupo do título tenta encontrar um tesouro, já em "It" os "Losers" têm de enfrentar uma ameaça que se alimenta dos medos dos jovens, nomeadamente, uma criatura que aparece quase sempre como o visual do palhaço Pennywise. Este é um ser que aparece de vinte e sete em vinte e sete anos e assume a forma dos maiores receios das crianças, seja um palhaço, ou uma figura que parece saída de uma pintura de Edward Munch. Diga-se que esta não é a única ameaça que os personagens principais de "It" enfrentam, com o realizador Andy Muschietti a conjugar com acerto o terror que advém da presença desta criatura com o receio inerente à acção de alguns seres humanos. Nesse sentido, o argumento (inspirado na obra literária homónima de Stephen King) explora com acerto a presença dos bullies, bem como temáticas como o abuso sexual de menores, o luto, a hipocondria, com quase todos os jovens a terem de ultrapassar os seus receios e lidarem com as dores de crescimento. "It" não poupa nos sustos, nem em algum "fogo de artifício", mas é nas dinâmicas que se estabelecem entre os jovens que mais acerta. É simplesmente admirável verificar o cuidado que Andy Muschietti colocou no estabelecimento de cada um dos personagens principais e nas ligações que estes formam, enquanto desenvolve as suas dinâmicas e revela-se um excelente condutor de actores. Andy Muschietti parte de alguns dos lugares-comuns para desenvolver algo que ganha vida, alma e sentido, sobretudo os personagens que povoam "It". 

10 setembro 2017

1917 no Ecrã: "Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov" (As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques)

 O Ciclo 1917 no Ecrã abriu na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema com "As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques" (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov), uma obra cinematográfica realizada por Lev Kuleshov. Com acompanhamento ao piano de Mário Laginha e apresentação de Peter Bagrov, a sessão contou com uma sala bem composta e bom cinema, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica de inestimável valor, que continua a manter uma vitalidade impressionante e a fazer sorrir o público. Estamos perante uma sátira à ignorância de alguns cidadãos dos EUA em relação à União Soviética, com Mr. John West (Porfiri Podobed), o protagonista, a surgir como a face mais visível desse desconhecimento. Este parte para a União Soviética na companhia do cowboy Jeddy (Boris Barnet), um amigo, funcionário e guarda-costas que tem uma habilidade inata para se envolver em confusões e desferir um número considerável de tiros. A preparação para a viagem conta com algumas situações hilariantes. Note-se as revistas que oferecem a Mr. West para alertá-lo sobre os bolcheviques (todos representados como figuras cavernículas com grandes bigodaças e enormes foices e martelos), ou os receios excessivos de Madge, a esposa do protagonista, ou o treino que Jeddy efectua para sobreviver na Rússia, nomeadamente, praticar o disparo. Na União Soviética, os destinos de Jeddy e Mr. West separam-se temporariamente. O primeiro protagoniza uma perseguição hilariante e uma fuga onde a mestria de Lev Kuleshov fica demonstrada. O segundo é alvo de um golpe por parte de um grupo de malfeitores de características peculiares. É a oportunidade para Lev Kuleshov utilizar elementos dos filmes dos EUA, sejam os westerns, as comédias, as obras que envolvem golpes, ou o burlesco, enquanto ficamos diante das aventuras de Jeddy e Mr. West no "País dos Bolcheviques". Mr. West e Jeddy chegam cheios de preconceitos, sobretudo o primeiro, mas, aos poucos, começam a conhecer este país para além dos clichés e a soltar-se dos lugares-comuns que guardavam no interior das suas mentes.

09 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Bad Batch - Terra Sem Lei"

 "When you shit here in comfort, your shit goes away (...) You shit. It leaves. You know why it leaves?" diz "The Dream" (Keanu Reeves) para Arlen (Suki Waterhouse), a protagonista de "The Bad Batch". São falas que resumem bem a mescla de estranheza e puerilidade que atravessa "The Bad Batch", com Ana Lily Amirpour a alternar momentos de alguma inspiração e comentários pertinentes com diálogos risíveis e uma auto-indulgência que sabota por completo o ritmo do filme. É uma auto-indulgência exasperante, que contribui para retirar ritmo, tensão e mistério a "The Bad Batch", com Ana Lily Amirpour a não saber separar aquilo que interessa para o enredo e para o filme e os elementos que considera interessantes. O que não deixa de despertar uma sensação agridoce ou não estivéssemos diante de um filme capaz de questionar a nossa moralidade em situações extremas, ou aquilo que é certo e errado, o bem e o mal, enquanto provoca, explana a relação de uma mulher com o corpo, expõe alguns comentários sobre a nossa sociedade e o tratamento dado aos imigrantes ilegais, quase sempre com uma atmosfera distópica à la "Mad Max". Diga-se que a saga "Mad Max" parece ter sido uma das grandes fontes de inspiração (para não chamar outra coisa) de Ana Lily Amirpour. Desde o território desértico onde o primado da lei é algo que não existe, passando pela distopia, as figuras deformadas ou peculiares, a "fábrica de grávidas", até à atmosfera de desesperança, "The Bad Batch" exibe que Ana Lily Amirpour tem as obras de George Miller em muito boa conta. Não temos suínos a contribuírem com fezes, mas a merda também marca o enredo de "The Bad Batch", seja aquela que é mencionada nos diálogos ou a que contribui para Arlen conseguir escapulir-se de um grupo de canibais que estão instalados numa zona árida e hostil.

07 setembro 2017

Resenha Crítica: "La fille de Brest" (150 Miligramas)

 Eis um filme que se preocupa com os personagens e o trabalho dos actores, que apresenta uma protagonista dotada de complexidade e insere uma emoção palpável aos acontecimentos retratados. Falamos de "La fille de Brest" (em Portugal: "150 Miligramas"), uma obra cinematográfica inspirada em episódios e acontecimentos reais, nomeadamente, a luta que Irène Frachon (Sidse Babett Knudsen) travou para comprovar e denunciar os efeitos secundários do Mediator, um medicamento fabricado e comercializado pelos laboratórios da Servier. O medicamento em questão provoca doenças cardíacas, embora tenha sido comercializado por mais de trinta anos e prescrito por um número significativo de especialistas. O enredo começa em Abril de 2009 e acompanha um conjunto de episódios que marcaram esta luta intrincada entre Irène e uma grande empresa farmacêutica. Todos nós gostamos de uma boa luta entre David e Golias (a não ser que estejamos no grupo deste último). Emmanuelle Bercot está consciente disso e expõe os acontecimentos de "La fille de Brest" a partir da perspectiva de Irène Frachon, uma pneumologista que inicia uma batalha hercúlea. Esta situação leva a que Sidse Babett Knudsen, uma intérprete que é sinónimo de fiabilidade, esteja quase sempre em destaque, com a actriz a brindar o espectador com uma interpretação maravilhosa. Sidse Babett Knudsen imprime humanidade e sensibilidade a esta mulher de personalidade vivaz e emotiva, que pensa acima de tudo no bem-estar e na segurança dos seus doentes. É médica num hospital de pouco estatuto, não é uma investigadora, mas isso não a impede de lutar pelos seus objectivos, bem pelo contrário. Emmanuelle Bercot não descura o desenvolvimento das diferentes vertentes desta médica, seja a sua faceta de esposa e mãe, ou o seu lado de pneumologista e colega. Irène tem uma relação de proximidade com o esposo e os filhos, com a habitação desta família a aparecer como um espaço onde a harmonia e a leveza predominam. No hospital, situado em Brest, Irène tem de conciliar os combates em várias frentes, seja a luta contra as doenças dos pacientes, ou a participação na investigação que visa comprovar os efeitos nocivos do Mediator.

05 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Limehouse Golem" (Os Crimes de Limehouse)

 Bill Nighy incute credibilidade, carisma e um tom ponderado a John Kildare um inspector experiente que é incumbido de investigar um caso que envolve uma série de homicídios. Embora seja um veterano, Kildare nunca liderou uma investigação relacionada com assassinatos, com tudo e todos a encararem o protagonista como uma espécie de "bode expiatório" para um possível fracasso na captura do homicida. O serial killer é denominado de Golem e protagonizou um número considerável de homicídios que aparentemente não contam com ligação entre si, algo que dificulta a tarefa do protagonista. Estamos em Inglaterra, em 1880, com a decoração Vitoriana, o smog e os assassinatos a marcarem o enredo de "The Limehouse Golem" (em Portugal: "Os Crimes de Limehouse"), bem como a atmosfera de suspeição, com Dan Leno (Douglas Booth), George Gissing (Morgan Watkins), Karl Marx (Henry Goodman) e John Cree (Sam Reid) a surgirem como os principais suspeitos destas mortes hediondas. Diga-se que John Cree foi recentemente vítima de assassinato, com Elizabeth (Olivia Cooke), a sua esposa, a ser a principal suspeita ao ponto de ser detida e julgada em tribunal. Os dois casos interligam-se, sobretudo por Kildare simpatizar com Elizabeth, mais conhecida como Lizzie, com o inspector a procurar salvar a artista da pena de morte ao mesmo tempo que tenta encontrar provas que incriminem um dos suspeitos. O protagonista parece acreditar que John Cree é o culpado, mas será que o falecido é mesmo o Golem? Os flashbacks acumulam-se, bem como a descoberta de provas e os interrogatórios aos suspeitos, enquanto descobrimos mais informações sobre Elizabeth e o caso que envolve o serial killer, com "The Limehouse Golem" a deambular entre a história desta mulher e a investigação. Dito assim parece que estamos diante de um whodunit de época e é precisamente isso que Juan Carlos Medina efectua, embora o cineasta não consiga escapar às armadilhas do subgénero, com as atenções a recaírem acima de tudo na descoberta da identidade do assassino, ou na possibilidade de ocorrer uma reviravolta após percebermos que existe um suspeito mais forte do que os outros.

03 setembro 2017

Resenha Crítica: "Logan Lucky" (Sorte à Logan)

 Não faltam prisioneiros amotinados que não acreditam no tempo excessivo que George R. R. Martin está a demorar para terminar de escrever o novo livro da saga "Game of Thrones", um grupo de "hillbillies" que planeia um assalto que aparentemente tem tudo para correr mal, dispositivos explosivos efectuados com recurso a sacos de gomas, personagens peculiares, uma banda sonora cheia de estilo e uma série de reviravoltas em "Logan Lucky", o filme que retirou Steven Soderbergh do seu curto exílio da realização cinematográfica. É um regresso em grande estilo e de grande nível, muito à "Ocean's Eleven" e a trazer à memória alguns dos bons exemplares dos filmes de assalto (sobretudo aqueles dotados de imenso humor à mistura), ainda que os protagonistas de "Logan Lucky" não tenham nem metade da perícia do grupo de Danny Ocean. Diga-se que em alguns momentos "Logan Lucky" quase que parece um "anti-Ocean's Eleven", ou Steven Soderbergh não despisse os seus protagonistas de glamour, inteligência e de capacidade para efectuarem planos intrincados. Um desses personagens principais é Jimmy Logan (Channing Tatum), um antigo trabalhador da construção civil. Outrora um jogador promissor de futebol americano, Jimmy caiu recentemente no desemprego devido ao facto dos seus superiores terem descoberto que este padece de um problema no joelho, algo que limita os seus movimentos. Jimmy é pai de Sadie (Farrah Mackenzie), uma jovem que vive com Bobbie Jo (Katie Holmes), a ex-mulher do protagonista, com Channing Tatum e Farrah Mackenzie a transmitirem que existe uma ligação forte a unir os personagens que interpretam. Diga-se que essa ligação entre pai e filha é estabelecida eficazmente desde os momentos iniciais do filme, com Steven Soderbergh a exibir imensa perícia a explanar rapidamente algumas das características dos personagens. Note-se quando Jimmy envolve-se numa cena de pancadaria no interior de um bar, com o olhar de Channing Tatum a permitir discernir a léguas que o protagonista vai partir para a luta e tem uma personalidade algo impulsiva. Channing Tatum insere um estilo simples, duro e pleno de humanidade a Jimmy, com o actor a incutir um sotaque tipicamente sulista a este indivíduo pouco polido e algo azarado.

01 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Trip to Spain" (A Viagem a Espanha)

 Num determinado momento de "The Trip", encontramos Rob Brydon a salientar "It's 2010, everything's been done before. All you can do the same but better or differently". "The Trip to Spain" está consciente disso, ou seja, não tenta fazer melhor do que "The Trip", ou "The Trip to Italy", os dois filmes anteriores da "saga", mas aparece como algo relativamente diferente e igualmente hilariante. Desta vez não encontramos as versões ficcionais e exageradas de Rob Brydon e Steve Coogan a viajarem pelo Norte de Inglaterra (como em "The Trip") ou por Itália (como em "The Trip to Italy"), mas sim por diversos territórios de Espanha, enquanto os protagonistas efectuam imitações, escarnecem um do outro, expõem os seus feitos e as suas fraquezas, provam boa comida e exibem um talento notório para a improvisação. "The Trip to Spain" é um hino à improvisação e à arte de fazer comédia, que beneficia imenso da mestria com que Steve Coogan e Rob Brydon dominam os timings humorísticos e transmitem a intimidade que marca a relação de amizade da dupla de protagonistas. É, também, um retrato sobre a masculinidade e a forma como os homens encaram o avançar da idade, a paternidade, o amor e a amizade, com "The Trip to Spain" a colocar-nos diante de dois indivíduos que se conhecem há bastante tempo. "The Trip to Spain" joga com o facto de já conhecermos estes personagens e as suas peculiaridades, seja o prazer que Rob tem em imitar a voz de Roger Moore, Michael Caine e Al Pacino, ou os comentários sardónicos de Steve, com Michael Winterbottom a criar a agradável sensação de que estamos a revisitar velhos amigos ao mesmo tempo que atribui novas camadas a estes personagens. Diga-se que essa sensação de familiaridade faz com que esperemos com ansiedade pelas reacções de Steve às imitações de Rob, ou aguardemos com alguma curiosidade pelo regresso do "homem na caixa", entre outros exemplos.

28 agosto 2017

Resenha Crítica: "American Made" (Barry Seal: Traficante Americano)

 "American Made" (em Portugal: "Barry Seal: Traficante Americano") capta com acerto os absurdos do "American Dream" e da política externa dos EUA, sempre com algumas doses de humor e leveza à mistura, enquanto nos apresenta a Barry Seal (Tom Cruise). Este é um piloto inspirado numa figura real (moldada no filme para se ajustar às características de Tom "Maverick" Cruise) que conta com uma história de vida deveras cinematográfica e protagonizou uma série de episódios que entroncam em acontecimentos mais latos. Ao longo de "American Made" encontramos Barry Seal a trabalhar para a CIA, a Casa Branca e o Cartel de Medellín, bem como a protagonizar uma série de peripécias e a permitir que Tom Cruise componha um personagem digno da nossa atenção. Tom Cruise imprime carisma a Barry Seal ao mesmo tempo que exacerba o lado simultaneamente oportunista, ingénuo, espirituoso e afável deste piloto que nem sempre parece estar consciente das consequências e dos perigos que envolvem o seu estilo de vida. No início de "American Made", encontramos Barry Seal, então um piloto da TWA, a ser contactado por Schafer (Domhnall Gleeson), um funcionário de baixo escalão da CIA. Estamos em pleno ano de 1978, durante a Guerra Fria, com Barry a receber um avião particular e a ser contratado para participar em operações secretas ao serviço da CIA. Primeiro tira fotografias de reconhecimento a baixa altitude a diversos territórios e guerrilheiros da América Central que se opõem aos regimes apoiados pelos Estados Unidos da América, algo que efectua com enorme sucesso ao ponto de despertar a atenção de Jorge Ochoa (Alejandro Edda), um dos membros do Cartel de Medellín. Entre avanços e recuos, Barry acaba por se ver na situação de transportar armas dos EUA para Nicarágua ao mesmo tempo que tenta manter os negócios lucrativos com o Cartel de Medellín, com o protagonista a envolver-se em imbróglios que colocam a sua vida em perigo. Veja-se ainda quando Barry é instruído para transportar para os Estados Unidos da América alguns Contras que se opõem aos Sandinistas, tendo em vista a que os primeiros sejam treinados em Mena, naquele que é mais um episódio que permite explanar a ingerência yankee na política dos países da América Central.