21 maio 2018

Crítica: "Umimachi Diary" (Our Little Sister)

 "Umimachi Diary" contém diversos traços transversais a várias obras de Hirokazu Koreeda, embora estejamos diante de um dos raros trabalhos do cineasta e argumentista que adapta material já existente, em particular, a série de manga homónima. É filme profundamente sensível e terno, onde os conflitos nunca atingem proporções extremas e as temáticas são abordadas com imensa subtileza, tendo no seu centro quatro personagens femininas dotadas de personalidade, carisma e dimensão. A união destas é realçada em diversos planos de conjunto e exposta com enorme precisão por Hirokazu Koreeda, com o cineasta a embrenhar-se pelo interior de temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, as especificidades da cultura e da sociedade japonesa, a religião e as memórias, sempre sem descurar uma enorme atenção a todos os pormenores e aos pequenos gestos do quotidiano que muito dizem sobre os personagens. O realizador é fiel a si próprio, seja na escolha das temáticas ou no modo sublime com que desenvolve os assuntos e as relações dos personagens, tendo ainda o auxílio de um elenco principal que conta com uma enorme química, algo essencial para explorar as dinâmicas de Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa), Chika (Kaho) e Suzu (Suzu Hirose), as quatro irmãs que dominam as atenções desta doce longa-metragem.

No início do filme, Sachi, Yoshino e Chika recebem a notícia de que o pai de ambas faleceu. Estas não contactavam com o progenitor há mais de quinze anos, nomeadamente, após este se ter divorciado de Miyako (Shinobu Ôtake), a mãe do trio. No funeral, encontram Suzu, a meia-irmã, com quem nunca tinham dialogado, embora a adolescente logo desperte a atenção de Sachi, que decide convidá-la para ir viver na casa do trio, em Kamakura. Estão lançadas as peças para a integração da jovem no interior da habitação das irmãs, um espaço que conta com uma atmosfera muito própria, tendo na personagem interpretada por Haruka Ayase a figura mais responsável. A intérprete é eficaz a transmitir a faceta sóbria, madura e honesta de Sachi, a irmã mais velha, uma enfermeira que lida diariamente com pacientes terminais e mantém uma relação com um médico casado (Shin'ichi Tsutsumi), algo que a coloca perante uma série de dilemas interiores. Esta é uma das figuras centrais do filme, bem como Suzu. A integração da jovem num novo espaço e no interior das dinâmicas da família surge como um elemento essencial desta obra, com Suzu Hirose a incutir uma certa candura à sua personagem, uma adolescente que está a formar e a afirmar a sua personalidade, gosta de jogar futebol, tem algum receio de falar sobre o pai com as irmãs e guarda no interior da sua alma uma certa dor pelo facto da mãe pouco se preocupar consigo.

18 maio 2018

Crítica: "Kono sekai no katasumi ni" (In This Corner of the World)

 Tendo maioritariamente como pano de fundo os territórios japoneses de Kure e Eba entre 1933 e 1946, "Kono sekai no katasumi ni" deixa-nos perante aqueles que lidam de perto com os efeitos da Segunda Guerra Mundial. O contexto histórico que envolve os personagens poderia contribuir para que o realizador Sunao Katabuchi decidisse enveredar por caminhos excessivamente melodramáticos. No entanto, aquilo que este consegue é algo bem mais fascinante e impressionante, com o cineasta e a sua equipa a conseguirem construir um filme de animação dotado de esperança, que balanceia com enorme acerto os momentos mais dramáticos com as situações de maior leveza. Pelo caminho, Sunao Katabuchi explana a realidade deste período, seja através do guarda-roupa ou dos hábitos dos personagens, ou do modo como a entrada do Japão na II Guerra Mundial começou a afectar o quotidiano de cada um e do território. Alguns episódios são pontuados por uma enorme delicadeza e subtileza, embora, em vários momentos, os bombardeamentos ou a entrada em cena de um clarão tragam consigo a destruição e o perigo, com os acontecimentos históricos a serem expostos e incluídos de forma precisa no interior da história dos personagens

No centro do enredo está Suzu (Rena Nônen), uma jovem sonhadora. Esta tem um grande talento para o desenho, uma afabilidade contagiante e uma aparente fragilidade que esconde uma enorme força interior. A partir do momento em que se foca em algo, Suzu esquece praticamente tudo aquilo que a rodeia, enquanto deixa a sua mente viajar pelos meandros da ilusão. Os momentos iniciais do filme servem para apresentar algumas destas características da protagonista, bem como o meio em que habita, em particular, a sua casa, em Eba (Hiroshima), onde vive com os pais (Masumi Tsuda como Kiseno e Tsuyoshi Koyama como Juro) e os irmãos. Esta mantém uma relação algo afastada com Yoichi, o irmão mais velho, embora seja próxima de Sumi (Megumi Han), a irmã, algo notório quando as encontramos a partilharem alguns momentos de maior leveza, ou proximidade. Em Abril de 1943, ainda com dezoito anos de idade, Suzu é pedida em casamento por Shusaku (Yoshimasa Hosoya), um indivíduo um pouco mais velho, com quem partilhara um episódio peculiar, embora já nem se lembre do semblante deste último. Embora não conheça bem o noivo, a jovem aceita o pedido de casamento, indo viver para a casa do primeiro e dos sogros, em Kure (também em Hiroshima), onde se depara com um espaço muito marcado pela presença da marinha e das embarcações militares, algo exposto com acerto. 

13 maio 2018

Crítica: "Sandome no satsujin" (O Terceiro Assassinato)

 Se algumas obras realizadas por Hirokazu Koreeda despertam uma sensação de paz de espírito, tais como "Umimachi Diary" e "Umi yori mo mada fukaku", já "Sandome no satsujin" leva-nos ao limite da dúvida, levanta questões pertinentes sobre a justiça e o sistema legal e apresenta a habitual capacidade do cineasta para conceder atenção aos pormenores. Pelo meio existe espaço para o realizador abordar temáticas muito típicas das suas obras, sobretudo a envolverem as relações familiares e as especificidades do Japão, sempre com uma subtileza e uma humanidade assinaláveis. No centro de boa parte do enredo estão Misumi (Kôji Yakusho) e Shigemori (Masaharu Fukuyama). O primeiro assassinou o seu chefe, queimou o corpo do mesmo e confessou o crime junto das autoridades, sendo bastante provável que seja condenado à morte. O segundo é um advogado que é chamado para trabalhar na defesa do acusado, tendo inicialmente uma série de certezas sobre o seu cliente, embora estas comecem a desvanecer-se com o avançar do enredo. 

"Não é preciso entender um cliente para defendê-lo" diz Shigemori a Kawashima (Shinnosuke Mitsushima), o seu assistente, uma frase que remete para a ideia de que os advogados procuram acima de tudo criar uma estratégia legal que defenda os interesses dos seus clientes e estão pouco preocupados com a verdade, embora o protagonista encontre-se longe de conseguir manter esse distanciamento. Diga-se que um dos grandes méritos de "Sandome no satsujin" é exactamente a espessura que atribui aos dois protagonistas. O assassino aparece como uma figura dotada de dimensão e complexidade, que intriga, desperta curiosidade e conta com uma aparente afabilidade que contrasta com os actos hediondos que cometeu (já tinha cumprido pena por duplo assassinato), algo transmitido na perfeição por Kôji Yakusho. Este imprime sobriedade e uma aparente brandura a Misumi, um personagem incongruente, que nunca sabemos ao certo se está perturbado, ou a tentar jogar com os advogados, ou a esconder algo, com a sua atitude de confessar o crime de homicídio e furto a dificultar e muito a tarefa de Shigemori. Masaharu Fukuyama insere um estilo inicialmente despreocupado ao seu personagem, embora o advogado comece aos poucos a ser invadido por uma miríade de dúvidas, sobretudo quando começa a investigar o seu cliente e os acontecimentos que envolveram o crime.

10 maio 2018

Crítica: "Umi yori mo mada fukaku" (After the Storm)

 Como lidar com a noção de que não concretizámos os nossos sonhos ou objectivos? Qual a melhor forma de enfrentar a sensação de que não conseguimos corresponder a todas as expectativas que criaram em nosso redor? Estas são perguntas que parecem acompanhar e atormentar Ryota (Hiroshi Abe), o protagonista de "Umi yori mo mada fukaku", um detective endividado, que outrora chegou a ser considerado um escritor promissor. Diga-se que a espaços parece que Hirokazu Koreeda também está a confrontar-nos com essas questões, com o realizador a mesclar com precisão diversos elementos tipicamente japoneses com situações e sentimentos amplamente universais que ressoam e muito junto do espectador. O cineasta volta a agarrar em pequenos pedaços da vida e a transportá-los para o interior do enredo de um filme da sua autoria, enquanto regressa às temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, a religião, o embate entre a modernidade e a tradição, as permanências e divergências entre gerações, a memória, sempre num estilo muito sóbrio, honesto e extremamente delicado.

Existe um enorme sentimento e sentido de harmonia a rodear não só os vários acontecimentos de "Umi yori mo mada fukaku", mas também a banda sonora, a composição dos planos e os gestos dos personagens, com Hirokazu Koreeda a deixar tudo fluir com imensa naturalidade e brandura. No centro de boa parte dos acontecimentos estão as relações familiares dos diversos elementos que passamos a conhecer ao longo do enredo, bem como as memórias que guardam e a forma como enfrentam o facto das suas vidas nem sempre terem prosseguido pelos caminhos que estes esperavam percorrer. A certa altura do filme, encontramos Yoshiko (Kirin Kiki), a mãe de Ryota, a questionar-se: "Pergunto-me porque os homens não conseguem amar o presente. Ou continuam a perseguir o que já perderam, ou continuam a sonhar além do seu alcance. Como podem aproveitar a vida desse jeito?" É uma pergunta pertinente, que reflecte paradigmaticamente os dilemas da maioria dos personagens desta longa-metragem, sobretudo do rebento da veterana. Diga-se que, em certa medida, Ryota depara-se com alguns dos problemas do falecido pai e apresenta comportamentos semelhantes ao mesmo, sobretudo no que diz respeito à capacidade de se endividarem, algo que preocupa a progenitora.

07 maio 2018

Crítica: "Tsukiji Wonderland" (2016)

 "Tsukiji Wonderland" consegue transmitir o entusiasmo, o rigor e a energia dos vários elementos que contribuem para que o mercado de Tsukiji conte com uma atmosfera especial e surja como um pedaço fundamental de Tóquio e do Japão. Realizado por Naotarô Endô, o documentário transporta-nos para o interior daquele que é considerado o maior mercado atacadista de peixes e frutos do mar do Mundo, um entreposto de enormes dimensões, situado no centro de Tóquio, que conta com rotinas muito particulares e uma imensidão de pessoas a circularem no seu interior. Entre trabalhadores e compradores, este estabelecimento conta diariamente com a presença de cerca de quarenta e duas mil pessoas, com o filme a captar as dinâmicas muito próprias que existem no seio deste lugar, sobretudo as relações de confiança entre os clientes e os nakaoroshi (os grossistas), bem como o conhecimento destes últimos e o respeito que têm pelo seu ofício e pela satisfação daqueles que recorrem aos seus serviços. 

Acima de tudo ficamos perante um modo de vida muito particular, com "Tsukiji Wonderland" a conduzir-nos para o interior de toda uma cultura distinta e fascinante ao mesmo tempo que aborda diversos assuntos relacionados com este espaço, tais como a sua importância para os trabalhadores e os clientes, a sua arquitectura, o seu papel na História do Japão e da cidade de Tóquio, entre outros exemplos. Por vezes excede-se e avança por caminhos redundantes, mas o interesse da informação que é disponibilizada e das entrevistas superam e muito algumas das suas pequenas escorregadelas. Diga-se que Naotarô Endô demonstra que efectuou um cuidado trabalho de pesquisa, com os dezasseis meses de filmagens e as mais de cento e cinquenta entrevistas efectuadas pelo cineasta e a sua equipa a contribuírem para que o documentário transmita a relevância deste mercado e as especificidades que envolvem o dia a dia neste local, para além de despertar uma vontade enorme de observar com mais atenção as particularidades do quotidiano em recintos do género. 

02 maio 2018

Crítica: "Hikari" (Esplendor)

 Profundamente romântico, cândido e terno, "Hikari" surge como um raio de sol que ilumina a alma e aquece o coração. No seu centro estão dois personagens sensíveis, solitários, pouco faladores, dotados de espessura e capazes de despertarem empatia. Esses personagens são Misako Ozaki (Ayame Misaki) e Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase). Ela escreve os textos para as audiodescrições de filmes (destinadas a cegos ou a deficientes visuais), tem uma sensibilidade muito especial e procura transmitir as emoções da Sétima Arte a partir dos seus escritos. Ele é um conhecido fotógrafo que está a perder lentamente a visão e tem na sua Rolleiflex o seu coração. Os dois entram em contacto nas reuniões entre Misako e um grupo de deficientes visuais, que têm como objectivo aferir o que resulta ou não no interior dos textos e limar os mesmos. Diga-se que estes eventos contribuem ainda para expor a forma bem viva como alguns cegos conseguem captar a essência do cinema, bem como o desejo da protagonista em transmitir uma plêiade de emoções aos homens e mulheres que escutam a obra cinematográfica e a narração que descreve a mesma.

Um dos vários méritos desta longa-metragem centra-se exactamente na sua capacidade para apresentar de modo credível e delicado a realidade que envolve a produção das audiodescrições. Outro dos seus méritos é o de expor com enorme precisão a forma como os deficientes visuais absorvem este tipo de conteúdos, com o trabalho de Arata Dodo a ser essencial para esse feito. O director de fotografia e a realizadora Naomi Kawase apostam numa série de planos fechados que permitem realçar as expressões que percorrem os rostos dos diversos personagens que povoam a sala de reuniões, um cenário onde imensas experiências e sugestões são partilhadas, com "Hikari" a colocar-nos perante o modo muito particular como os cegos e deficientes visuais contactam e relacionam-se com o cinema. É uma ligação que a espaços traz à memória a relação que formamos com os livros, com muito a ser concebido na mente e com recurso à criatividade, com esta longa-metragem a exibir de forma paradigmática a capacidade que o cinema tem para transportar-nos para o interior de realidades que não dominamos ou conhecemos de forma clara.

29 abril 2018

Crítica: "Adua e le compagne" (1960)

 Adua (Simone Signoret), Lolita (Sandra Milo), Marilina (Emmanuelle Riva) e Caterina (Gina Rovere) bem tentam fugir ao passado, mas este parece fazer questão de perseguir as protagonistas de "Adua e le compagne" e de expor os contornos cruéis do destino e da sociedade italiana durante o denominado "milagre económico". Estamos diante de um filme que se move pelas franjas do drama social, sempre com alguns pedaços de humor à mistura, embora a atmosfera de desesperança contamine muitas das vezes esta obra cinematográfica que nos coloca perante quatro antigas prostitutas que tentam abrir um restaurante e mudar o rumo das suas vidas. No entanto, o destino e a sociedade parecem ter planos diferentes para estas mulheres, algo que fica paradigmaticamente demonstrado ao longo do enredo da quinta longa-metragem realizada por Antonio Pietrangeli, com o cineasta a explanar, tal como em "Io la Conoscevo Bene" (1965), o embate doloroso entre os sonhos das personagens principais e a realidade. Ficamos perante algumas das transformações da sociedade italiana durante o chamado "milagre económico", com a lei Merlin, que consiste na proibição dos bordéis, a mexer com o quotidiano das protagonistas.

É a lei Merlin que leva Adua, Lolita, Marilina e Caterina a abandonarem os seus antigos ofícios, algo exposto no início do filme, com uma parte considerável destas mulheres a acreditar que tem aqui a oportunidade ideal para mudar de vida. Não é tarefa fácil, com Adua, Caterina, Marilina e Lolita a perceberem gradualmente essa situação, sobretudo quando decidem unir esforços para abrirem um restaurante. São imensos hábitos e rotinas que têm de largar, diversas dificuldades que precisam ultrapassar e uma série de conhecimentos que vão ter de adquirir, com Antonio Pietrangeli a desenvolver com acerto as dinâmicas destas personagens. Adua é a líder do quarteto, com Simone Signoret a transmitir a experiência e o lado prático desta mulher. Aos poucos percebemos que esta também tem uma faceta mais ingénua, seja quando demonstra que acredita na possibilidade de poder obter facilmente uma licença para abrir o restaurante, ou na ocasião em que deixa cair as suas defesas e começa a corresponder aos avanços de Piero (Marcello Mastroianni), um vendedor de automóveis mulherengo, extrovertido e pouco confiável. 

18 abril 2018

Críticas e/ou classificações a filmes estreados em 2018 (circuito comercial)

Janeiro:

- The Killing of a Sacred Deer (5/5).
- L'amant d'un jour (4/5).
- Pop Aye (3/5). 
- Aus dem Nichts (4/5). 
- Ôtez-moi d'un doute (3/5).
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (4/5).
- Molly's Game (4/5).
- Call Me By Your Name (5/5).
- Mudbound (3.5/5).
- Kedi (3.5/5).
- Faithfull (1.5/5). 

Fevereiro:

- Nelyubov (4/5).
- Visages villages (4.5/5).
- Amor Amor (4/5).
- The Florida Project (4.5/5).
- Alias Maria (3/5).

Março: 

- No Intenso Agora (4/5).
- Como Nossos Pais (4/5).
- Lady Bird (3/5).
- Aparição (3.5/5).
- Sandome no satsujin (4/5).

Abril:

Goksung (4/5).
- La ragazza nella nebbia (3/5).
- Ammore e malavita (3/5).
- The Death of Stalin (3.5/5).
- Insyriated (3/5).
- Au revoir là-haut (3/5).
- The Place (4/5).


Maio:

- Martírio (4/5).
- You Were Never Really Here (1.5/5).
- Frantz (4/5).
- Submergence (2/5).
- Die göttliche Ordnung (2/5).
- Mr & Mme Adelman (3/5).
- Le Redoutable (3/5).
- L'atelier (3.5/5).

Junho:

- Les gardiennes (4/5).
- Nico, 1988 (3.5/5).
- Nagai iiwake (4/5).
- Hikari (4/5).
- Western (3.5/5).
- Columbus (4/5).
- A Ciambra (3.5/5).
- Touchez pas au grisbi (reposição).
- Ascenseur pour l'échafaud (reposição).
- Banshun (reposição).

Sem data definida:

- Vazante (4/5).
- Praça Paris (3/5).
- Sicilian Ghost Story (4/5).

15 abril 2018

Crítica: "L'ora legale" (2017)

 Capaz de despertar reflexão e de fazer com que questionemos os nossos valores e práticas diárias, "L'ora legale" surge como uma comédia mordaz, extremamente certeira nos seus comentários e a escarnecer dos hábitos do povo e dos políticos italianos, sobretudo no que diz respeito ao enraizamento da ilegalidade. O enredo tem como pano de fundo uma cidade ficcional do Sul de Itália, embora boa parte das suas temáticas sejam extremamente universais, algo que potencia o efeito de alguns dos comentários e dos gags que pontuam a quinta longa-metragem realizada por Ficarra e Picone. Será que queremos que as leis sejam respeitadas? Desejamos que os políticos cumpram todas as suas promessas eleitorais? Pretendemos alguém verdadeiramente honesto a governar? Os cidadãos de Pietrammare, uma cidade situada na Sicília, pretendem uma mudança. Diga-se que no início do filme quase todos os habitantes deste espaço citadino responderiam afirmativamente a estas três questões, ou o local onde habitam não estivesse num estado caótico e em campanha eleitoral.

Nos momentos iniciais de "L'ora legale" somos colocados perante as campanhas de Pierpaolo Natoli (Vincenzo Amato) e Gaetano Patanè (Tony Sperandeo) para a presidência da câmara municipal. O primeiro é um professor conhecido pela seriedade e honestidade, tem um programa muito claro para governar o território e é respeitado pela comunidade local. O segundo é o actual presidente, um indivíduo que procura continuar as suas políticas pouco claras, é contestado e não tem problemas em fugir à verdade ou em desrespeitar a lei. Note-se quando defende em entrevista o serviço que efectuou ao longo dos seus mandatos, enquanto somos colocados perante o caos que reina no território, seja o trânsito excessivo, o lixo pelas ruas ou o desrespeito pelas leis. É um momento pontuado por algum humor, que transmite paradigmaticamente a ideia de que é necessária uma mudança no interior deste espaço citadino. A contestação a Patanè é notória, embora o político conte com o apoio de elementos como Salvo (Ficarra), o irmão da falecida esposa de Natoli. Salvo possui um quiosque em sociedade com Valentino (Picone), o esposo de Francesca (Ersilia Lombardo), a irmã do professor. Por sua vez, o personagem interpretado por Picone é um apoiante de Natoli, algo que leva a um ou outro choque entre os dois sócios e protagonistas desta comédia.

Crítica: "Gatta Cenerentola" (2017)

 Pontuado por uma reunião improvável de elementos de fábula, obras sobre a máfia, noir, ficção científica, drama e acção, "Gatta Cenerentola", um filme de animação livremente inspirado no conto "Cenerentola" de Giambattista Basile e no musical "La Gatta Cenerentola", comprova paradigmaticamente a coragem, a criatividade, a audácia e o talento de Alessandro Rak, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Dario Sansone. O quarteto de realizadores transporta-nos para o interior de uma obra com alma napolitana, que desperta um estranho fascínio e não tem problemas em envolver-se por caminhos mais crus e violentos. Não existe espaço para abóboras, ratinhos simpáticos, ou fadas "à Disney", muito menos para um príncipe encantado. Até temos um "rei", mas este é um traficante de droga com um estilo semelhante a um proxeneta, com o tráfico, a prostituição e a Camorra a serem uma realidade no interior desta obra que se embrenha por um lado mais negro dos contos. Diga-se que "Gatta Cenerentola" também se envolve por emoções bem reais, tais como o sentimento de perda, a ambição, a saudade e a melancolia, com o argumento a mesclar com acerto as diferentes componentes que integram esta obra deveras invulgar. 

A faceta de ficção científica de "Gatta Cenerentola" é visível desde os momentos iniciais, nomeadamente, quando somos colocados perante os planos de Vittorio Basile (Mariano Rigillo), um magnata do sector naval. Este conta com um forte interesse pela tecnologia e pretende transformar o porto de Nápoles num pólo dedicado à ciência e à memória. O gosto de Vittorio pela inovação é particularmente notório quando observamos o Megaride, o seu barco, um veículo dotado de uma tecnologia avançada que permite registar tudo o que decorre no seu interior e converter aquilo que capta em hologramas. Diga-se que o Megaride é o cenário primordial do filme, com a equipa responsável pela animação a transportar-nos para o interior de um espaço pontuado por imensas divisórias e luxos, que é capaz de despertar sentimentos tão díspares como encanto e receio. Observe-se os hologramas de uma miríade de peixes que trazem consigo uma certa sensação de fascínio, ou a decoração elegante e retro-futurista, embora a presença de figuras como o mafioso Salvatore Lo Giusto (Maria Pia Calzone), um traficante e cantor que se autodenomina de "rei", transportem alguns perigos para o interior deste veículo. No início do filme somos colocados perante o entusiasmo e a crença de Vittorio na humanidade e na ciência, bem como na presença do seu amor por Nápoles e pela filha, a jovem Mia. Esta encontra-se regularmente acompanhada por Primo Gemito (Alessandro Gassman), um polícia fiável e receoso que foi destacado para cuidar da segurança do viúvo.

14 abril 2018

Crítica: "La tenerezza" (2017)

 O título de "La tenerezza" não engana. Estamos diante de um drama terno, que a espaços tem a capacidade de partir o nosso coração, mesmo quando cede excessivamente ao sentimentalismo, ou cai em redundâncias. A selecção da canção "Mia fora thumamai" para abrir o filme exacerba a faceta melancólica, doce e comovente desta obra cinematográfica inspirada no livro "La tentazione di essere felici", com a restante banda sonora a acompanhar a música de abertura. A banda sonora é inserida de maneira harmoniosa no interior do enredo, com o realizador Gianni Amelio a saber utilizá-la ao serviço da história e dos acontecimentos que retrata. No início de "La tenerezza" somos colocados diante de Elena (Giovanna Mezzogiorno) a traduzir em tribunal as palavras que um migrante profere diante de um juiz. Pouco tempo depois, acompanhamos a tradutora no hospital, onde encontra Saverio (Arturo Muselli), o seu irmão, com os dois a terem ido visitar Lorenzo (Renato Carpentieri), o pai de ambos, um advogado caído em desgraça que sofreu um ataque cardíaco. Esta fala com o pai, enquanto o veterano finge que se encontra a dormir, algo que permite dar a conhecer que os dois contam com uma relação conturbada. Inicialmente pensamos que esta é a protagonista, sobretudo pelo realizador Gianni Amelio conceder-lhe imensa atenção, embora o destaque passe rapidamente para o personagem interpretado por Renato Carpentieri, com o actor a surgir como a grande alma do filme. 

 Renato Carpentieri tem o dom de fazer com que acreditemos no seu personagem, um veterano que tanto tem de egoísta e pouco caloroso como de prestável e afável, com o actor a conseguir transmitir a solidão do veterano e o seu estilo desembaraçado, bem como a sua personalidade vincada. Sabemos que não é perfeito, mas é exactamente isso que o torna profundamente humano e completo como personagem, com Gianni Amelio a fornecer-nos gradualmente mais informações sobre o protagonista ao mesmo tempo que concede espaço para Renato Carpentieri ter diversos momentos merecedores de atenção. Lorenzo é um viúvo que habita sozinho no interior de um apartamento situado em Nápoles, uma cidade que é exposta com sobriedade em alguns momentos do filme. Quando regressa a casa, após o internamento, depara-se com Michela (Micaela Ramazzotti), a sua nova vizinha, sentada nas escadas do prédio. Logo travam conversa e rapidamente formam amizade. Ela esqueceu-se das chaves, tem um sorriso contagiante e permite a Micaela Ramazzotti colocar mais uma vez em evidência que é uma actriz de enorme talento. Esta expõe as inquietações da sua personagem, o seu lado mais frágil e doce, bem como a afeição que nutre pelos filhos e por Fabio (Elio Germano), o seu esposo. Se a relação de Lorenzo com os filhos é contaminada por mágoas, desentendimentos antigos e um certo afastamento, já a ligação que este forma com a família de Michela é marcada pela ternura e cumplicidade. 

13 abril 2018

Crítica: "L'intrusa" (2017)

 A humanidade, a delicadeza, a subtileza e a precisão com que aborda as suas temáticas e desenvolve os seus personagens são alguns dos maiores trunfos de "L'intrusa", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Leonardo di Costanzo. Outro dos seus trunfos é Raffaella Giordano, com a intérprete a conseguir transmitir a bondade e o altruísmo da sua Giovanna, uma assistente social que tem um papel activo a ajudar os outros, nomeadamente, através do centro "La masseria", que fundou há largos anos e gere com afinco. O centro foi criado com o objectivo de cuidar das crianças mais desfavorecidas no período pós-escolar e proporcionar actividades e apoios que permitam evitar que estes rapazes e raparigas se envolvam em problemas. Diga-se que as rotinas desta instituição são apresentadas com uma eficácia notória, com os momentos iniciais a deixarem-nos desde logo perante algumas das actividades que decorrem no local, bem como com a interacção entre os jovens com os vários assistentes sociais. Uns jovens estão no grupo destinado à pintura, outros a arranjarem bicicletas, com Giovanna a surgir como o grande elo de ligação e alma deste espaço. No entanto, esta é colocada perante um dilema intrincado que não só coloca o funcionamento do centro em risco, mas também desafia os seus valores e as dinâmicas deste espaço.

O dilema nasce de um episódio que ocorre ainda numa fase bastante prematura do filme. Diga-se que este episódio permite colocar em evidência a forte influência da máfia no território, ou o centro não estivesse situado em Nápoles. Giovanna deixara que Maria (Valentina Vannino) e os seus dois filhos permanecessem temporariamente numa casa no interior do centro que é destinada aos mais desfavorecidos. O que a protagonista não sabia é que Maria é esposa de Amitrano (Carmine Paternoster), um membro da Camorra. Muito menos que este é perseguido pelo assassinato de um indivíduo e está escondido no interior deste espaço habitacional. A protagonista descobre tudo isto da pior forma: quando a polícia cerca a habitação onde a personagem interpretada por Valentina Vannino está instalada. Esta abandona temporariamente o local, mas regressa passado pouco tempo, algo que gera alguma apreensão tanto nos trabalhadores como nos pais dos petizes e no grupo de responsáveis da escola que deixa os alunos deslocarem-se ao centro. Giovanna é pressionada por quase tudo e todos para expulsar Maria e os dois rebentos do local, embora a protagonista faça questão de tentar que os seus valores prevaleçam e de evitar tomar decisões precipitadas. Nesse sentido, a assistente social procura manter Maria no centro, bem como integrar Rita (Martina Abbate), a filha mais velha da segunda, junto dos outros jovens.

12 abril 2018

Crítica: "Surbiles" (2017)

Se nem sempre convence, também não deixa de ser notório que "Surbiles" tem o mérito de deixar-nos muitas das vezes desarmados e inquietos, com o realizador Giovanni Columbu a fazer com que deslizemos pelo interior desta obra que se movimenta pelas franjas do documentário e da ficção. A sua atmosfera é próxima à de um sonho, ou de uma assombração, enquanto ficamos diante de uma miríade de situações relacionadas com as criaturas do título. Observe-se o episódio que é exibido logo nos momentos iniciais, nomeadamente, quando somos colocados perante uma mulher a perambular pelas ruas durante a noite e a bater à porta de várias habitações. O trabalho de câmara reforça o mistério e as características quase labirínticas dos espaços por onde esta figura circula, enquanto os receios dos moradores (expostos em fora de campo) e a parca iluminação nocturna adensam a inquietação em volta dos objectivos desta estranha personagem. Será que estamos diante de alguém que quer ajuda ou de uma Surbile?

Estes seres são apresentados no início da obra e na sinopse disponibilizada pelo site da Festa do Cinema Italiano, onde "Surbiles" integra a secção Altre visione: "Surbiles são criaturas femininas lendárias, muito semelhantes aos vampiros, que pertencem há séculos à fantasia popular da Sardenha. Aparentemente como as outras, estas mulheres abandonam o seu corpo entre o pôr-do-sol e a madrugada, enquanto dormem ou quando recorrem a drogas, entrando nas casas para sugar o sangue das crianças. No passado, estas mulheres foram culpadas pela morte súbita e inexplicável de muitas crianças nas aldeias da Sardenha Central". Giovanni Columbu utiliza um estilo quase documental para apresentar as surbiles e algumas histórias relacionadas com as mesmas. Veja-se os depoimentos prestados por uma idosa que salienta que quando era mais nova ninguém lhe falara sobre as criaturas, algo que se repete com outra senhora vetusta. Diga-se que o cineasta ainda recolhe depoimentos de outras figuras, enquanto desperta a dúvida em relação à autenticidade dos testemunhos. Estaremos perante discursos genuínos ou diante de algo puramente ficcional? A segunda hipótese parece ser mais provável, embora "Surbiles" procure não abrir o jogo.

11 abril 2018

Crítica: "The Place" (2017)

 Instado por Chiara (Alba Rohrwacher), uma freira, a responder se acredita em Deus, o protagonista (Valerio Mastandrea) de "The Place" comenta que acredita nos detalhes. Tudo está nos detalhes para este indivíduo misterioso e para Paolo Genovese, o realizador desta obra cinematográfica. O cineasta volta a utilizar na justa medida o cenário primordial onde decorre o enredo, bem como a efectuar comentários sobre a sociedade contemporânea e a natureza humana, um pouco à imagem de "Perfetti sconosciutti", uma obra cinematográfica onde também conseguia conciliar com acerto as intrincadas histórias de um número alargado de personagens. Diga-se que encontramos diversos nomes em comum entre os dois filmes, inclusive o de Valerio Mastandrea, o intérprete do enigmático protagonista de "The Place", uma fita livremente inspirada na série "The Booth at the End".

Valerio Mastandrea consegue incutir uma mistura de benevolência e malícia ao seu personagem, um indivíduo aparentemente ponderado, que se encontra sempre no restaurante do título, onde é interpelado por um conjunto de homens e mulheres. Todos querem colocar as habilidades do personagem principal à prova, em particular, a sua capacidade para conceder desejos, ainda que este peça em troca o cumprimento de uma tarefa intrincada. Diga-se que este não obriga ninguém a efectuar esses actos e repete por diversas vezes que os utilizadores dos seus serviços podem recuar nas suas intenções, uma atitude que permite desafiar os valores morais daqueles que o interpelam. O argumento consegue estabelecer rapidamente a personalidade de cada elemento que procura os serviços deste homem cujo nome desconhecemos, bem como a facilidade ou a dificuldade com que encaram a missão que lhes é incumbida, com as histórias e os caminhos de alguns destes personagens a cruzarem-se e a conduzirem a situações inesperadas ou mais tensas. O elenco é de grande nível e contribui para elevar a interacção entre as figuras que povoam o enredo, enquanto observamos as suas entradas e saídas do estabelecimento do título, com nomes como o do já mencionado Valerio Mastandrea, ou de Alba Rohrwacher, Marco Giallini, Giulia Lazzarini, Rocco Papaleo e Sabrina Ferilli a mostrarem carisma e talento.

10 abril 2018

Crítica: "Nico, 1988" (2017)

 Em diversas ocasiões de "Nico, 1988" é possível observarmos a personagem do título a tragar cigarros, inclusive durante a preparação ou a realização de concertos. É algo que adensa o mistério em volta desta figura, bem como a sua apetência pelos prazeres efémeros ao mesmo tempo que realça a fugacidade da vida e exacerba uma sensação de finitude. Essa sensação de término é assinalada desde logo pelo título do filme, pronto a realçar o último ano da vida de Christa Päffgen (Trine Dyrholm), mais conhecida como Nico. Diga-se que nos momentos iniciais do filme encontramos a artista em Ibiza, a fumar, enquanto o fumo dos cigarros esvoaça pelo cenário e desaparece, quase que a realçar que estamos perante o aproximar do final da vida da artista. O enredo logo recua para 1986, com a realizadora Susanna Nicchiarelli a acompanhar os últimos dois anos da vida da cantora, enquanto vagueia pelas franjas do road movie e do filme biográfico. É uma decisão que permite fugir às convenções dos biopics que procuram abordar um período demasiado alargado da vida das figuras retratadas, enquanto deixa que Trine Dyrholm componha uma Nico dotada de complexidade, personalidade e presença em palco. 

Trine Dyrholm foge à mera mimetização e constrói uma personagem aparentemente pouco preocupada com aquilo que pensam de si, que prefere falar do presente e não reverencia o passado, enquanto viaja de território em território em busca de um som ideal e de se reencontrar com o filho (Ari, interpretado por Sandor Funtek). Susanna Nicchiarelli é fiel aos ideais e ideias da protagonista ao não focar as atenções no período Velvet Underground, ou nos homens que marcaram a vida desta mulher e foram marcados pela mesma. Não faltam trechos de Nico a expor o seu enfado perante as entrevistas que se focam excessivamente no passado, ou a dessacralizar os tempos em que foi modelo e fez parte dos Velvet Underground. Diga-se que Susanna Nicchiarelli não tem problemas em expor o lado mais errático da protagonista, seja o vício pelas drogas, ou alguns actos problemáticos nos concertos, algo que atribui espessura a esta personagem que apresenta uma postura que varia entre a vulnerabilidade e a arrogância, que tanto tem de sensível como de egoísta, ou seja, é uma protagonista complexa e dotada de humanidade.